Category: Falando de minha aldeia

O Trampolim do Diabo – Rogério Barbosa Lima

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Por RBL, 25 de dezembro de 2009 0:10

Trampolim do diabo

O “Circuito da Gávea”, inaugurado em 1933, foi planejado com o auxílio do automobilista Manuel de Teffé, recém-chegado da Europa, onde obtivera certo êxito. A pista, idealizada para fugir da mesmice das retas e partes planas, estendia-se por uma variedade de pisos de paralelepípedo, asfalto, terra e cimento, a partir do Hotel Leblon, subindo a Av. Niemeyer, contornando o morro Dois Irmãos, via Rocinha e Estrada da Gávea e retornando pela Marquês de São Vicente até desembocar outra vez no canal da Visconde de Albuquerque, a reta principal, a reta final. Um trajeto empolgante, com uma sucessão de rampas acentuadas, precipícios e curvas de raio fechado, como o famoso “S”, em cujas proximidades os corredores alternavam, subindo ou descendo, dezesseis curvas perigosas.

O pavilhão de chegada, em frente ao hotel, abrigava o serviço de cronometragem, os juízes, as comissões técnicas, autoridades e convidados. A poucos metros dali ficavam os boxes de abastecimento e reparos das baratinhas.

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Hotel Leblon e seus sortilégios – Rogério Barbosa Lima

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Por RBL, 24 de dezembro de 2009 0:10

Hotel Leblon

A restinga do Leblon, hoje recortada por avenidas, ruas e praças, cheias de suntuosos edifícios e ricas residências, quase se converteu em um vasto cemitério municipal, conforme projetou e quis, no início do século, o conhecido engenheiro André Rebouças. Não logrou seu intento, mas o que quer que tenha suspeitado de fantasmagórico, sobrenatural na região para respaldar sua predileção, parece ter se materializado muito mais tarde em mais de uma oportunidade e, por razões à primeira vista inexplicáveis, a maior parte dos acontecimentos sobrevindos guarda algum tipo de envolvimento com o Hotel Leblon.

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A praia – Rogério Barbosa Lima

Por RBL, 23 de dezembro de 2009 0:30

A casa do Chico ficava pras bandas do quartel e distava da praia bem uns três botequins, de modo que esse esforçado andarilho, em sua longa peregrinação a caminho do mar, jamais chegava ao destino, embora se empenhasse em sair cedo, paramentando-se com os indispensáveis acessórios: tamanco, toalha e chapéu. Pelas onze da manhã, já com meia dúzia no lombo, algum passante lhe perguntava se não ia dar uma caída, ele, esquivo, respondia:

- Eu não. Botar o pé naquela areia suja, onde os cachorros fazem porcaria, e arrumar uma pereba, isso de jeito nenhum. Depois, o que me interessa é que a praia tá lá bonitinha e não vai fugir.

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Praia do Pinto – Rogério Barbosa Lima

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Por RBL, 22 de dezembro de 2009 0:30

Desde seus primórdios, o Leblon caracterizou-se pela função residencial e pelo contexto social heterogêneo, com acentuada predominância da classe média, que chegou junto com o bonde, atraída pelos preços razoáveis dos lotes, pela praia e pela beleza paisagística.

Igualmente sensibilizada por essas virtudes, e porque a ocupação de Copacabana se adensava, representantes do segmento mais abastado, que fugiam do atropelo da cidade velha, vieram construir residências mais apropriadas ao seu conceito de civilização e estilo de vida, estabelecendo-se preferentemente à beira-mar.

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O bonde – Rogério Barbosa Lima

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Por RBL, 21 de dezembro de 2009 0:30

bonde

O que mais impressionou Machado de Assis foi o semblante do motorneiro: “Os olhos do homem passavam por cima da gente que ia no seu bonde, com grande ar de superioridade. Sentia-se nele a convicção de que inventara não só o bonde elétrico, mas a própria eletricidade”.

A mim, observador menos arguto, chamavam a atenção as manobras acrobáticas do condutor, dependurando-se nos balaústres a recolher o dinheiro das passagens, ao mesmo tempo que dava frenéticos puxões nas alças das correias que comandavam os marcadores do relógio. Dissimulada pelo blem-blem da campainha, uma pausa quase imperceptível parecia segredar: “São dois pra mim e um pra Light”.

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De bar em bar – Rogério Barbosa Lima

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Por RBL, 20 de dezembro de 2009 12:54

Tirante dois ou três barezinhos nas proximidades da Rua Dom Pedrito, pras bandas do Jardim de Alá, e o Clipper, em frente à garagem do 12, a maioria dos botequins importantes do bairro, bem como os raríssimos restaurantes tidos como tais, ladeavam a pracinha ou situavam-se mais para o final do Leblon, quase sempre ao longo da Av. Ataulfo de Paiva.

Em frente ao Clipper, o neguinho Miquimbira fez-se de morto. Cobriram-no com um lençol surrupiado da casa do Paulo Perinha e cercaram a trouxa com velas acesas. Os passantes olhavam consternados para o suposto defunto. Um ou outro, mais comovido, indagava da causa do óbito e já havia uma rodinha em volta, com as pessoas sussurrando respeitosamente. Foi quando o Pestana, atropelando o script, enfiou por baixo do lençol, juntinho à cabeça do “falecido” uma cabeça-de-negro das grandes. No que o Miquimbira ouviu aquele ssshhhh bem perto de sua cara, pulou igual tiziu no arame farpado, atirando longe a mortalha e fugindo espavorido em direção à praia, a tempo de escapar do estrondo. Os participantes do improvisado velório, ao se darem conta do logro, já estavam surdos e envoltos em espessa névoa, prometendo viganças terríveis. A uma senhora mais assustada, tiveram que acudir, trazendo cadeira e água com açúcar.

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Um pouco do Leblon – Rogério Barbosa Lima

Por RBL, 20 de dezembro de 2009 12:26

Leblon

O fascínio que sobre mim exercem a graça e a inteligência das reflexões de Elsie Lessa fazem-me, sempre que posso, reler suas histórias, e foi numa dessas vezes que reencontrei, recentemente, a descrição de um eclipse observado ao longo da avenida da praia, por onde vinha a cronista, em marcha lenta, desde “os confins do Leblon”.

Fixei-me, surpreso e enleado, nessa referência. Entrevi, no belo cenário descrito, uma nesga entre os restos de sol de um céu azul escuro e antigo, e enfiei-me de mansinho numa tarde qualquer de 1950.

Era, com efeito, o Leblon um dos extremos da cidade. Prá lá do canal da Avenida Niemeyer, só iam pescadores que moravam no Vidigal e alguns aventureiros motorizados à cata de um sítio ermo para seus encontros furtivos na Barra da Tijuca, então, apenas, um acidente geográfico com mar batido e enorme areal coberto por vegetação rasteira e espessa – uma espécie de jibóia entrelaçada – que fazia as vezes de leito para um ou outro casal mais afoito.

No mergulho proustiano que empreendi, vejo-me, à noitinha, cercado de garotos como eu, sentado na calçada da praia, sob a iluminação fraca das grandes luminárias guarnecidas de arabescos, encimando meia-dúzia de pesados postes de ferro, tentando adivinhar o algarismo final da placa dos automóveis. De trinta em trinta minutos passava um deles, e iniciávamos outra rodada de apostas. A quietude e a ausência quase total de transeuntes, que pudessem desviar nossa atenção, estimulavam o hábito da conversação; os assuntos, sempre os mesmos, mas as opiniões, variadas. Ainda não havíamos sido cooptados e globalizados pela tal da mídia; a televisão engatinhava, era experimental. “1984″, de Orwell, não chegara ao Brasil, pelo menos na atual versão tupiniquim.

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