Category: Cruzeiros marítimos

Navegando – 5ª parte – J.Carino

Por Carino, 12 de fevereiro de 2009 7:15

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Façam o jogo!

Cassinos e jogadores atraem, fascinam. Têm sido tema tanto de livros geniais, como “O jogador”, de Dostoievski, quanto de excelentes, medíocres ou péssimos filmes. O glamour, a ânsia de ganhar, o jogo como perdição e o próprio ambiente dos cassinos exercem uma atração incrível. Haja vista, por exemplo, os turistas que o ano inteiro entopem Las Vegas – aquele falso oásis de questionável felicidade, cheio de miragens em que as moedas de ouro tilintam diante de jogadores que apostam fortunas ou caraminguás.

Pois bem, a muitos atrai também o cassino que existe no navio.

Embora modestíssimo, na comparação com seus congêneres em terra firme, o cassino à bordo também tem lá seu charme e quase uma aura de mistério, criada, imagino, por ficar ali, à mão, no mesmo corredor por onde se vai a dois dos restaurantes e bares. Todos – velhos, jovens, crianças – transitam diante daquelas portas nas quais cartazes bem visíveis avisam que aos menores é proibido o jogo, ou anunciando que o cassino só funciona com o navio em movimento.Há máquina caça-níqueis posicionadas estrategicamente no corredor que leva ao cassino. Vistosas, construídas em plástico negro, vidro e metal, exibem seu display colorido, onde piscam luzes e de onde saem sons, atraindo a atenção de todos, mesmo os não ligados em jogos, como é o meu caso.

Essas máquinas prometem aos aficcionados o momento tão esperado, quando uma combinação mágica se estabelece, as luzes piscam nervosamente e, finalmente, sobrevém o barulho das centenas de fichas caindo num reservatório de metal. Isso tudo indica que um jogador ou jogadora sortudos conseguiram acertar as combinações e terão direito a um grande prêmio.

Não vi no navio um momento desses. Mas ouvi dizer que uma senhora ganhara o equivalente a uns 1200 dólares. Foi o bastante para que as conversas no corredor e à entrada do cassino girassem em torno do assunto, dizendo-se, por exemplo, que a premiada tivera sua viagem paga pela infernal maquininha.

No interior do cassino existe uma superfície para onde convergem todos os olhares: o famoso “pano verde”.

Acerquei-me da mesa de “Black Jack”. Uma crupier, jovem pequenina, moreninha, mostrava sua incrível habilidade, com as cartas dançando por entre seus dedos longos de unhas aparadas. E demonstrava também agilidade com aquela espátula capaz de virar e desvirar com extrema rapidez as cartas. Ouros, copas, paus e espadas exibiam-se contra o fundo verde escuro, como símbolos de uma riqueza acessível, imediata e praticamente certa, pelo menos na esperança dos jogadores.

Concentrei-me nos rostos dos que jogavam. Tiques nervosos, tamborilar de dedos, mãos trêmulas denunciavam o nervosismo, a expectativa, a angústia e a decepção. Os raros sorrisos mais pareciam esgares correspondentes a frustrações mal disfarçadas.

Ao lado, outra mesa atraía a atenção, aliás de longe despertada pelo tec-tec-tec-tec-tec característico da bolinha se chocando contra as reentrâncias da roda mágica chamada roleta. Também aí mais nervosismo, expectativa, olhos atentos, mãos e corações inquietos.

Vendo o movimento perfeito, regular e preciso da roleta, veio-me a indagação: como é que pode acontecer isso se o navio está se movendo e, algumas vezes, embora de forma bem suave, a gente sente bem os balanços? Haverá um giroscópio para a roleta? Não perguntei e acabei ficando sem saber.

Uma figura um tanto estranha – mulher magérrima, com a boa forma enfiada num vestido justíssimo e o rosto de maçãs salientes, onde era ressaltada uma boca em batom vermelhão em meio a muita maquiagem – cruzava a todo o momento o salão, parando nas mesas de jogo e nas máquinas caça-níqueis. Agia como uma espécie de anjo da guarda dos jogadores, explicando a forma de jogar e esclarecendo dúvidas.

Fiquei sabendo depois que essa mulher é russa. Pus-me a pensar como é que ela teria deixado as estepes cobertas de neve para vir até aqui, neste cruzeiro em águas tropicais. E deixei minha imaginação literária voar, inventando histórias rocambolescas para essa estranha figura, atribuindo-lhe, coerentemente, uma frieza de pedra num coração gelado e necessário para garantir o lucro dessa casa flutuante de jogo.

Num dos cantos do pequeno cassino, dois homens metidos em ternos impecáveis traíam sua condição de seguranças, mostrada nos olhos atentos, constantemente voltando-se para a porta e esquadrinhando o salão de jogo.

Bem, seguranças para quê, se estamos todos aqui, confinados neste navegante hotel de luxo? Porém, se não houvesse isso, não se completaria o clima misterioso que esperamos cercar todos os cassinos.

Noutro canto, estrategicamente situado ao lado da porta, o guichê onde as fichas são compradas e os prêmios pagos. Passei por perto, pensei, pensei, pensei e cheguei à sensata conclusão de que preferia manter-me ao largo desse lugar de tentação. Mas com isso sei que renunciei à emoção, ao gosto pelo perigo, às possibilidades de saborear a vitória… Paciência.

Fui saindo, enquanto as cartas continuavam sendo manipuladas com destreza sobre o pano verde, as bolinhas da roleta seguiam produzindo seu ruído característico e, no corredor, as máquinas caça-níqueis seguiam com suas cadeiras completamente tomadas, diante de ávidos apertadores de botões.

Peço-lhes, caros leitores, que não se deixem influenciar por este cético, que não crê na sorte nem no azar. Vale a pena visitar o cassino do navio.
E, quem sabe, arriscar uma apostazinha.

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Navegando – 4ª parte – J.Carino

Por Carino, 11 de fevereiro de 2009 7:10

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Simulado de incêndio

Nos aviões, a gente já se acostumou. Antes da decolagem, uma aeromoça, com seu coquezinho no cabelo, uniforme impecável, fala automática e gestos graciosos, diz:

- Senhores passageiros, esta aeronave possui três saídas, localizadas no fundo, no meio do corredor e na parte da frente. Em caso de despressurização, máscaras cairão…

Depois de simular as tais máscaras caindo, ela prossegue imperturbável, ignorando os olhos esbugalhados de alguns, as mãos suarentas de outros e o ar blasé dos passageiros velhos de guerra.

Essa cena é infalível porque obrigatória. Trata-se de uma exigência das normas internacionais de segurança de vôo.

Nos cruzeiros marítimos, as normas de segurança também se impõem. Só que a coisa é bem diferente, e mais divertida.

Antes da partida, realiza-se um simulado de incêndio. Esse exercício é bem divulgado, inclusive no jornalzinho de bordo. É obrigatório para todos, e mobiliza o navio inteiro.

Eu nunca vestira um salva-vidas. Em minhas travessias de barca entre o Rio e Niterói cansei de ver esses coletes, com sua cor laranja-cheguei, dormitando tranqüilos e empoeirados em prateleiras acima das cadeiras.

No navio, os coletes salva-vidas ficam nos armários, nas cabines.

No dia e hora marcados, começa o simulado. Aliás, ele começa antes, no zum-zum-zum dos comentários, na recepção, nos corredores. Muita gente deseja saber do que se trata; vários zombam, fazendo as inevitáveis piadas sobre naufrágios. O caso mais lembrado, claro: o do Titanic – na realidade e no filme.

Eu estava em calma, de espírito e estômago, depois de um farto café da manhã. Após vencer um ovo quente, um iogurte, frutas e pãezinhos com geléia, bebericava uma xícara de café com leite, enquanto olhava o movimento matinal no porto, deixando o pensamento navegar antes de mim na expectativa da viagem. De repente – não mais que de repente, como diria o poetinha -, o apito do navio soou, logo depois que uma voz estridente, vinda dos alto-falantes, anunciou que o simulado de incêndio seria realizado.

Já tinha, claro, ouvido apitos de navio. Eles têm um som único, cavo, poderoso. Sempre que os ouço, fico imaginando se não foram acionados por ordem do próprio Netuno, num convite sinistro para uma visita às profundezas…

Porém, de perto, o apito parece ainda mais poderoso e assustador. Forte, chega a provocar uma certa trepidação; todos os demais sons – vozerio, máquinas, barulho de bandejas sendo empilhadas, de xícaras que colidem no põe e apanha dos que as utilizam – são abafados.

Ao saber desse exercício, fiquei imaginando uma confusão danada. Afinal, mesmo se tratando apenas de uma simulação, sem o sal do verdadeiro pânico, não é fácil mobilizar mais de 1800 pessoas, entre passageiros e tripulantes.

Funciona assim: divididos por setores, designados por letras, previamente informados por um comunicado deixado nas cabines, todos os passageiros e a tripulação têm de se reunir nos conveses, com calma porém em tempo curto.

É divertidíssimo observar toda essa movimentação, nos corredores, pelas escadas e nos halls de elevadores.

Vestir colete salva-vidas deixa qualquer um engraçado. E, como as instruções em inglês parecem inacessíveis para a maioria, embora haja desenhos bem explicativos, tinha gente até com o colete vestido de cabeça para baixo!

Havia gente gorda que ficou imensa enfiada no colete; gente magérrima que engordou de repente com aquele casacão acolchoado; pais e mães, com seus filhos – seus coletes pareciam ter dado filhotes, os coletes de seus filhos.

Muitos não escondiam o nervosismo, apesar de ser apenas uma simulação. E os coletes, bem desconfortáveis, parecem contribuir para que as caras surjam mais afogueadas, os pescoços sufocados e as barrigas espremidas.

Contribuindo para uma inevitável hilaridade, cada colete traz um apito. Não deu outra, evidentemente: depois de alguns momentos de tensa seriedade, ao final do exercício que deu certo, com todos reunidos nos seus respectivos locais determinados, o primeiro engraçadinho fez trilhar o seu apito.

Foi uma loucura. Os pi-pi-pis se sucederam. O navio virou um jardim-de-infância para adultos, numa algazarra que marcou o fim da tensão.

Apesar dessa engraçada orgia, numa profusão de laranjas dos coletes salva-vidas, a manhã continuou luminosamente azul, e o mar profundamente verde.

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Navegando – 3ª parte – J.Carino

Por Carino, 10 de fevereiro de 2009 1:41

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A tripulação

Um hotel com mais de 1400 hóspedes é difícil de administrar. Porém, como fazer isso com uma dificuldade adicional: o hotel… navega.

Sempre imaginei como funcionaria a coisa. E, no entanto, funciona bem.

A tripulação do transatlântico em que viajei é composta de cerca de 500 pessoas, recrutadas nos mais diferentes países. Já aqui, essa Babel apresenta um problema de comunicação. Dá pra perceber que nem todos falam mais de uma língua; percebe-se, no entanto, que os monoglotas se viram bem, usando a ancestral linguagem de sinais, a riqueza comunicativa possível com a mobilidade do corpo.

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Os tripulantes, exceto quando trabalham no restaurante em momentos nos quais o traje a rigor é exigido, vestem camisas coloridas, daquelas apresentadas aos turistas nos Mares do Sul. Mas as estampas variam de cor, segundo a hierarquização que divide  chefes, supervisores e subordinados. Além disso, de vez em quando, os tripulantes responsáveis pelas diversas áreas – restaurantes, bares, o serviço de hotel, máquinas, etc. – dão  uma circulada com seus uniformes brancos.

Sempre vemos nos hotéis, mesmo nos de maior luxo, os empregados circulando nas áreas nobres. Uma trouxa de roupa sendo carregada pelos corredores nunca combina com os ambientes sofisticados. No navio, jamais vi isso acontecer, e observei até descobrir que os empregados circulam pelas entranhas do navio num caminho só deles. Em quase todos os corredores lá está uma porta com a inscrição “Crew only”, e outras desse tipo. Por ali somem e aparecem tripulantes e tudo o que não é para ser mostrado. E as portas são estrategicamente posicionadas de modo a facilitar o trabalho de limpeza, de arrumação, de circulação de mercadorias, mobiliário e tudo o mais.

Uma logística admirável é exigida para que tudo funcione, para que um imenso transatlântico carregue seus passageiros-hóspedes, oferecendo a eles (com pagamento em dólar, claro) tudo a que têm direito: casa, comida, roupa lavada e diversão.

Certo dia, num início de manhã luminosa, após a atracação, fiquei observando. A simples colocação de uma escada e de uma rampa de descida mostrou cuidados e complexidade. Depois de descidas por roldanas, e apoiadas no cais, a rampa e a plataforma receberam os cuidados de uns seis tripulantes, empenhados em fixar suportes e amarrar cordinhas à guisa de corrimãos. Fixa daqui, amarra dali, a operação só foi terminada quando se chegou à conclusão de que não haveria perigo para quem subisse ou descesse. Porém, ainda assim, ao final, um dos oficiais percorreu degrau por degrau da escada e toda a extensão da rampa, pisando com força aqui e acolá, antes de liberar a passagem.

Nos restaurantes, há uma obsessão pela arrumação. Se você bobear, fica sem o prato em meio à refeição. Pudera, são milhares de bocas para alimentar em tempo certo. A estratégia prevê a escolha prévia, feita antes de embarcar, entre dois horários. Isto, por sua vez, é sincronizado com o horário dos shows apresentados toda noite no grande teatro: o mesmo show é repetido, para poder ser assistido por quem estava jantando. As mesas dos restaurantes servem, pois, a dois grupos de comilões. Bem bolado: eis uma conciliação entre o pão e o circo!

Mariluz. Este nome romântico é o da nossa camareira, uma espanhola simpaticíssima, também obcecada com a limpeza e arrumação. Por isso, nossa cabine vivia tinindo. E, num dos dias, ela mostrou sua arte: encontramos sobre a cama nossas roupas de dormir, arrumadinhas, formando duas figuras, lado a lado!

Imaginem: a reposição da comida, no restaurante self-service da piscina e nos cafés da manhã; as centenas e centenas de cadeiras na área da piscina, logo arrumadas, depois de largadas de qualquer modo pelos passageiros; o serviço impecável nos cinco bares; a limpeza constante de todas as dependências… Um batalhão de tripulantes, numa verdadeira operação de guerra a serviço do lazer.

Uma pergunta que fazem: como são controladas as saídas e o retorno ao navio? Ao embarcar, cada passageiro recebe um cartão magnético. Esse cartão tem mil e uma utilidades, desde abrir a porta da cabine até servir de “moeda eletrônica”. No navio se paga com duas moedas: em dólar ou em cartão de crédito. Ao embarcar, cada passageiro, se optar pelo cartão de crédito, já é obrigado a bloquer uma dada quantia, da qual vão sendo deduzidas todas as despesas, para um acerto, ao final da viagem, do que ultrapassar o valor bloqueado.

Um exemplo: você já está meio de pilequinho, curtindo a música no bar e olhando o movimento das ondas, com reflexos de luar. Querendo mais um drink, basta pedir a uma das bonitas garçonetes – belezas espanholas, filipinas, porto-riquenhas, uruguaias, argentinas, chilenas, paraguaias… e até brasileiras – e sua bebida será paga com esse cartão de bordo. Você só terá que tentar firmar a mão de bebum na hora da assinatura da nota…

Sobre as saídas e entradas no navio, eis a resposta: elas são controladas no acesso ou saída utilizando-se esse cartão.

Como disse, a coisa funciona bem. A gente pode relaxar, esquecer os problemas, como se a vida se resumisse a esse navegar suave, brilhos de luar e sóis nascentes e poentes.

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Navegando – 2ª parte – J.Carino

Por Carino, 9 de fevereiro de 2009 1:30

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Conhecendo o navio

O confinamento assusta. A idéia de que se está preso num barco, em pleno oceano, afugenta muita gente. Se, além disso, surge a perspectiva de não se ter nada para fazer durante vários dias, a coisa fica pior.

Mas nesses passeios de transatlântico você só ficará confinado se desejar; só se quiser curtirá sua solidão, levando-a também sobre as ondas.

Você pode se deixar ficar na cabine isolado, ou conectar seu confortável espaço privativo ao mundo ligando a TV retransmitida por satélite. Ou pode optar por isolar-se com a vista luxuosa do mar, deixando-se simplesmente ficar nos tombadilhos. Pode ler a viagem inteira. Pode, enfim, transformar seus hábitos, manias e idiossincrasias em navegadores. Mas que não falta o que fazer, isso não falta.

mistral50 O navio tem cinco bares, todos bem montados, com serviço de primeira. E em cada um, quase sempre simultaneamente, toca um conjunto. Os músicos, além de bons instrumentistas acompanhando bons cantores, têm toda aquela manha profissional no relacionamento com o público, tanto para atender as solicitações musicais quanto para aturar os clássicos bebuns.

Existe também um grande teatro, onde, diariamente, são apresentados os indefectíveis shows “para turistas”, numa pasteurização cultural ao som de sucessos, desde “New York, New York” a “I’ll survive”, ao sabor de uma discutível variedade musical e mesmo de opções sexuais…

Nesses shows, além de um bom conjunto, que reproduz bem os arranjos conhecidíssimos – de Ray Coniff a Santana, passando pelo rock e apelando para Michael Jackson, Madonna ou mesmo os Beatles – destaca-se um balé, que além de passos elegantes ou atléticos oferece o brinde de belas dançarinas de pernocas de fora. Não faltam também trechos daqueles musicais cujos ingressos foram ou são disputados pelos turistas em viagem aos EUA, indo desde “Hair” a “O Fantasma da Ópera”, transitando por “Catch” e “Evita”.

O primeiro show é uma recepção aos passageiros. Um desfile de bandeiras é o ponto alto dessa apresentação, com mais uma constatação da globalização da mão-de-obra que compõe a tripulação.

Outro show interessante é o que denominam “Coquetel do Comandante”. Aliás, esse é um verdadeiro evento, previsto até nas instruções que se recebe antes do embarque, recomendando que se leve roupas adequadas.

Nesse dia, o que se vê por todo o navio são ternos, gravatas, vestidos longos e cheios de brilho. Trata-se, claro, de uma imitação canhestra do que acontecia no tempo em que transatlânticos eram o supra-sumo da elegância. Se a coisa for vista com bom-humor, até que é interessante.

Na entrada do teatro do navio, lá está o comandante, com seu uniforme de gala, tirando fotos com os passageiros que formam uma grande fila. E o coquetel é seguido de mais um show, onde a tripulação, a começar por todos os oficiais, é apresentada. As nacionalidades dos oficiais: um italiano, um russo, dois espanhóis, dois gregos, dois portugueses e um brasileiro.

Além dos bares e shows, têm-se as atividades de recreação. Diariamente, são realizados jogos de conhecimentos gerais, mímica, bingo, etc. Muitas dessas disputas são feitas em torno da piscina, situada lá no deck mais alto, onde se toma banho com água… do mar! Os vencedores saem exibindo seus troféus pelo navio.

Claro que são diárias as sessões de ginástica aeróbica. Afinal, centenas de passageiros desejam manter, fingidamente ou não, a boa forma, ao mesmo tempo em que se empanturram com as cinco refeições diárias. Isso mesmo, cinco: café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e uma ceia, servida até altas horas.

Bem, para os que levam a coisa a sério, o navio tem uma academia bem montadíssima, com toda aquela parafernália de última geração para as malhações, e onde se pode andar na esteira olhando a imensidão do mar.

Outra atração inevitável é o cassino, sempre lotado. É impressionante como tem gente que adora seu azar, a ponto de levá-lo até quando viaja de férias!

Ah, nos corredores perto da entrada do cassino, máquinas caça-níqueis não são deixadas em paz. Parece que alguns fazem toda a viagem ali, sentados naqueles bancos altos e desconfortáveis, diante das máquinas, acalentando o sonho de ouvir aquele barulho de milhares de moedas caindo depois que o sortudo conseguiu a combinação que lhe dará direito a uma bolada.

Claro que para a garotada também não faltam atrações. A galerinha fica o tempo todo em atividade, atazanando e sendo atazanada pelos recreadores.

Para a turma bem miúda, o navio tem um jardim-de-infância completo, onde a meninada brinca na piscina de bolinhas, faz desenhos, tudo acompanhado por professoras especializadas. Um paraíso, enfim, para os pais que querem uma folga para curtir as atrações do navio.

Os jovens têm um espaço próprio: a discoteca, situada no último deck superior. Todas as noites, até lá pelas três da manhã, rola aquele som infernal, um “bate-estaca” em meio à luz negra, onde a turma “fica” e a noite segue.

Mas não se assustem: um tratamento acústico da melhor qualidade impede que o som altíssimo perturbe o restante do navio, que segue, impávido, cortando as ondas.

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Navegando – 1ª parte – J.Carino

Por Carino, 8 de fevereiro de 2009 17:20

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mistral52 A visão é sem dúvida impressionante: toneladas e toneladas de aço numa imobilidade total, encostadas ao cais sob a forma de um imenso edifício flutuante, com o longo e alto costado branco, onde se vêem, enfileiradas, as janelas-escotilhas.

Quando a gente passa junto ao cais, cruzando a cidade na mesmice do ir-e-vir cotidiano, os navios não impressionam tanto. Mas assim, de perto, o impacto é grande. De longe, esses transatlânticos se misturam aos outros barcos no píer, ladeiam vasos de guerra, cargueiros lotados de containeres, chatas, rebocadores. Até os guindastes parecem mais imponentes. Porém, de pertinho…

Confesso que sempre tive certa resistência a esses cruzeiros marítimos. As idéias de um confinamento maçante, de gente, gente, gente se acotovelando em corredores estreitos e entupindo escadas, de refeitórios lotados e de piscinas apinhadas impediram por muito tempo que o desejo antigo de viajar de navio se concretizasse. Mas a vontade de navegar, velejar, remar, flutuar sobre as ondas, cruzar mares e oceanos, sempre presente em brasileiros – herança inegável de nosso passado, onde sempre navegaram pirogas indígenas ao lado de galeões portugueses – se manteve firme, até que o intelecto resistente cedesse lugar ao coração navegador.

Uma rampa acanhada nos engana, até que atingimos a verdadeira entrada: um saguão de pé-direito bem alto, correspondente a dois andares – eis a recepção do luxuoso hotel flutuante.

O espocar do flash do fotógrafo de bordo já se anuncia. Durante toda a viagem os passageiros são flagrados em todas as situações, de todos os ângulos, a todo momento. E, em certa hora, todos os dias, painéis se abrem num dos corredores: lá estão centenas e centenas de fotos, vendidas caro, a dólar, como tudo no navio. Trata-se de um dos lugares mais freqüentados   do barco. Cada passageiro leva seu narcisismo para navegar, e não resiste a gastar bom dinheiro para trazer para casa um flagrante na piscina, nos shows ou no coquetel do comandante.

Gentilíssima recepcionista, falando um espanhol que já trai a Babel representada pela tripulação, nos conduz à cabine. Nada dos corredores estreitos que minha imaginação construíra; duas pessoas andam lado a lado sem problema. O hall de elevadores (o navio tem três,  com dois elevadores cada um) são bem espaçosos, nada ficando a dever a prédios de luxo.

A cabinezinha acanhada só existiu mesmo em minha imaginação cheia de implicância. Estamos em acomodações bem amplas para as circunstâncias. Beliches, que nada! Aí está uma confortável cama de casal, acima da qual uma ampla janela mostra a ponte Rio-Niterói infelizmente cinzenta nesse dia de chuva em que saímos navegando pela Baía de Guanabara.

Pode-se ver que os arquitetos e decoradores fazem milagres. Segundo me disseram, todas as cabines são pelo menos como esta em que estamos, exceto pelo fato de que algumas, as internas, um pouco mais baratas, não têm o benefício da janela; e por outras que têm ainda o luxo de uma varanda debruçada sobre o mar.

Um banheiro bem compacto porém igualmente confortável, com tudo que um bom banheiro deve ter – da ducha generosa de água quente ao secador eficiente – completa as acomodações, bem servidas de armários e com um frigobar bem abastecido.

Essa caminhada até a cabine já revelou de forma bem prática o tamanhão do navio. Os corredores são imensos, com centenas de portas de cabine cada um. O desafio é conseguir voltar direitinho para a nossa, embora esteja tudo muito bem sinalizado. Várias vezes trocamos o lado par pelo lado ímpar, ou andamos em direção à proa, quando queríamos ir para a popa!

Acomodado na cabine, não posso deixar de fazer uma comparação um tanto estapafúrdia com os galeões antigos, em que os bravos navegadores cruzaram oceanos bravios, em espaços exíguos, munidos de uma bússola, um sextante, muita coragem e barris de rum, e contando com a boa vontade de Netuno para evitar as terríveis tempestades ou as exasperantes calmarias.

Dizer, enfaticamente, que o navio é grande talvez não impressione tanto. Porém, alguns números podem nos deixar boquiabertos. Este nosso transatlântico, o Grand Mistral, pesa 48.000 toneladas com o comprimento de 216 metros, uma largura de 29 metros e a altura de 51 metros. Só o calado, que fende as águas azuis ou verdes dos mares do mundo, tem 6 metros e 80 centímetros. E apesar de grandão, o navio é ágil: atinge 19,5 nós. Mas para isso, é pantagruélica sua fome de combustível: são 100 toneladas por dia!

Suavemente, o navio desatraca, e se movimenta com lenta elegância…

Num brinde, uma dose de uísque do frigobar vai cair bem para este marinheiro de primeira viagem em cruzeiro pela costa brasileira.

Santos, Búzios, Salvador, Ilhéus… aqui vamos nós.

Saúde!

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