Category: Diário de viagem

II Diário em Terras Estrangeiras (8) – José Roberto Pereira

Por Editor, 24 de abril de 2009 15:49

Peru e Bolívia – 8ª parte (Final)

 

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Finamente atingimos a última parte da travessia dos desertos bolivianos. O carro seguia em alta velocidade de encontro ao vento forte e gelado. O deserto ainda nos abatia e reacendia nossos conflitos internos. Na mais completa exaustão, devido às forças desérticas sobre nossas fragilidades, o grupo seguia em silêncio surdo. O sol nasceu entre as planícies áridas, anunciando o dia, mas não trazia consigo algo que nos reanimasse; seus raios longos e de tons amarelados alargavam ainda mais a desertificação dentro de nós.

Quando atingimos as regiões dos vulcões bolivianos, o deserto se impôs com maior intensidade, e um dos integrantes do grupo não resistiu, caindo em profundo abatimento. Numa observação mais cuidada, Sílvia, enfermeira experiente na Suíça, comunicou-nos que Paulo precisava de cuidados, tentando acalmar o grupo. Rapidamente nos remanejamos dentro do carro para que Paulo pudesse se deitar em um dos bancos. Fran optou em não parar para que não permanecêssemos mais tempo do que o previsto nos desertos. Tão logo se acomodou no banco, Paulo recebeu uma medicação devida. Ao longe, grossas nuvens de vapores vulcânicos assaltaram nossas vistas.

O carro andava por entres os geysers, desviando-se de um e outro veículo; por fim parou, e então pudemos descer. Andamos no limite permitido, e devo confessar que senti mais medo do que encantamento. Nem toda a beleza dos inúmeros geysers e dos poços fervilhando de larvas vulcânicas deu ânimo ao grupo. Ficamos pouco tempo nos vulcões. O dia avançava rapidamente, e o estado de Paulo dava sinais de agravamento…

Caminhamos em alta velocidade pelas montanhas e seus vulcões. As paisagens compostas por desertos, montanhas geladas, oásis com flamengos, imensas pedras, se comparavam aos nossos labirintos internos: cheios de revelações. Subitamente surgiu à nossa frente um lago pequeno de águas termais. Vários turistas seminus se atiravam ao deleite daquelas águas vulcânicas. A temperatura era de 40 a 45 graus. Não resistimos, nos jogamos ali como se estivéssemos submersos na cama nossa de todas as noites. As águas termais reanimaram o grupo e mais ainda o Paulo, que restabeleceu suas forças físicas e psíquicas.

Tomamos um rápido café da manhã e seguimos para a fronteira com o Chile. Reanimados com o banho, voltamos a conversar animadamente. O deserto não nos feria mais e nem se impunha sobre nós, voltou a nos encantar com seus mistérios, magia e paisagens deslumbrantes.

Entramos no deserto do Atacama, no Chile. Pedi licença ao pisar novamente naquelas terras. O Chile foi o primeiro país estrangeiro que conheci.

O deserto só mudou o nome; as paisagens mortas continuaram as mesmas. Atingimos os serviços de migração e longamente nos despedimos dos amigos Alex e Mariana. O casal seguiria outra rota dali em diante. Demos um longo aceno coletivo e eles entraram num ônibus simples e seguiram pelos desertos chilenos adentro. Um vazio se formou no grupo. Depois de tanto tempo juntos, ali se cortavam os laços criados. Um sol frio de fim de manhã banhava aquela região isolada do mundo. Uma região dúbia: belíssima e triste. As fronteiras, de um modo geral, são assim: são o limite onde permanecemos ou ultrapassamos, e quase sempre envolvem ações que trazem reações, depende das escolhas que são feitas. Claro que, no caso em questão, não houve escolhas, mas sim um procedimento de percurso já traçado por pessoas que possivelmente se reencontrarão em algum momento da vida, em algum lugar do mundo – encantado mundo.

O céu se cobriu todo de nuvens brancas e cinzas. Avançamos por uma região de enormes esculturas de pedras feitas pelo vento. Avançávamos, porém, de volta para casa. A viagem findava a cada metro percorrido e já não tínhamos forças para permanecer mais tempo dentro do deserto. Viajamos a tarde toda e, quando a noite se desenhou no horizonte, atingimos a cidadezinha de Uyuni. Despedimos-nos rapidamente de Sílvia, André e Fran porque um novo trajeto nos aguardava de volta para casa: uma maratona em ônibus e trens. Horas intermináveis em regresso ao lar.

Deixamos os desertos bolivianos numa noite escura e fria. Estávamos extremamente cansados, mas, apesar disso, não conseguíamos dormir. Dentro de um ônibus coletivo, passamos a noite conversando sobre as vivências nos desertos. Aquele trecho da viagem deixou marcas em nossas memórias, em nossos sentimentos, que ficarão para sempre. Jamais vou me esquecer da beleza frágil e cruel do deserto.

À medida que voltávamos para casa, sentíamos o quão difícil seria o trajeto. Passamos por dezenas de cidades bolivianas. E quanto mais nos aproximávamos da fronteira com o Brasil, mais cansados ficávamos. A ideia era entrar no Brasil por Corumbá, seguir para Campo Grande, depois para São Paulo e finalmente para Belo Horizonte. Mas essa intenção foi interrompida, pois estávamos ainda muito longe da fronteira, fomos abordados inúmeras vezes pelos policiais federais bolivianos, os ônibus para a fronteira não saíam diariamente e nosso cansaço acentuava-se a cada minuto, minando nossas resistências. Numa jogada financeira desesperadora, compramos duas passagens aéreas em Santa Cruz da La Serra e voamos para Guarulhos, São Paulo, e, em seguida, para Confins, Minas Gerais. As nuvens brancas que nos encompanharam durante toda a viagem cercaram o avião como se se despedissem de nós.

Descemos em Confins com uma imensa felicidade de estar em casa. Eu estava três quilos mais magro. O Paulo ainda se recuperava das ações do deserto. Nossos amigos Arnaldo e Luciene foram os primeiros a nos ver e se alarmaram com nossos aspectos.

Embarcamos em mais um ônibus e seguimos para Pará de Minas. Foi o trecho mais demorado devido ao alto grau de ansiedade que sentíamos. Eu contava cada árvore da estrada, e finalmente Pará de Minas nos recebeu com um fim de tarde calmo, ensolarado e um céu repleto de nuvens amareladas, brancas e algumas escuras. Entrei em minha casa com um desejo enorme de reler dois textos, um bíblico e outro de teatro: o primeiro, “As tentações de Jesus no deserto”; e o segundo, uma cena em que Jesus pergunta a Judas: “A que viestes?”

A noite cobriu tudo e agrupou grandes nuvens escuras. Uma chuva inesperada e forte caiu sobre Pará de Minas naquela terça-feira de carnaval, véspera de quarta-feira de cinzas, lavando toda a fadiga daquela viagem maravilhosa e feliz. Dormi um sono suave e profundo, como se tivesse tido a oportunidade de regressar ao aconchego do útero materno. Estava de volta às minhas deliciosas rotinas, porém mais maduro, mais humano, mais do mundo – encantado mundo.

* * *

(Obrigado, leitor, por nos acompanhar nesta viagem. Um obrigado especial ao Paulo por permitir o uso de sua imagem e histórias nestas narrativas. Obrigado também aos amigos estrangeiros que me permitiram usar seus nomes verdadeiros. Um beijo a minha gramática viva e mutante, Carmélia Cândida. Estendo também meus agradecimentos ao Jornal Diário, pelo espaço, e ao site Alma Carioca, que abriu um link exclusivo para os relatos do II Diário em Terras Estrangeiras – Peru e Bolívia. Até a próxima viagem!).

 

Foto: Mariana, Alex, Paulo, Fran, André, Sílvia e eu

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II Diário em Terras Estrangeiras (7) – José Roberto Pereira

Por Editor, 9 de abril de 2009 20:39

Peru e Bolívia – 7ª parte

 

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Adentrávamos cada vez mais os desertos bolivianos. A ilhota com seus cactos gigantes tornou-se um pontinho escuro entre o céu e o branco da imensa planície de sal do Salar de Uyuni. O fim de tarde trouxe uma tonalidade azul-escuro ao branco do sal. Um silêncio absurdo pairou dentro do carro em que viajávamos. O grupo todo: eu, Paulo, Alex, Mariana, André e Sílvia tínhamos o olhar perdido no firmamento, quando o inesperado aconteceu: o deserto entrou dentro da gente. Até então ele se estendia ao longo das nossas vistas e, de repente, saiu do nosso campo de visão e penetrou, inexplicavelmente, nas nossas vastas solidões. Começou a remexer em nossas memórias, em nosso passado, angústias e incertezas. Já não olhávamos para as paisagens desérticas, mas sim para dentro de nós mesmos. Um colossal vazio rapidamente se formou intimamente; e secava, retorcia, cortava. A tarde caía ligeiramente, trazendo consigo um frio congelante, e alargava o deserto em nós. O buraco que se abria intimamente era menos perturbador que o silêncio. Nenhuma nuvem sobrevoava o fim de tarde, causando ainda mais uma sensação de completo abandono e solidão. Os carros que nos seguiam desapareceram. O Fran, nosso motorista, parecia que continuava inabalável, mas muito respeitoso em relação às ações do deserto sobre nós.

A noite ameaçava engolir tudo… Ao longe, umas luzinhas tímidas apareceram na planície e foram aumentando de intensidade à medida que nos aproximávamos. E, em meio ao breu de início da noite, uma outra ilhota de cactos se desenhou, cercada de sal. Incrustado na ilhota, estava o hotel de sal onde pernoitaríamos. Desembarcamos silenciosos e reflexivos. Entramos no hotel. Era rústico e simples. Bem simples. Confortável e desprovido de qualquer luxo – como a vida deve ser. Todo o hotel e seus móveis eram de sal. Nada naquele momento despertava outra sensação no grupo a não ser a de introspecção. Submersos em nós mesmos, sentamos na escada de sal, na entrada do hotel. O breu da noite retorcia-se em nossa volta e nos cobria de frio e de reflexões.

Outras pessoas que chegaram em outros carros juntaram-se a nós. O silêncio era quebrado pelo vento, que incessantemente assaltava nossas grossas blusas de frio. O cheiro de sal grosso acentuou-se quando umas estrelas apareceram e, sem nenhum comando ou sinal, começamos a conversar. De repente, pessoas de várias nacionalidades − franceses, ingleses, romenos, suíços, japoneses, argentinos, chilenos, peruanos, bolivianos, americanos e nós (brasileiros) − cerca de umas 30 pessoas, desenvolveram um diálogo que beirava a terapias de grupo. As discussões giravam em torno das imposições do deserto sobre nós. Todos tinham necessidade de falar e de ouvir. Pairavam sobre o grupo várias indagações e a tentativa de definir o deserto e o emocional. Mas nem todos tinham sido tocados por ele, havia uns quatro ou cinco que manifestaram opiniões contrárias: “nada mais que um amontoado de sal”, disseram, e se foram para os quartos. Preferiram o isolamento ao diálogo. Ficamos até a hora do jantar divagando nas regiões desérticas íntimas. Parecia que todos ali eram amigos de infância, e que as confidências discorridas eram conversas de velhos conhecidos. O vento assoviava e assustava ao mesmo tempo. Fortíssimo! O jantar foi tranquilo e animado. A longa conversa amenizou a solidão que nos abatia. A noite foi curta e confortável. A temperatura fora do hotel chegou a quase zero grau, mas as paredes de sal condensaram calor e bonança.

O sol ainda não tinha nascido quando começamos a percorrer novamente os desertos bolivianos. O sal foi raleando, raleando e deu lugar a uma imensa planície de terra. Um céu azul com nuvens brancas deixava as altas montanhas e seus picos cobertos de neve ainda mais exóticos. Formava-se um contraste entre os vales desérticos e as montanhas cobertas de neve.

O segundo dia no deserto foi o mais crítico. Ele se alastrou ainda mais dentro de nós, deixando o grupo mudo, com o olhar divagando… Vez ou outra uma manada de lhamas selvagens nos trazia à realidade. O carro rodava horas e horas, nos revelando paisagens deslumbrantes que pareciam pinturas extraídas d’A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e que se traduziam ao mesmo tempo em beleza celestial e em agonias infernais. O excessivamente seco nos rebaixava ao pó perante as magnitudes das Forças Divinas: Soberanas.

Subitamente, umas pedras começam a aparecer em meio ao mar de terra seca. Elas nos angustiaram ainda mais. O dia passava lento, e o deserto remoia nossos conflitos, trazendo-os à tona para serem ruminados.

Eu estava em profunda viagem interior quando Fran parou o carro diante de uma montanha de pedras que mais parecia um calvário e avisou-nos que teríamos que subir a pé, pois era arriscado subirmos com ele no carro devido ao acúmulo de pedras soltas. Ainda sem entender o que se passava, desci, e todos nós nos pusemos a subir aquela elevação. O carro subiu com muita dificuldade; nós, ainda mais. A falta de ar atingiu-nos novamente e recorremo-nos às folhas de coca.

Subimos lentamente até o cume, e não acreditei no que vi: um oásis em meio ao deserto de pedras. Diante dos nossos olhos, uma lagoa, repleta de flamengos e patos selvagens, nos mostrava as maravilhas da vida sendo vivida. Depois de percorrer tantas paisagens mortas, ali, diante dos nossos olhos, estava materializada a poesia e a música da vida. Andamos lentamente para não dispersar aquelas aves exóticas. Ficamos um tempo curto contemplando os flamengos e os patos selvagens. Descemos a montanha e nos pusemos à roda em alta velocidade para chegar no segundo hotel e não sermos surpreendidos pela noite. A tarde caía rapidamente junto com a temperatura. Saímos dos desertos de pedras e entramos nas regiões dos vulcões tão desérticas quanto as outras. O comboio de carros novamente se formou. Uns flocos tímidos de neve anunciavam uma noite gelada. Ao contrário do que pensávamos, a lagoa com as aves exóticas não amenizou o deserto dentro de nós, o grupo mergulhava ainda mais nos labirintos íntimos. Nem o charme do segundo hotel nos socializava. O deserto se impunha com todas as forças sobre nós. Foi a noite mais difícil de todas as noites da viagem. No café servido às cinco horas da madrugada, o grupo narrou seus pesadelos noturnos. Curiosamente, todos eles relacionados com a infância.

Quando ganhamos as planícies geladas rumo aos vulcões e seus belíssimos geysers, Fran anunciou a existência de uma lagoa de águas termais, oriunda de um dos vulcões, onde poderíamos nos banhar. Essa revelação deu-nos um certo ânimo, quando, subitamente, o deserto se impôs mais uma vez e um dos integrantes do grupo não resistiu à pressão…

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II Diário em Terras Estrangeiras (6) – José Roberto Pereira

Por Editor, 3 de abril de 2009 6:46

Peru e Bolívia – 6ª parte

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A noite foi longa, escura e chuvosa. O trajeto, quase todo em estradas de terra, nos causou imenso desconforto e cansaço. Sonolentos e abatidos, descemos do ônibus coletivo. Minha gripe tinha se amenizado, e a febre desapareceu por completo. Uyuni, última cidadezinha antes dos desertos bolivianos, nos recebeu com vento agitado, ar seco e frio e uma nuvem de poeira que se misturava a uma baixa serração. Rapidamente, um grupo de guias turísticos nos cercou para nos oferecer pacotes de travessias nos desertos. Deixamos que o Alex, nosso amigo romeno, fechasse a compra dos pacotes. Depois de muita pechincha, finalmente fomos fazer nosso desjejum antes da maratona de três dias e duas noites nos desertos bolivianos.

Uyuni é uma cidadezinha pacata que lembra os cenários dos filmes de faroestes. Andamos por suas ruas nos protegendo da poeira e da areia trazidas pelo vento. Voltamos à agência para finalmente embarcarmos. Tínhamos lido muitos artigos sobre os desertos, mas nada que se aproximava do que realmente iríamos encontrar.

Ao entrarmos no carro de tração nas quatro rodas, fomos apresentados aos suíços Sílvia e André, respectivos tia e sobrinho; simpaticíssimos, por sinal. O motorista, um nativo calado, mas prestativo, o Fran, deu-nos boas vindas e afirmou que estaríamos em segurança, sob sua custódia, diante das armadilhas dos desertos.

Saímos de Uyuni com uma alegria comparada aos encontros de velhos amigos. Paulo, eu, Alex e Mariana nos entrosamos rapidamente com Sílvia e André e conversamos animadamente dentro dos procedimentos básicos de apresentações.

Partimos sob um céu coalhado de nuvens brancas, guiados pelo sol que aquecia a manhã gelada e banhava de claridade as regiões desérticas que adentrávamos a cada minuto. Depois de um tempo, Fran anunciou nossa primeira parada, um cemitério de trem do século VII e VIII. O aspecto do lugar transitava entre a aristocracia e a decadência. Grandes trens, marias-fumaça, bondes devidamente agrupados reverenciavam um tempo áureo findado. O exótico da paisagem despertava a beleza, mas nada de concretamente belo, talvez um sentimento confuso de respeito e de nostalgia. Entramos em vários trens, brincamos em várias cabines e vagões, tiramos fotografias para registrar aquele amontoado de ferro enferrujado que dia a dia vai se deteriorando com o passar do tempo e com o avançar dos desertos. Exposta ao tempo implacável, aquela imagem dos trens, que mais parecia ser uma instalação artística, contabiliza a cada ano seu completo desaparecimento. Uma pena!

Deixamos o cemitério de trem. Percebi que o grupo sentia a mesma sensação que eu: tudo tem seu tempo, e as coisas, desde as mais insólitas às mais corriqueiras, passam… Inevitavelmente passam. Olhávamos as fotografias tiradas minutos atrás, e elas nos despertavam a sensação de que possivelmente não veríamos mais aquelas máquinas mortas…

O Fran mais uma vez nos trouxe à realidade, anunciando o Salar de Uyuni, um deserto de sal dentro dos desertos bolivianos. Avançávamos em alta velocidade, e um comboio de outros carros, trazendo outros grupos de turistas, nos seguia. O sol vazava as nuvens, ganhava as grandes planícies brancas, engolia o carro veloz, refletia no branco do sal e feria nossos olhos detrás dos óculos escuros. O calor aumentava a cada metro rodado, dando-nos a sensação de que seguíamos em direção a um fogo qualquer. Subitamente, o céu desapareceu das nossas vistas e parecia que o carro corria em direção a um grande vácuo… Foi quando o Fran começou a falar sobre o Salar de Uyuni. Olhamos a imensidão branca, e nada se comparava a algo familiar para explicar a nós mesmos o que víamos. Ninguém falava uma só palavra, acredito que ninguém encontrou uma que realmente merecia ser dita e que traduzisse a beleza do Salar de Uyuni. Rodamos horas sobre o sal até nossos olhos se acostumarem com a imensidão branca. Os carros que vinham em comboio passaram a rodar lado a lado e diminuíam a velocidade para parar. Quando descemos, não acreditei no que estava pisando. O cheiro de sal grosso nos trouxe à realidade e nós nos pusemos a falar compulsivamente. Toquei no sal virgem. Tinha aspecto áspero, rígido e molhado ao mesmo tempo. Olhei por todas as direções, via apenas a imensidão branca, branca e branca. O céu tocava o sal, e o sal tocava o céu, não sei dizer em qual ordem, mas ambos se comungavam.

O Salar de Uyuni é a maior planície salgada da Terra, foi candidato a uma das sete maravilhas do mundo moderno e teve expressiva votação. Sua extensão é de aproximadamente 12.000 km2 e cresce a cada ano 35 cm. Estima-se que o Salar de Uyuni contém 10 bilhões de toneladas de sal, das quais menos de 25.000 são extraídas anualmente. Essa maravilha natural vem encantando turistas há séculos.

Entramos no carro e seguimos para o hotel de sal no meio do deserto. Alternávamos picos de introspecção e explosões de alegria infantil. Fran dirigiu por boa parte da tarde até que, em meio ao branco, surgiram algumas bandeiras coloridas anunciando o famoso hotel de sal. Paramos e entramos na exótica construção. Suas paredes, mesas, cadeiras, camas, bancos, objetos decorativos são todos de sal. O sal boliviano, por ser resistente, bem próximo a nossa pedra-sabão, permite essas proezas. O hotel nos encantou a ponto de nos deixar ainda mais reflexivos. Partimos deserto e céu adentro… Um se fundia no outro, azul e branco, branco e azul, porém sem nuvens. Rodamos mais algumas horas até uma pequena ilhota de cactos gigantes rodeada de sal, onde fizemos nossa refeição do dia. O almoço tardio despertou ainda mais nossas emoções. A refeição foi rápida e calada. Ninguém do grupo conversava; nem eu e Paulo conversávamos. Deixamos a ilhota e seus cactos gigantes novamente em comboio, rumo a outro hotel de sal para pernoitarmos, quando o inesperado aconteceu…

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II Diário em Terras Estrangeiras (5) – José Roberto Pereira

Por Editor, 27 de março de 2009 2:00

Peru e Bolívia – 5ª parte

 

diario Acordei assustado com as gargalhadas de Cláudia, Aldo e Paulo. Olhei pela janela do táxi, as chuvas que lavavam o fim de tarde quando saímos da fronteira com o Peru tinham passado. A noite avançava sobre os picos cobertos de neve nas altas montanhas bolivianas. A pouca claridade mostrava paisagens deslumbrantes repletas de lhamas e um céu de nuvens cinza. Um e outro casebre em meio aos vales fumegava anunciando movimentos da vida. Minha febre tinha passado, mas a gripe se acentuava ainda mais. Tentei me inteirar sobre as gargalhadas e me entreguei a elas para não dar crédito ao mal-estar.

A noite finalmente nos assaltou nas estradas bolivianas. Ao longe, um clarão artificial anunciava La Paz, a capital mais alta do mundo: 3.600 metros acima do nível do mar. Atualmente, a Bolívia é considerada o país mais pobre da América do Sul. Rodamos por mais um tempo. O táxi diminuía a velocidade à medida que nos aproximávamos de La Paz. Subitamente fomos surpreendidos por um gigantesco engarrafamento, “buzinasso”, transeuntes… De paz, La Paz não tinha nada. Entramos por ela pelas favelas. Ficamos impressionados com a confusão; exceto Cláudia e Aldo, que já conheciam a hora do rush… Eu não compreendia como o taxista conseguia avançar em meio ao inferno de La Paz. A Cláudia conversava calmamente, nos explicando geograficamente a cidade. As favelas ficam na parte alta, e o centro histórico, nosso destino, na parte baixa. E o motorista seguia, não sei ainda como, rumo ao cemitério Geral, o lugar combinado para ele nos deixar. Em La Paz não tem ponto de ônibus ou de táxi, os desembarques são feitos em qualquer esquina ou lugar, até mesmo no cemitério se o cliente quiser. Se a febre não tivesse passado, teria ficado por lá.

Quando descemos do táxi, acreditei estar na famosa rua de São Paulo, a 25 de março. A Cláudia sugeriu que nos agrupássemos enquanto ela combinava com o motorista de uma “van” o preço do nosso trajeto até a parte baixa. Olhei ao redor e para o Paulo e, mais uma vez, agradecemos pela presença da Cláudia. Por fim, entramos numa “van” e descemos rumo à parte baixa. A cada esquina virada, La Paz se traduzia em inferno; setenta por cento da população vive do comércio informal. As ruas são tomadas por barracas de todos os tipos e gêneros. Uma multidão se espremia num caos indescritível.

La Paz vive as nuances de uma tragédia irreversível: não há água, não há trabalho e, segundo a guia turística (fundamentada em pesquisas de alguns especialistas), alguns vulcões bolivianos devem despertar e entrar em erupção nos próximos dez anos, o que poderá destruir toda a cidade. Os rios também são uma grande preocupação dos ambientalistas no momento, devido ao crescimento desordenado da população nos últimos anos. Os indígenas, maioria dos bolivianos, vivem na esperança de que a nova Constituição proposta pelo presidente nativo Evo Morales finalmente traga a democracia racial, mas antes mesmo de essa Constituição entrar totalmente em vigência, já detectaram nela uma série de lacunas, o que certamente comprometerá a campanha nacional do “Sí!”.

Após rápidas despedidas por causa do trânsito, Cláudia e Aldo seguiram caos abaixo. Entramos num “hostel” desejando sorte e paz a todos os bolivianos. Visivelmente cansados, caímos num sono profundo, e caiu também no esquecimento o convite feito por nossos amigos para sairmos para jantar.

O frio atormentou toda a noite e avançou por toda a manhã. Levantamo-nos às pressas e embarcamos rumo à cordilheira Real, também conhecida como Monte Chacaltaya. Por sorte, encontrei algumas frutas no trajeto; elas me reabilitaram e amenizaram minha gripe.

O Monte Chacaltaya era a maior estação de esqui em altitude do mundo, mas há cinco anos não neva o suficiente para possibilitar tal prática esportiva, efeitos causados pelo aquecimento global, segundo a guia turística. A subida é lenta, muito lenta devido à falta de oxigênio no ar e por se tratar de um lugar muito íngreme. Todo o grupo que nos acompanhava, cerca de doze pessoas, recorria às folhas de coca para amenizar a falta de oxigênio. A cada passo, o ar parecia congelar, o frio machucava, e os olhos arregalavam-se, hipnotizados com a beleza das paisagens. Deitamos na neve várias vezes para recuperar o fôlego; cada passo dado fazia parecer que estávamos correndo há horas, o coração disparava querendo oxigênio e, por muitas vezes, batia também o desejo de desistir da subida. Resistimos. Quando atingimos o cume do Monte Chacaltaya, todo o grupo deitou para respirar melhor… Um silêncio absurdo, que chegava a incomodar, permitia ouvir as batidas aceleradas do coração. A névoa encobriu toda a paisagem, dificultando a descida.

Descemos. Modificados espiritualmente, descemos. O Monte Chacaltaya é uma provação quase que espiritual. Depois passamos por alguns sítios arqueológicos e seguimos rumo a La Paz; chegamos em uma tarde quente, sob um céu azul sem nuvens. A capital da Bolívia era pura agitação. Percorremos todos os pontos turísticos, museus, galerias de arte, igrejas e a famosa “Calle de las Brujas” em busca dos requintados artesanatos, obras de arte e preços baixos.

No finzinho da tarde que esfriava a cada segundo, corremos em direção ao “hostel” para pegarmos nossas bagagens e embarcamos rumo ao sul do país. A falta de ar quase nos fez perder o ônibus. No embarque, no que parecia ser uma rodoviária, conhecemos Alex e Mariana, ambos da Romênia; e eles desvendariam conosco todo o encantamento e mistérios do Salar de Uyuni, um deserto de sal dentro dos desertos bolivianos. Grandes surpresas nos aguardavam, e um acontecimento inesperado mudaria para sempre nossas vidas…

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II Diário em Terras Estrangeiras (4) – José Roberto Pereira

Por Editor, 21 de março de 2009 11:12

Peru e Bolívia – 4ª parte

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Descemos em direção ao sul do Peru durante toda a noite. A viagem de ônibus coletivo foi fria, cansativa e longa. Grandes trechos sem asfalto dificultaram ainda mais a nossa chegada a Puno, cidade incrustada às margens do lago Titicaca. Vez ou outra umas luzes artificiais e tênues das pequenas vilas ao longo da estrada apareciam em meio à escuridão gelada. Timidamente a madrugada começou a clarear, desenhando uma paisagem repleta de campos de plantação e nuvens amareladas. Estávamos visivelmente cansados. Eu estava o mais abatido, e uma dor no corpo anunciava a vinda de uma gripe e febre.

O ônibus chegou às margens do lago Titicaca às seis da manhã. Misteriosamente apareceu em meio à multidão nossa amiga Ivana: “Hola ticos, que tal!” E em seguida ela embarcou em outro ônibus que seguia para Iuros, Bolívia. Da janela do ônibus, ela gritava enlouquecida com o encontro inesperado: “Mira ticos, que belo! Mira ticos, que belo”.

Uuufa!!! Resolvemos tomar um chá quente para nos aquecer. Rezei para que o chá levasse consigo o mal-estar que se intensificava. Contei ao Paulo o que se passava, e isso o deixou apreensivo. Puno era a última cidade do Peru que conheceríamos antes de cruzarmos a fronteira. A febre, se percebida pela imigração, poderia comprometer nossa entrada na Bolívia, devido a normas de procedimento com turistas nessa fronteira.

Fomos ao centro de Puno e recorremos a uma agência para nos levar às Ilhas Flutuantes. Não há outro meio de chegar até elas. No trajeto, conhecemos uma boliviana e um mexicano, Cláudia e Aldo. Nos tornamos rapidamente amigos. Enquanto aguardávamos o embarque, andamos por todo o centro de Puno, falamos sobre política, meio ambiente, arte e profissões. A febre acentuava-se cada vez mais, e a gripe tinha chegado de vez, despertando a atenção do grupo para meu estado de abatimento. Caminhamos em direção ao porto para embarcarmos. O ar úmido e algumas folhas de coca mascadas me deram uma breve sensação de bem-estar. Embarcamos… Navegamos lago adentro sob um céu de nuvens brancas. O vento soprava forte e frio, embora a manhã estivesse ensolarada. A água límpida trouxe um frescor suave que amenizou a febre, mas não a gripe. Tentei me entrosar com o grupo, mas meu corpo pedia cama. Mesmo assim, insisti.

O lago Titicaca, em termos de altitude, é o maior da Terra. Sua extensão é 8300 k2 e está divido entre o Peru e a Bolívia. Dizem que lá nasceu a civilização Inca. Navegamos por um tempo e, de repente, grandes moitas de totora, planta que nasce no Titicaca, começaram a aparecer no meio do lago. Uma variedade enorme de pássaros surgiu em meio às moitas totoras. Patos selvagens nadavam em vários pontos do lago e não se importavam com a passagem do barco nem com o flashs fotográficos. Por fim as Ilhas Flutuantes surgiram à nossa frente. Ninguém no barco disse nada; boquiabertos, tentávamos entender a construção milenar daquelas ilhas artificiais. Ao todo são 52 duas ilhas habitadas por inúmeras famílias. Os casebres, todos feitos de folhas de totoras, deixavam a paisagem ainda mais deslumbrante. O barco aportou numa ilhota, e os moradores cantaram e dançaram, abençoando nossa chegada. Descemos. Hipnotizados, descemos. Quando pisamos no grande amontoado de folhas secas de totoras entrelaçadas, flutuando na água gelada do Titicaca, sentimos um balançar leve. Um nativo simpático e educado nos deu boas vindas, nos colocou em círculos e explicou as origens das ilhotas.

Séculos atrás, para fugir de predadores, seus antepassados descobriram que, se agrupassem as touças de totoras e sobrepusessem a elas um amontoado de folhas secas, elas sustentariam o peso de vários homens, sem afundar. E assim foi feito. Para que não flutuem em várias direções do lago Titicaca, essas ilhas estão asseguradas em meio à vegetação flutuante de totora. A profundidade do lago é de mais menos 36 metros, e inexplicavelmente as ilhas não afundam. Os habitantes dão manutenção duas vezes ao ano para que elas sobrevivam ao período de tempestades. E para cada família que se forma, há duas possibilidades de moradia: aumentar a ilha do noivo num tamanho de uma casinha, cerca de dois ou três metros; ou começar uma nova ilha.

Passamos o dia nas Ilhas Flutuantes. Comemos caules de totora, entramos nos casebres simples de palhas, navegamos em barcos feitos de totora por entre a vegetação, visitamos outras ilhas. A febre e a gripe que me assolavam desde a manhã deixaram-me calado e lento. Tanto o Paulo quando a Cláudia e Aldo estavam atentos ao meu mal-estar.

Retornamos a Puno encantados com a simplicidade e sensibilidade dos habitantes das Ilhas Flutuantes. Ao pegamos as bagagens na agência que nos levou às ilhas, nos demos conta de que estávamos numa contagem regressiva para cruzarmos a fronteira com a Bolívia – o que me fez ficar alerta. Tínhamos menos de uma hora, antes que a fronteira fosse fechada, e o trecho era longo. Optamos por pegar um táxi e seguimos em alta velocidade. Não é recomendado pernoitar na fronteira, por motivo de segurança e economia. Durante o trajeto, procurei não deixar que o mal-estar da gripe me abatesse ainda mais. A Cláudia já tinha alertado que os policiais federais fazem interrogatórios, pedem cartão de vacinas e que minha febre poderia ser um problema. “Voamos” em alta velocidade pelas estradas peruanas. O motorista de táxi tacou o dedo na buzina e fazia manobras arriscadas para chegarmos a tempo. Conversamos sobre muitas coisas durante o trajeto, mas nada de que me lembre agora. Acredito que falávamos compulsivamente devido ao nervosismo provocado pelas imprudências do motorista.

Chegamos aos cinco para as cinco na fronteira. O céu escureceu, anunciando chuva forte. Olhei para o Paulo e percebi que ele também rezava em agradecimento pela presença da Cláudia, que nos guiava naquele trajeto da viagem. O lugar está abaixo da linha da pobreza e nos assustou a ponto de nos horrorizar. Descemos e corremos em direção aos portões e entramos nos galpões de serviço de migração boliviana. Fomos conduzidos pelos corredores feios e maus cheirosos da imigração. Não sei se pela presença da patriota Cláudia, que assumiu ser nossa amiga e companheira de viagem, ou se pelo fato de o relógio na parede estar anunciando as cinco horas da tarde, mas não houve muitos questionamentos, e acredito que o policial nem percebeu meu mal-estar. Saímos da imigração, ainda assustados com o lugar. Optamos por pegar outro táxi até La Paz, capital da Bolívia, devido ao preço barato e ao conforto. Saímos da fronteira num fim de tarde engolido pela chuva. Já em terras bolivianas, o novo taxista dirigia dentro da normalidade do trânsito. Aldo e Paulo dormiram; eu desmaiei num sono profundo e febril. A Cláudia zelava por nós, e La Paz nos aguardava na hora do rush.

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II Diário em Terras Estrangeiras (3) – José Roberto Pereira

Por Editor, 15 de março de 2009 19:35

Peru e Bolívia – 3ª Parte

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Uma chuva fina caiu inesperadamente quando chegamos à estação de trem às margens do rio Urubamba. Olhei o céu, as nuvens brancas tinham descido à terra em forma de uma densa neblina e, naquele momento, cobria os altos picos de neve. O frio que descia das montanhas gélidas agrupou pessoas de diferentes nacionalidades na tentativa de amenizá-lo. Nada. O maquinista abriu as portas da locomotiva azul e branca e anunciou a partida usando um apito agudo e prolongado. A multidão barulhenta com suas mochilas nas costas aglomerou-se ao longo dos vagões. Parecia uma cena dos clássicos filmes de Indiana Jones. Entramos. Eu estava encantado com toda aquela movimentação. Só dei por mim quando o trem pôs-se a deslizar suavemente nos trilhos por entre as altas montanhas, margeando o rio Urubamba. Começamos a conversar com alguns passageiros, num estado de encantamento provocado pelas paisagens peruanas. Ivana, uma “tica” argentina, que abandonou o trabalho em seu país e que estava há dois meses viajando, foi a primeira a puxar conversa conosco.

− Mira ticos, que belo! – disse, meio que se apresentando.

Águas Calientes, última cidadezinha antes de Machu Picchu, apareceu à nossa frente, tímida e abraçada pela cerração. A viagem durou duas horas e meia. Optamos por subir até Machu Picchu de microônibus. A subida a pé levava horas, e não tínhamos tempo. O microônibus pôs-se a subir, subir, subir, subir num zigue-zague que testava nossos nervos. Ultrapassamos a altura da cerração. Um céu ensolarado brilhava sobre o denso nevoeiro, e continuávamos a subir em zigue-zague. Quando atingimos as primeiras áreas de plantios usadas durante a civilização Inca, o microônibus parou. Descemos e andamos um trecho a pé. A cada curva, a ansiedade aumentava. E quando… Levei uns cinco minutos para entender a vista panorâmica da cidade perdida dos Incas: Machu Picchu. Acredito que o Paulo também. A Ivana quebrou o silêncio: “Mira ticos, que belo!” Ninguém do grupo, cerca de umas trinta pessoas, falava. Apenas admiravam a paisagem. O guia turístico esperou que o grupo voltasse a si e finalmente anunciou: ‘Señoras y señores, Machu Picchu! La ciudad perdida de los Inkas!’ Meus olhos encheram-se de lágrimas. Não encontrei uma palavra, gesto, expressão que traduzisse Machu Picchu. Linda e impressionante. A Ivana novamente quebrou o silêncio: “Mira ticos, que belo!”.

Machu Picchu foi descoberta pelo historiador norte-americano Hiram Bingham. Após estudar as lutas liberais de Simón Bolívar, Hiram acabou se aproximando da cultura Inca e foi seduzido pelos mistérios dessa civilização. Apoiado pelo governo peruano da época, organizou uma expedição para localizar o que ele chamou de cidade perdida, onde também se acreditava estar todo o ouro da civilização Inca. E, em 24 de junho de 1911, juntamente com uma pequena comitiva, o historiador chegou aos pés da montanha Machu Picchu. Ao avistar um agricultor, perguntou se ele conhecia alguma ruína Inca por aquelas bandas. O agricultor apontou para o alto da montanha e disse que lá no cume tinha uma cidade de pedras e acrescentou também que por lá moravam duas famílias de camponeses que, fugindo dos impostos do governo, se instalaram em dois casebres com as esposas. Hiram deu ao camponês um “sol” (moeda local) pela informação e iniciou a escalada da montanha. Quando atingiu o cume, viu apenas os casebres citados pelo camponês, onde moravam as famílias. Um menino de oito anos estava numa das casas naquele momento, os pais estavam na lavoura. Hiram perguntou ao menino onde ficavam as ruínas do que havia sido uma cidade. O menino apontou para o lado direto de sua casa e foi conduzindo o historiador pela trilha entre a vegetação local. O menino estacou de repente, afastou uns galhos abrindo visão com as mãos e mostrou a cidade perdida de Machu Picchu. Hiram entrou nela pelos campos agrícolas em forma de largos degraus de escada, depois foi percorrendo suas ruelas, becos, altares, subindo e descendo escadas e se impressionou com seu tamanho. Andou por horas. Só então é que se deu conta de que ali não havia nenhuma pista evidente da localização do ouro. Olhou para o menino falante e perguntou: “Onde foram parar as pessoas que moravam aqui? Onde está o ouro daqui?” O menino resumiu a resposta numa frase recheada de mistérios, que até hoje ressoa pelos vales peruanos: “Eu não sei!” Ainda permanecem vários mistérios em Machu Picchu: o ouro Inca que supunham estar ali e ainda não foi encontrado; como as pedras que compõem a cidade chegaram até lá; como conseguiram desenvolver os avançados estudos em matemática, física, astrologia, engenharia, medicina, agricultura e em muitas outras áreas. “Há hoje algumas suposições, mas nada devidamente comprovado”, finalizou o guia turístico, aumentando os mistérios Incas.

− Mira ticos, que belo! – sussurrou a Ivana com os seus olhos verdes estatelados.

Passamos todo o dia em Machu Picchu, e posso afirmar que não conhecemos todos os lugares. Um sol quente que vazava as nuvens brancas deixava a cidade ainda mais bela. Curiosamente caía uma chuva típica da época nas altas montanhas que circundam Machu Picchu, mas não nela, que permanecia ensolarada, o que encantou muitos turistas, inclusive nós.

− Mira ticos, que belo! – dizia a Ivana. Deixamos a cidade perdida com imensa vontade de ficar. Fomos os últimos a ultrapassar seus portais, imbuídos pela energia daquele lugar. Na saída, algumas lhamas apareceram para agradecer a visita, mas depois percebemos que elas queriam mesmo é tirar fotografias… tão logo houve a sessão fotográfica, elas desapareceram como tinham vindo… Mistérios de Machu Picchu. A descida foi tumultuada, não parávamos de falar por um só minuto. A todo instante, pedíamos a Ivana para “hablar despacio”.

− Mira ticos, que belo! – animadamente, Ivana. Águas Calientes nos recebeu com suas luzes artificiais acesas. O sol tinha desaparecido atrás das montanhas. A noite chegou rápido. O trem partiu pontualmente rumo a Cusco. Ainda tagarelávamos sobre tudo que tínhamos vivenciado em Machu Picchu. Outros turistas se juntaram a nós.

− Mira ticos, que belo! – tagarelava a Ivana. A chuva voltou a cair, trazendo consigo um frio que feria. Abateu-se sobre nós um cansaço profundo. O rio Urubamba, às margens da linha férrea, parecia mais furioso que antes, talvez sufocado pelas margens que o comprimiam, possivelmente pela chuva fria que também o feria.

Cusco nos recebeu como sempre: calma, charmosa e submersa em suas luzes âmbar. Corremos rumo ao hotel para pegar nossas bagagens. O cansaço das longas caminhas por Macchu Picchu foi esquecido. Marchamos rumo à rodoviária para embarcamos para Puno, cidade que fica às margens do logo Titicaca, onde finalmente desvendaríamos os mistérios das Ilhas Flutuantes.

 

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II Diário em Terras Estrangeiras (2) – José Roberto Pereira

Por Editor, 6 de março de 2009 6:35

Peru e Bolívia – 2ª parte

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Cusco nos recebeu com um céu coalhado de nuvens brancas e um sol fraco tentando aquecer a manhã gelada. Logo no aeroporto, um grupo indígena nos deu boas vindas com alegres canções típicas. Novamente pegamos um táxi e partimos rumo ao centro histórico da cidade. Uma gente simpática e lenta movimentava-se pelas longas avenidas. Um frio suave passava pela fresta da porta do carro trazendo um ar seco, sem oxigênio. Grandes monumentos, igrejas, mosteiros e casarios antigos apareceram à nossa frente, deixando-nos perplexos: Cusco é linda e é nossa − é Patrimônio Histórico da Humanidade, título dado pela Unesco. Foi uma importantíssima cidade Inca e está situada no Vale Sagrado; seu formato original era o de um puma; seu nome no idioma quíchua significa “umbigo”; e está situada a 3400 metros de altitude. Em Cusco foi decapitado publicamente o último imperador Inca, uma vergonha para os espanhóis que destruíram o império em busca de ouro – que nunca foi encontrado. O povo e a cidade sobreviveram a tudo, inclusive a vários terremotos.

Durante o trajeto, eu não disse uma só palavra nem me lembro se o Paulo balbuciou alguma coisa também. Talvez por prudência, optamos pelo silêncio a tentar traduzir em palavras o que as próprias palavras não conseguiriam expressar sobre a beleza de Cusco… Certamente há lugares muito mais bonitos, mas o sol daquela manhã despertando aquela cidade Inca deixava-a, simplesmente: encantadora.

Não levamos mais que alguns preciosos minutos para nos instalar, resolver nossas entradas nos sítios arqueológicos, igrejas, museus e outros atrativos de Cusco que não poderiam deixar de ser visitados – um único bilhete dá acesso a quase tudo – e finalmente ganhamos suas ruas e praças. Andamos por todos os lugares possíveis. O tempo andava tão ligeiro quanto nossa ânsia de explorar todas aquelas paisagens fascinantes. Por fim, caminhamos rumo à praça central indicada por uma guia turística a fim de nos juntarmos a um grupo de pessoas que, como nós, também seriam guiadas para a visitação aos sítios arqueológicos. Não há outro meio mais adequado de se embriagar da cultura Inca sem a orientação e explicação desses profissionais.

Devido ao encantamento pela cidade, a falta de ar que nos abatia desde a nossa chegada em Lima foi esquecida. Mas quando paramos junto ao grupo, fomos surpreendidos por um ataque prolongado. Nos apoiamos junto ao muro de um prédio, esperando que a crise passasse. Não passava. A guia turística chegou e nos convidou a entrar no ônibus. Subitamente, em meio ao grupo, apareceu uma velha senhora indígena com um cesto cheio de guloseimas típicas. Acredito que ela percebeu o que se passava conosco e, sem receio nenhum, nos ofereceu um pacotinho de folhas de coca e ainda nos orientou a mascar um pouco a cada vinte minutos para auxiliar na respiração. Surpreendido pela inesperada oferta, Paulo comprou um pacotinho da erva, meio que ressabiado. Entramos no ônibus e nos sentamos. O pacotinho de folhas de coca em nosso poder e à vista de todos parecia algo que nos levaria a uma punição tão logo fosse aberto. A crise veio outra vez e, por impulso e curiosidade, o Paulo abriu aquela barreira que separava a erva de nós. Ele levou um punhado à boca. Fiquei olhando aquilo com um certo nervo divagando entre a crise de falta de ar e a bisbilhotice. Por fim, peguei um pouquinho também. Levei à boca. O gosto acentuado percorreu a língua, o céu da boca; não percebi por quanto tempo fiquei mascando. Senti a boca anestesiada. Fiquei na expectativa de que algo me acontecesse. Nada. Absolutamente nada. Apenas senti um alívio e uma facilidade na busca do oxigênio. A guia turística começou as explicações em língua pátria, entusiasmada.

O dia passou tão ligeiro que sequer nos importamos com refeição. Ouvir sobre a cultura Inca em língua pátria é algo que “não tem preço”. Tentar descrevê-la neste relato é tirar a oportunidade do leitor de viajar ao Peru e vivenciar tais experiências.

Andamos, ora a pé, ora de ônibus, por toda a cidade de Cusco, e visitamos os sítios arqueológicos Incas de Pisac, Chinchero, Ollantaytambo, Tambomachay, Q’enqo, Saqsayhuamam, Pukapukara; o Monumento Pachacuteq; as igrejas e os museus. A noite nos pegou de surpresa. O céu escureceu rápido, desaparecendo com todas as grandes nuvens brancas que nos acompanharam durante todo o dia. O frio chegou intenso e assustador, mas foi amenizado pelas belas luzes âmbar da noite de Cusco. O sono foi tão pesado quanto as pedras que formam as cidades Incas. Adormeci pensando numa fala da guia turística proferida em Saqsayhuamam no momento em que ela pegou emprestada uma peça de artesanato feita em pedra vulcânica com um artesão para ilustrar sua fala e, antes de devolvê-la, mencionou que aquele objeto estava à venda. O artesão agradeceu à guia turística pela indicação de seu produto, ao que ela retrucou: “Hoje eu sou por você; amanhã, você poderá ser por mim.” Foi uma prova clara de que até os dias de hoje ressoam os ensinamentos de seus antepassados…

Impulsionado pelas luzes âmbar da noite anterior, não resisti e acordei às cinco da manhã para ver Cusco adormecida antes que ela despertasse. Subi ao mirante do hotel. Um frio cortante aumentava a cada degrau subido. Quando atingi o cume do mirante, meus olhos encheram-se de lágrimas. Jamais vou me esquecer do despertar de Cusco, de seus telhados gelados, suas chaminés soltando uma fumaça tímida, aquele aroma de ervas impregnando o frio. Um e outro transeunte envolto em grossos casacos perambulava pelas ruelas e becos, e um clarão vindo por entre as altas montanhas anunciava a chegada do dia. Não sei por quanto tempo fiquei ali. Lembro que fiz uma oração em agradecimento aos meus antepassados; se eu estava ali vendo o sol nascer numa cidade Inca é porque eles existiram e, de alguma maneira, moveram ações no passado que me possibilitaram desfrutar daquele momento. Por fim o sol despontou, trazendo consigo umas nuvens brancas espaçadas. Desci para tomar o café. O desjejum foi rápido e divertido. Rimos tanto que até agora não sei dizer se foi pelas folhas de coca ou pela viagem que nos surpreendia a cada momento.

Seguimos rua abaixo correndo numa alegria infantil, em meio a um frio cortante e numa ansiedade latente. Um dos momentos mais marcantes da viagem estava prestes a acontecer… Embarcamos num trem rumo à cidade perdida dos Incas: Machu Picchu.

Continua…

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II Diário em Terras Estrangeiras – José Roberto Pereira

Por Editor, 28 de fevereiro de 2009 17:07

Peru e Bolívia – 1ª parte

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Grandes nuvens brancas espalhadas pelo céu nos acompanharam por toda a nossa segunda viagem em terras estrangeiras. O céu de uma quinta-feira escurecia em Pará de Minas quando pegamos a estrada dando outro colorido às nuvens espaçadas. Era a segunda vez que eu e o Paulo viajávamos ao exterior cumprindo uma meta de, a cada dois anos, visitar um país; os primeiros a serem visitados foram o Chile e a Argentina. Agora embarcávamos rumo ao Peru para submergir na cultura andina e depois desbravar a Bolívia até o Salar de Uyuni, eleito umas das sete maravilhas do mundo moderno.

Na madrugada de sexta-feira embarcamos no aeroporto de Confins, Belo Horizonte, com escala em Guarulhos, São Paulo, com destino a Lima, no Peru. No trajeto o avião ora perfurava as grandes montanhas de nuvens brancas, ora sobrevoavam-nas deixando-se banhar nos longos raios de sol, o que acalmou a ansiedade que nos consumia em tocar solo Inca. Subitamente as Cordilheiras dos Andes, permanentemente cobertas de neve, surgiram à nossa frente. Encheram-me de alegria ao revê-las, tão imponente quanto pela primeira vez que as vi. Logo surgiu o imenso lago Titicaca, sobrevoamos um longo período sobre aquele mar de água doce incrustado entre imensas montanhas peruanas e bolivianas. Hipnotizou-nos a ponto de emudecer-nos. E finalmente o Comandante anunciou Lima, capital do Peru. Desembarcamos no aeroporto internacional. Estávamos menos ansiosos de quando embarcamos. Os primeiros a nos receber foram os policiais federais. O som do carimbo no passaporte abriu as ‘portas Incas’ para que pudéssemos explorar boa parte do território peruano.

Deixamos nossas malas no guarda volume do aeroporto. Sob segura orientação pegamos um táxi rumo à Praça de Armas no centro de Lima. Uma cidade de trânsito confuso e inconseqüente pintava-se ao longo do trajeto. Meninos pediam esmolas nos sinais. Gente de roupas típicas e coloridas movimentavam-se pela cidade. Entrávamos Lima adentro tão perplexos com o trânsito que se agravava em imprudências. Praças ornamentadas de bandeiras peruanas tremulavam-se ao vento. Um mar de gente se agitava mais que o ar quente e seco. Uma forte falta de ar apoderou-se de nós. A boca permaneceu aberta por todo o trajeto na tentativa de buscar o pouco oxigênio do ar; vez e outra por surpresa e admiração às paisagens urbanas estrangeiras. De repente toda a agitação com cara de pobreza desapareceu e uma grande praça cercada de magníficos prédios antigos surgiu a nossa frente. O táxi parou. Descemos boquiabertos pela beleza e pela falta de ar mesmo. Andamos horas pelo grande centro da capital do Peru. Lima foi fundada em 1535 pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro e hoje é formada por várias pequenas províncias. Ao redor da Praça de Armas e ruas paralelas ficam todos os museus, galerias de arte, lojas de artesanatos, mercados, prédios históricos e a sede o governo. Andando por todo o dia visitando os atrativos turísticos. O museu da Inquisição e o de São Francisco com seus mausoléus foram os que mais me impressionaram. Saí deles sentindo-me uma outra pessoa, com maior percepção ao mundo e sua história.

A tarde caiu tão ligeira quanto os passos que dávamos para cruzar as ruas de Lima. Pegamos um outro táxi e seguimos rumo a Miraflores, umas das províncias que formam a grande metrópole; foi amor a primeira vista; apaixonei com sua luz, as pessoas, sua arquitetura, suas feiras, seus casarios, suas bares, igrejas. Um cheiro suave de maresia vindo do oceano Pacífico dava á província um charme indescritível. Decidimos pernoitar em Miraflores. A noite chegou com uma chuva típica da época e trouxe consigo um cansaço profundo devido ás longas caminhas ao longo do dia. A falta de ar continuava a nos abater causando imenso desconforto.

O dia amanheceu gelado e ainda continuávamos com dificuldades para respirar. Descemos rua abaixo e entramos em outro táxi rumo ao aeroporto para voarmos para a cidade de Cusco. O motorista percorreu toda a orla do oceano Pacífico que circunda a cidade. Toda ela estava sendo projetada para ganhar plantas típicas, calçadas, quiosques e praças, uma clara evidência à adaptação ao turismo internacional. O frio cortante não impediu que uma meia dúzia banhistas se atirarem ao mar. Revi pela segunda vez esse mar de águas calmas, pacíficas. Sorri um sorriso de Gioconda.

O avião decolou pontualmente rumo a Cusco. Finalmente pisaríamos, pela primeira vez numa cidade essencialmente Inca. A falta de ar crescia tanto quanto o céu coalhado de nuvens brancas. Voamos cerca de uma hora. Por fim Cusco entrou no nosso campo de visão. Finalmente nossos pés tocariam poeiras Incas e finalmente também resolveríamos nossa falta de ar… Iríamos experimentar, pela primeira vez, folhas de coca.

Continua…

Foto: Praça de Armas- Lima – Peru

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