II Diário em Terras Estrangeiras (8) – José Roberto Pereira
Peru e Bolívia – 8ª parte (Final)
Finamente atingimos a última parte da travessia dos desertos bolivianos. O carro seguia em alta velocidade de encontro ao vento forte e gelado. O deserto ainda nos abatia e reacendia nossos conflitos internos. Na mais completa exaustão, devido às forças desérticas sobre nossas fragilidades, o grupo seguia em silêncio surdo. O sol nasceu entre as planícies áridas, anunciando o dia, mas não trazia consigo algo que nos reanimasse; seus raios longos e de tons amarelados alargavam ainda mais a desertificação dentro de nós.
Quando atingimos as regiões dos vulcões bolivianos, o deserto se impôs com maior intensidade, e um dos integrantes do grupo não resistiu, caindo em profundo abatimento. Numa observação mais cuidada, Sílvia, enfermeira experiente na Suíça, comunicou-nos que Paulo precisava de cuidados, tentando acalmar o grupo. Rapidamente nos remanejamos dentro do carro para que Paulo pudesse se deitar em um dos bancos. Fran optou em não parar para que não permanecêssemos mais tempo do que o previsto nos desertos. Tão logo se acomodou no banco, Paulo recebeu uma medicação devida. Ao longe, grossas nuvens de vapores vulcânicos assaltaram nossas vistas.
O carro andava por entres os geysers, desviando-se de um e outro veículo; por fim parou, e então pudemos descer. Andamos no limite permitido, e devo confessar que senti mais medo do que encantamento. Nem toda a beleza dos inúmeros geysers e dos poços fervilhando de larvas vulcânicas deu ânimo ao grupo. Ficamos pouco tempo nos vulcões. O dia avançava rapidamente, e o estado de Paulo dava sinais de agravamento…
Caminhamos em alta velocidade pelas montanhas e seus vulcões. As paisagens compostas por desertos, montanhas geladas, oásis com flamengos, imensas pedras, se comparavam aos nossos labirintos internos: cheios de revelações. Subitamente surgiu à nossa frente um lago pequeno de águas termais. Vários turistas seminus se atiravam ao deleite daquelas águas vulcânicas. A temperatura era de 40 a 45 graus. Não resistimos, nos jogamos ali como se estivéssemos submersos na cama nossa de todas as noites. As águas termais reanimaram o grupo e mais ainda o Paulo, que restabeleceu suas forças físicas e psíquicas.
Tomamos um rápido café da manhã e seguimos para a fronteira com o Chile. Reanimados com o banho, voltamos a conversar animadamente. O deserto não nos feria mais e nem se impunha sobre nós, voltou a nos encantar com seus mistérios, magia e paisagens deslumbrantes.
Entramos no deserto do Atacama, no Chile. Pedi licença ao pisar novamente naquelas terras. O Chile foi o primeiro país estrangeiro que conheci.
O deserto só mudou o nome; as paisagens mortas continuaram as mesmas. Atingimos os serviços de migração e longamente nos despedimos dos amigos Alex e Mariana. O casal seguiria outra rota dali em diante. Demos um longo aceno coletivo e eles entraram num ônibus simples e seguiram pelos desertos chilenos adentro. Um vazio se formou no grupo. Depois de tanto tempo juntos, ali se cortavam os laços criados. Um sol frio de fim de manhã banhava aquela região isolada do mundo. Uma região dúbia: belíssima e triste. As fronteiras, de um modo geral, são assim: são o limite onde permanecemos ou ultrapassamos, e quase sempre envolvem ações que trazem reações, depende das escolhas que são feitas. Claro que, no caso em questão, não houve escolhas, mas sim um procedimento de percurso já traçado por pessoas que possivelmente se reencontrarão em algum momento da vida, em algum lugar do mundo – encantado mundo.
O céu se cobriu todo de nuvens brancas e cinzas. Avançamos por uma região de enormes esculturas de pedras feitas pelo vento. Avançávamos, porém, de volta para casa. A viagem findava a cada metro percorrido e já não tínhamos forças para permanecer mais tempo dentro do deserto. Viajamos a tarde toda e, quando a noite se desenhou no horizonte, atingimos a cidadezinha de Uyuni. Despedimos-nos rapidamente de Sílvia, André e Fran porque um novo trajeto nos aguardava de volta para casa: uma maratona em ônibus e trens. Horas intermináveis em regresso ao lar.
Deixamos os desertos bolivianos numa noite escura e fria. Estávamos extremamente cansados, mas, apesar disso, não conseguíamos dormir. Dentro de um ônibus coletivo, passamos a noite conversando sobre as vivências nos desertos. Aquele trecho da viagem deixou marcas em nossas memórias, em nossos sentimentos, que ficarão para sempre. Jamais vou me esquecer da beleza frágil e cruel do deserto.
À medida que voltávamos para casa, sentíamos o quão difícil seria o trajeto. Passamos por dezenas de cidades bolivianas. E quanto mais nos aproximávamos da fronteira com o Brasil, mais cansados ficávamos. A ideia era entrar no Brasil por Corumbá, seguir para Campo Grande, depois para São Paulo e finalmente para Belo Horizonte. Mas essa intenção foi interrompida, pois estávamos ainda muito longe da fronteira, fomos abordados inúmeras vezes pelos policiais federais bolivianos, os ônibus para a fronteira não saíam diariamente e nosso cansaço acentuava-se a cada minuto, minando nossas resistências. Numa jogada financeira desesperadora, compramos duas passagens aéreas em Santa Cruz da La Serra e voamos para Guarulhos, São Paulo, e, em seguida, para Confins, Minas Gerais. As nuvens brancas que nos encompanharam durante toda a viagem cercaram o avião como se se despedissem de nós.
Descemos em Confins com uma imensa felicidade de estar em casa. Eu estava três quilos mais magro. O Paulo ainda se recuperava das ações do deserto. Nossos amigos Arnaldo e Luciene foram os primeiros a nos ver e se alarmaram com nossos aspectos.
Embarcamos em mais um ônibus e seguimos para Pará de Minas. Foi o trecho mais demorado devido ao alto grau de ansiedade que sentíamos. Eu contava cada árvore da estrada, e finalmente Pará de Minas nos recebeu com um fim de tarde calmo, ensolarado e um céu repleto de nuvens amareladas, brancas e algumas escuras. Entrei em minha casa com um desejo enorme de reler dois textos, um bíblico e outro de teatro: o primeiro, “As tentações de Jesus no deserto”; e o segundo, uma cena em que Jesus pergunta a Judas: “A que viestes?”
A noite cobriu tudo e agrupou grandes nuvens escuras. Uma chuva inesperada e forte caiu sobre Pará de Minas naquela terça-feira de carnaval, véspera de quarta-feira de cinzas, lavando toda a fadiga daquela viagem maravilhosa e feliz. Dormi um sono suave e profundo, como se tivesse tido a oportunidade de regressar ao aconchego do útero materno. Estava de volta às minhas deliciosas rotinas, porém mais maduro, mais humano, mais do mundo – encantado mundo.
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(Obrigado, leitor, por nos acompanhar nesta viagem. Um obrigado especial ao Paulo por permitir o uso de sua imagem e histórias nestas narrativas. Obrigado também aos amigos estrangeiros que me permitiram usar seus nomes verdadeiros. Um beijo a minha gramática viva e mutante, Carmélia Cândida. Estendo também meus agradecimentos ao Jornal Diário, pelo espaço, e ao site Alma Carioca, que abriu um link exclusivo para os relatos do II Diário em Terras Estrangeiras – Peru e Bolívia. Até a próxima viagem!).
Foto: Mariana, Alex, Paulo, Fran, André, Sílvia e eu











