Category: Índia

Prestando contas sobre a viagem à Índia – Lu Dias

Por LuDiasBH, 13 de setembro de 2009 6:45

Caros leitores

Quero dividir com vocês o sucesso que foi a série de artigos feitos sobre a Índia, pegando como fundo a novela Caminhos das Índias.

Tudo começou com um simples texto, Caminhos das Índias, onde eu indagava se a Glória Perez teria peito para falar sobre o problema dos dalits, sobre o qual eu já havia tomado conhecimento, alguns anos atrás.

A seguir, escrevi o texto O Que é um Dalit?, que bateu recordes de acesso, dia após dia, chegando ao final da novela em primeiro lugar.

O Paulo Afonso fez a postagem do Vídeo – Abertura da Novela e do tema da novela, Não se Esqueça de Mim, que foram um sucesso total.

Comecei a receber sugestões, para que escrevesse sobre esse ou aquele assunto e a responder o que significava algumas palavras. Percebi que o número de palavras em híndi, estava dificultando a compreensão da trama da novela. Foi quando escrevi o segundo texto de maior sucesso Expressões usadas em Caminhos das Índias.

Bem, daí para frente não consegui mais parar. Fui me apaixonando por cada tema. Passei a comprar livros sobre a Índia, ver vídeos, filmes, ler artigos de jornais, pesquisar na Internet, trocar e-mails com a professora Sandra Bose, radicada na Índia e dona do blog Indiagestão. Em suma, senti-me “possuída” pela cultura indiana.

Antes de me embrenhar pelos caminhos da Índia, era também muito crédula quanto à espiritualidade, que diziam emanar daquele país. Mas, com o tempo, comecei a rever meus conceitos, olhando a cultura indiana com outros olhos.

Fui capaz de separar a realidade da crueldade das superstições e credos, vistos como parte do divino. Os fatos eram bem outros. Fatos esses, que estão presentes em cada um dos meus textos, por isso não há necessidade de citá-los aqui.

Juntamente com meus leitores, fomos desconstruindo a imagem fantasiosa que tínhamos sobre a Índia. Começamos uma saga, no sentido de mostrar para o mundo a vida das castas, dentro do continente indiano, dando ênfase à miserabilidade dos intocáveis (dalits).

Sentindo os leitores ávidos por mais conhecimento sobre o tema da novela, eu me comprometi com o Paulo Afonso, nosso blogueiro, a escrever sobre a cultura indiana, até o término de Caminhos das Índias.

Nesse meio tempo, houve uma tentativa, de minha parte, em parar, pois pensava que as pessoas pudessem estar saturadas com o assunto. Vi que não era verdade, pelos comentários e e-mails recebidos, cobrando-me a continuidade.

E, carinhosamente continuei na saga, até o último dia da novela, quando a fechei com o artigo Dr. Castanho e as Doenças Mentais.

Quero agradecer ao Paulo Afonso por ter me aberto um grande espaço, confiado na minha capacidade e me incentivado ao longo do meu trabalho, sem jamais me tolher em momento algum, sendo o responsável pela parte de ilustração dos textos.

Agradeço a meu marido Moacyr e a minha filha Sinara, meus dois maiores fãs, que muitas vezes tiveram que se privar de minha companhia, para que eu desse andamento a meu trabalho de pesquisa.

Quero agradecer aos comentaristas, pois sempre me deixaram palavras de estímulo, mostrando-me que estava valendo a pena escrever sobre um mesmo tema, durante tantos meses.

Agradeço aos leitores que faziam o “programa de acessos” do computador trabalhar ininterruptamente, durante todo o tempo da novela, deixando-me sempre surpresa com a multiplicação dos acessos, em todos os Estados brasileiros, assim como em países diversos (Portugal, Japão, EUA, Índia, Rússia, Canadá, Venezuela e tantos outros), abrangendo os cinco continentes, onde se encontram nossos irmãos brasileiros.

Não poderia deixar de dizer “Obrigada!” a minha terna amiga Sandra Bose (blog Indiagestão), que mora há dez anos na Índia e conhece aquele país nos mínimos detalhes. Sempre, que não conseguia compreender alguma coisa, ia até seu blog ou entrava em contato direto com ela, que me transmitia as informações necessárias.

Sugiro a quem gostou de conhecer a cultura indiana, que acesse o blog da professora Sandra Bose, que escreve unicamente sobre a Índia, há mais de quatro anos.

Resumidamente, repasso a todos o resultado de nossa saga pela Índia:

  • Número de textos (Lu Dias): 94
  • Vídeos sobre o tema da novela: 3
  • Número de acessos até 12/09/2009: 274.565.000

Abraços,

Lu Dias BH

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Dr. Castanho e as doenças mentais – Lu Dias

Por LuDiasBH, 12 de setembro de 2009 6:59

castanho

A Glória Perez é uma autora de novela muito comprometida com os problemas sociais.

E, desta vez, ele abordou didaticamente o problema das doenças mentais. Sendo esse um dos pontos altos da novela, elogiado até pela CNN.

Vimos que é fácil responsabilizar outrem por algo, quando temos a certeza de que esteja capacitado, para exercer tal função, racionalmente falando.

Quando outorgamos a alguém o exercício de uma função, confiamos plenamente que essa pessoa reúna habilidades e recursos, para executar o que foi pedido.

Por sua vez, a pessoa incumbida de levar a efeito determinada ação, precisa ter autonomia, para fazer a sua escolha, de poder optar por fazê-la ou não. Precisa ser capaz de escolher como gostaria de conduzir a sua vida, sendo consciente de seus direitos e deveres.

Sem autonomia racional, ninguém pode ser responsável por essa ou aquela ação. O indivíduo precisa ser livre para fazer uso dos meios necessários, para alcançar os fins que almeja. E ser capaz de avaliar se agiu corretamente ou não.

Na prática, o sistema social funciona desse modo, tanto é que são os pais ou os responsáveis, quem decide pelos filhos menores de idade. Assim como as pessoas incapacitadas de tomar decisões ou de fazer escolhas, com problemas referentes à capacidade racional, são guiadas por outras, muitas vezes indicadas pelo sistema judicial. E, mesmo quando comentem algum erro, não passam pelo mesmo julgamento, que as demais pessoas, consideradas “normais”.

Não se pode esperar que alguém, conscientemente, escolha os meios, para obter um determinado fim, sem que para isso tenha autonomia racional para agir, de modo que os objetivos buscados não possam ir de encontro à sociedade, em que se encontra inserido.

Um indivíduo pode ser responsabilizado, quando a sua lógica está atrelada ao raciocínio, de modo a poder distinguir o que é bom e o que é ruim. Entretanto, existem situações, onde o impulso primitivo sobrepõe a razão, como no caso de um indivíduo vivenciar uma ameaça iminente, ou o impulso de salvar a própria vida, situações essas em que não é capaz de analisar os riscos.

Uma pessoa guiada pela lógica trabalha com possibilidades entre verdade e mentira, entre dar certo e dar errado. Está consciente de que há vários tipos de possibilidades. O psicopata também usa esta faculdade, só que há um dispositivo operante e direcionado sempre para o mal, em tudo que faz.

O psicopata é uma pessoa que já nasceu com defeito de fabricação. Ele conhece virtudes, princípios, conseqüências e o bem estar comum, mas uma força maior sempre o leva em uma única direção: a do mal!

A ele foi negada a capacidade de refrear sua vontade, sendo incapaz de abster-se de fazer aquilo que fez e de levar em conta as razões que deveriam impedi-lo de agir assim ou assado. É desprovido de qualquer autocontrole racional. É escravo de seus desejos, marionete da própria mente.

O psicopata está ciente da realidade, mas as suas ações não passam pelo crivo da culpabilidade. Bem e mal se confundem, de modo que pode cometer atos criminosos sem sentir culpa alguma.

Quem espera encontrar no psicopata uma pessoa diferenciada das demais, engana-se. Ele pode ser uma pessoa simpática, aparentemente sensata que, não obstante, não hesita em cometer um crime, quando é do seu interesse, sem sentir culpa pela sua ação. Já nasceu com a etiqueta de “com defeito” e com a sentença de que será assim por toda a vida.

Como diz o doutor Castanho na novela Caminho das Índias, reconhecer um psicopata não é tarefa fácil, pois, tal pessoa, geralmente, nos causa uma boa impressão, quando nos relacionamos com ela, inicialmente. E nada de anormal aparenta como o fazem os loucos.

Mas, com um convívio maior, notamos que são egoísticas, desonestas, ambiciosas e indignas de qualquer tipo de confiança. Não sentem culpa alguma pelo mal que fazem aos outros e ainda se divertem com o sofrimento alheio. Nunca se sentem responsáveis por seus erros, jogando-os sempre nas costas de outra pessoa.

Sendo a mente o centro de comando do nosso corpo, devemos considerar que se ela falha, torna-se necessário buscar respostas na medicina.

Algumas vezes a medicina ajuda a mente a ter uma capacidade de funcionamento razoável (casoTarso) ao longo da vida, noutras, não existe possibilidade de conserto (casoYvone). Por isso os parâmetros de análise e julgamento devem ser muito criteriosos, antes de se dar um diagnóstico final, de modo a não imputar estigmas.

È louvável as inserções de difusão do conhecimento sobre os problemas sérios de saúde, para a grande massa, numa linguagem simples, que se faz através das novelas, veículos de grande poder de propagação.

Mais uma vez, GP mostrou que uma novela pode ser muito mais que entretenimento.

Namastê!

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O vulcão Norminha – Lu Dias

Por LuDiasBH, 9 de setembro de 2009 7:26

norminha

Meus queridos leitores

Hoje, peguei para mim uma tarefa espinhosa: postar-me na defesa da Norminha. Não é que eu esteja fazendo o papel de advogada do diabo. Não é essa a minha intenção. Quero apenas mostrar como a sociedade brasileira é machista e como incentiva o mito do macho.

Vamos começar, lá atrás, na história da raça humana.

“A ideia de que o esposo é a pessoa mais chegada à esposa constitui noção relativamente moderna, e mesmo assim restrita a uma parte da espécie humana” – escreveu Will Durant no seu livro Nossa Herança Oriental.

A instituição do casamento não originou do desejo físico, como pensam alguns românticos, mas de uma vontade meramente comercial. Nasceu junto com a noção de propriedade. O macho precisava de mão de obra barata e, encontrou na mulher e nos filhos uma mina. Depois o desejo de posse foi se tornando cada vez mais poderoso, de modo que ele que passou a querer saber quem eram os seus filhos, de maneira a evitar que seus bens fossem cair em mãos dos filhos de outros homens.

A mulher elevou a sua importância no lar, não pelo prazer sexual oferecido ao parceiro, mas, em virtude da necessidade que ele tinha dela, comercialmente falando. Pois, como dizia a nossa saudosa Dercy Gonçalves: “naquilo, não há muita variedade”. A satisfação sexual não dependia de muitos diferenciais.

É interessante notarmos, que o homem foi sempre um “senhor negociante”, em qualquer que tenha sido a raça e época. E pensa sempre na maneira mais fácil de conduzir a sua vida. O que não deixa de ser muito eficaz e inteligente, para o progresso da humanidade.

O surgimento da sociedade exigiu alguns requisitos, para que essa se tornasse permanente. Ela não poderia existir se lhe faltasse ordem. Portanto, algumas normas foram necessárias, para sua implementação. Dentre as muitas criadas, entrou no bojo as regras de conduta moral, que eram aquilo que o grupo considerava de suma necessidade para o bem estar e desenvolvimento de todos.

Tornava-se urgente colocar ordem nas relações sexuais, permanente fonte de discórdia entre homem e mulher. O casamento acabou sendo criado como uma forma básica de colocar ordem no galinheiro, ou seja, entre macho e fêmea, para fins de proliferação e posse dos bens.

Até nos nossos dias, o instinto reprodutor cria problemas dentro do casamento, tanto antes como depois de sua realização, ameaçando perturbar a ordem social (que o digam as Varas de Família).

Há, inclusive, uma citação muito curiosa (não me lembro de quem) que diz: “O homem difere do animal irracional por comer sem ter fome, beber sem ter sede e fazer amor em todas as estações”. Logo… (a conclusão é sua).

Não podemos negar que a regra geral de todas as sociedades primitivas foi a sujeição feminina. Mas, tal escravidão não se dava no campo da sexualidade, mas sim no do trabalho braçal, da acumulação de bens.

Alguns devem estar se perguntando como surgiu o adultério (palavra feia). Surpreendam-se! Surgiu com o desenvolvimento da propriedade. No início era um pecadozinho sem muita relevância, e poucos o levavam a sério, tanto é que recebeu o nome de “pecado venial”. Mas, a prosperidade tratou logo de elevá-lo à categoria de “pecado mortal”. Bens acumulados em maior quantidade = pecado de maior magnitude, para a mulher, é fato.

O macho torna-se egocêntrico e acrescenta ao apego aos bens acumulados o senso de domínio sobre a fêmea, através da fidelidade. Ela passa a ser uma cliente fidelíssima. De modo que ele até podia emprestá-la aos hóspedes, se quisesse (quantos filhos de hóspedes devem ter nascido…).

A vida agrícola tornou as uniões ainda mais permanentes, pois a separação era antieconômica, significando a perda de uma escrava, que já conhecia todo o serviço.

Vocês devem estar nervosos, pois já lorotei muito, sem colocar a Norminha na história.

O fato é que as normas de fidelidade foram instituídas pelos homens, em relação às mulheres, mas esses não se submetiam a elas, inclusive a virgindade exigida antes do casamento. De modo que nunca existiu a imposição da castidade pré-marital do macho.

E somos nós, mulheres, em pleno século XXI, diferentes dos nossos antepassados em relação à sujeição da mulher no que se refere à “moralidade”? Narrin! Narrin!

Ao contrário, nós reforçamos o mito da superioridade do macho.

Em casa são as filhas que fazem tudo, enquanto os filhos divertem-se com os amigos, com o argumento vazio das mães de que isso e aquilo não é serviço de homem. Na sociedade, as mulheres são as primeiras a jogarem pedras umas nas outras, quando se trata de um caso de traição. Enquanto o homem deita e rola. O que na mulher é visto como pecado, má conduta, no homem é visto como “é próprio do macho”.

Ainda me lembro dos conselhos de minha avó às netas (não incluía os netos), que mal tinham dado o primeiro beijo, em relação ao sexo fora do casamento.

- Em homem não pega nada, mas na mulher, a mancha nunca é tirada. Fica para a vida toda!

Sábias palavras da vovó! Por isso a minha pele não tem uma só manchinha! Uso filtro solar proteção 50 (risos).

Entrando na trama da novela.

Ramirinho, para os íntimos, é o maior galo da praça carioca, já papou secretária, amiga da mulher… mas nenhuma pedra foi nele atirada. Continua incólume como as colunas do templo do pândit. Se fosse a louquinha adorável da Melissa, teria suscitado muitos protestos da ala feminina.

A Nanda foi “aquela” mulher servil, sempre se sujeitando aos caprichos do Aroldo, que a desdenhava como ser pensante e como esposa. Agora, para ser perdoada, está comendo o pão que o diabo amassou com o rabo, quando ele, praticamente, jogou-a nos braços de outro. E há muita gente com peninha dele (deveria levar para casa).

O Raj, o colírio de nossos olhos, serviu-se da cama e da mesa de Duda, durante dois anos, se não me engano. Tendo, inclusive, um filho com ela, mas é a coitada da Maya, que se entregou por uns momentos relâmpagos, quem está sendo torturada. Por isso digo: perdida por pouco, perdida por muito.

O César trai a Ilana o tempo todo, mas ninguém contesta o seu caráter de infiel. O bonitinho Hidra envolveu-se com uma mulher casada, mas a culpa é somente dela.

Quero deixar bem claro, que não estou defendendo a traição conjugal, mas sim a hipocrisia de nossa sociedade, onde homens e mulheres são vistos como seres de planetas diferentes (Eles de Urano, elas de Saturno).

A traição perpetrada pelo homem é vista com a desculpa de que “a carne é fraca”, mas se perpetrada pela mulher é “puta” mesmo.

Ademais, a Norminha é uma boa esposa, não deixa faltar nada ao Abel. Além de ser extremamente carinhosa. Possui apenas a libido mais exigente, mais ativa, mais performática.

Abel será apenas um tolo, se cair na conversa dos invejosos e abrir mão de seu vulcão ardente.

Há um monte de gente de olho na morena. Sem falar que é nobre perdoar!

Portanto, para o bem da vida marital (sexual) do Abel, eu absolvo a Norminha.

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Shankar e a busca por Santidade – Lu Dias

Por LuDiasBH, 8 de setembro de 2009 9:00

shankar

Hoje, escolhi como personagem desta nossa conversa, um homem equilibrado, justo, humano e sábio, que todos nós gostaríamos de ter como membro de nossa família, ou como amigo ou vizinho: Shankar.

Assim como qualquer humano, o nosso personagem também possui os seus problemas, mesmo que venha travando uma luta árdua para lhes arrancar as raízes.

Shankar ainda continua extremamente frágil, no que se refere ao grande amor de sua vida: Lakshmi, apesar de toda a sabedoria que vem acumulando ao longo da vida.

O mais interessante é que, ao estudarmos a história da humanidade, podemos notar que o amor, esse sentimento sem o qual juramos morrer, nem sempre existiu.

Inicialmente, o homem confundia-se com as demais espécies de animais, em relação a seu comportamento. Era totalmente comandado pela sensação, com o instinto voltado apenas para a percepção. Não passava de um ser extremamente individualizado, de jeito que tudo girava em torno de si, para que se mantivesse vivo.

Nessa fase de sua história, quando não se encontrava atraído ou atemorizado por alguma coisa, estava voltado para a mais profunda indolência, de modo que as águas podiam correr para cima ou para baixo.

Entretanto, carregava dentro de si, ainda que em estado latente, os princípios da sociabilidade e da perfectabilidade, responsáveis pelo avanço da raça humana.

Tais sentimentos foram aflorando, na medida em que, macho e fêmea humanos começaram a desenvolver um modo de agir diferente, mais tarde chamado de amor. Sentimento esse, que passou a ser a base da vida humana, sendo capaz de transformá-la na sua essência.

Homem e mulher passaram a compartilhar muitos pontos incomuns a um e outro, quer físicos ou metafísicos, de emoções contrárias, sem os quais jamais teriam se tornado civilizados.

Ensina-nos o escritor francês de Histórias Filosóficas do Gênero Humano, Antoine Fabre d`Olivet que o instinto do homem é o de “fruir antes de possuir”, enquanto o da mulher é o de “possuir, para depois fruir”.

Shankar, como representante do sexo masculino, não recuou diante dos obstáculos que o separavam da mulher, que escolhera como companheira de jornada. Sendo capaz de enfrentar todos os contratempos, na tentativa árdua de vencê-los, uma vez que a atração que o dominava era bem superior à sua razão.

Contudo, depois de vencer as primeiras barreiras, a escolhida escapa-lhe das mãos. Pois, ela foi capaz de analisar a situação em que se metera, antes dele. E, ao se certificar de que as forças das tradições estavam além de suas possibilidades de vencer, sendo bem mais fortes do que os sentimentos que nutria por ele, enveredou-se por um caminho diferente, menos sofrido.

Muito mais lento na sua reflexão, Shankar não foi capaz de compreender o porquê de ela ter desistido de perseguir aquilo que, para ele, era a própria vida. Por que teria desistido de viver junto a ele? Que forças poderiam superar uma paixão tão intensa?

Apesar da derrota sofrida, a paixão de Shankar por Lakshmi não se transforma em ódio, o que comumente vemos acontecer. Mas, ao contrário, transfigura-se numa certa ternura, numa vontade de compreendê-la e protegê-la, ainda que, tivesse a certeza de que jamais voltaria a tocá-la.

Shankar apieda-se do amor, que jaz encurralado dentro de si, sem permitir que ele se transforme em cólera. Continua fazendo de Lakshmi a receptora de sua afeição. Ainda que, não consiga entender, o porquê de ter sido por ela abandonado.

E, nesse relacionamento conturbado, aparentemente impossível de ser vivificado, percebe-se claramente que Lakshmi é a mais rija, embora na visão das sociedades tradicionais, ainda se espera que o homem seja o mais forte, porque cabe a ele o papel de protetor.

Mesmo na não concretude de tamanha paixão, é possível perceber que existe um pacto de proteção, ainda que não combinado, entre os dois. O que significa que, o amor que os uniu no passado, ainda continua latente, bastando apenas uma fagulha para reacender.

O sentimento de proteção é a forma mais sublime do amor. Pois a afeição verdadeira protege e estimula o outro, ainda que consciente de não ter nenhuma possibilidade de retorno.

Lakshmi vê a vida como obra dos deuses, imbuída que está de suas tradições religiosas. Deixa-se levar pelo destino. Não vê possibilidade de mudança. E, por isso, torna-se amarga consigo e com os que a rodeiam, à espera de uma nova existência na Roda de Samsara. Acredita que cada um deve seguir o que lhe foi determinado pelas tradições religiosas. E que as coisas são como são.

Acha que a justiça é de origem divina, sem a necessidade de intervenção humana. E que o homem merece punição ao transgredir as tradições.

Shankar, ao contrário, acredita que o homem é quem deve fazer o seu destino, caminhando sempre na busca das mudanças, aperfeiçoando-se à medida que avança. É um idealista convicto. Crê que a realidade pode e deve ser mudada para melhor, de acordo com as ações humanas. Progressista, crê na evolução da humanidade.

Acredita que a justiça deve ser feita pelos homens. E que esses devem se libertar das tradições, quando essas lhes são nefastas.

Torna-se difícil compreender a paixão que une os dois personagens, que carregam em si, visões antagônicas sobre a vida. Daí nascem muitas indagações:

A não concretização de um relacionamento amoroso intenso tem o poder de torná-lo mais forte e duradouro?

Se os dois amantes estivessem juntos, durante muitos anos, essa afeição ardente teria resistido ao tempo?

O amor platônico pode ser mais forte do que o real, uma vez que a idealização do outro se dá numa escala bem superior, pois os defeitos ficam ocultos?

A busca pela espiritualidade, seja de que maneira for, pode curar as cicatrizes deixadas na alma, por um profundo amor, ou apenas mascara a realidade dos sentimentos?

O que é na verdade “viver um grande amor” num relacionamento a dois?

Amigo leitor, tudo não passa de meras indagações. São tantos os mistérios do amor, de maneira que existem mais perguntas de que respostas, com “n” variáveis.

Afinal de contas, não se deve questionar a paixão, apenas vivê-la, de modo que “seja eterna, enquanto dura”.

Nossos votos de que Shankar realize-se como sadhu!

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Se eu fosse a Glória Perez – Rosali Amaral

Por LuDiasBH, 8 de setembro de 2009 0:37

O blog almacarioca.net trouxe, hoje, a opinião da nossa querida leitora, Rosali Amaral, escritora talentosa, para nos dar a sua opinião de como gostaria que a novela Caminhos das Índias, já nos seus últimos capítulos, acabasse.

Assim resume ela:

1) Maya
Agiu mal em relação ao Raj, mas deve ficar com ele, pois “chumbo trocado não doi”. O relacionamento entre eles fluiu tranquilamente por Raj ser carinhoso, rico, responsável e muito charmoso.

Desiludida e decepcionada com o rumo que seu romance tomou com o intocável, não viu dificuldade em “construir um novo amor”, já que Raj representava tudo o que ela gostaria de ver em Bahuan. E esse casamento arranjado veio a calhar, para esconder uma gravidez indesejável.

2) Raj
Deveria ter seguido o seu coração e se casado com Duda. Agora, deve perdoar Maya, embora tenha sempre afirmado, que nunca perdoaria ser enganado e que ela deveria ser totalmente sincera, em qualquer circunstância.

A atitude dele, em relação à Duda, foi baseada nos valores familiares em que acreditava, onde a família e os costumes eram mais importantes do que valores sentimentais. Para nós, isso foi “cafajestagem”, mas aos olhos dos indianos, foi a única e correta atitude a ser tomada. Tanto é que, em nenhum momento, sentiu-se arrependido.

3) Bahuan
Deve terminar sozinho, pois este seu romance com a indiana é completamente sem sal, sem tempero.

Por ser um “dalit”, é questão de honra ele se tornar um homem rico e poderoso, para suplantar esta condição inferior de intocável, imposta pela tradição e costumes de seu país de origem.

O sentimento de rejeição, enraizado em sua personalidade, foi mais forte do que qualquer outro, embora ele não contasse que Maya não estivesse disposta a esperá–lo, ainda mais por tempo indeterminado.

4) Opash
Por ser um personagem muito cativante, merece um final feliz, com sua esposa e família.

6) Lakshmi
.Não deve se casar com Shankar, pois ele não merece essa cobra. Passou a novela inteira dando lições de moral, bancando a certinha. Deve pagar por isso!

7) Surya/Amitab
Após descobrir quem é realmente sua mulher, ele deveria colocar ’seu rabinho entre as pernas’ e se tornar uma pessoa melhor, menos invejosa. Enquanto ela deve pagar por todas as suas maldades.

8) Sílvia/Raul/Júlia
Raul deve deixar de ser panaca e pagar pelo que fez.
Júlia deve responder pelos seus atos e sua rebeldia.

Sílvia deve terminar com Murilo.

9) Norminha/Abel

Essa Norminha é um tremendo mau exemplo. Fala sério!

Abel deveria ser transferido para outro Estado, assim se livraria de vez  dela, que não

tendo como se sustentar, viraria uma beata, daquelas bem chatas!

10) Melissa/Ramiro
Devem ficar juntos, e ela se tornar menos fútil.

11) Ravi/Camila
Felizes para sempre.

12) Chiara
Lançaria uma grife de jóias semipreciosas, com bastante sucesso.

13) Chanti
Se tornaria uma atriz de sucesso internacional e não se casaria.
Pelo menos, não com um indiano. Talvez um ocidental.

14) Inês
Faria o maior sucesso como estilista. É a mais normal da casa.

15) Yvone

É a mais terrível e odiosa personagem da novela. Qualquer fim ruim que ela possa ter é muito pouco por tudo o que aprontou.
Mas gostaria de vê-la bem pobre, com o cabelo todo engordurado e as unhas pretas, trabalhando na residência de uma ricassa bem enjoada, bem exigente! Ou então, ficando sem alguns dentes e umas boas mechas de cabelo, numa briga, com companheiras de cela.

16) Tônia/Tarso

Ele deve se tratar, de forma que sua doença seja controlada, dando a ele condições de retomar sua brilhante atuação nos estudos e se tornar um grande escritor. Isso tudo com o apoio

e incentivo de Tônia, que continuará estudando.

17) Nanda/Aroldo

Os dois devem se reconciliar e fazer uma viagem de lua-de-mel.

18) Zeca e seus pais

O garoto deve receber uma grande lição juntamente com seus amigos baderneiros. Viraria ‘homem’ e passaria a corrigir os pais nas suas atitudes aberrantes e nocivas.

Glória Peres
Deve arranjar um jeito de esclarecer ao público, que o que mostrou na novela não tem nada a ver com a realidade dos indianos miseráveis, que é muito cruel e absurda. Que todo o glamour mostrado é só uma das faces da cultura indiana.

Abraços para todos os leitores deste blog!

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Eu absolvo Bahuan – Lu Dias

Por LuDiasBH, 7 de setembro de 2009 16:33

bahuan

Ao chegar ao final da novela Caminhos das Índias, fecho a minha participação sobre o tema, escrevendo sobre os personagens, que mais chamaram a minha atenção.

Bahuan, personagem vivida por Márcio Garcia, encabeça a minha listagem. Vejamos se conseguirei repassar a meus queridos leitores, meus sentimentos em relação a ele.

Eu me pergunto, até onde podemos culpabilizar o rapaz, pela maneira com que passou a ver, sentir e direcionar a sua vida, após a tragédia acontecida com sua família, quando ainda era uma criança?

Que marcas podem ser retiradas de nossa personalidade, de nossa alma e quais outras permanecem indeléveis?

Não deve ser fácil para criança alguma, no desabrochar de seus conceitos sobre o mundo que a cerca, descobrir a ferro e fogo, que algumas pessoas são infinitamente superiores a outras, dentro do conceito social e religioso, onde se encontra.

Ao ser capaz de trabalhar com possibilidades e objetivos, o jovem compreende que nunca haverá equanimidade em sua vida, pois as condições sociais pré-estabelecidas pela sociedade em que vive, são imutáveis. De modo que as injustiças milenares jamais serão reparadas.

Compreende, também, de que nada lhe adianta ter potencialidades, pois jamais haverá oportunidade para colocá-las em prática, de jeito que nunca poderá delas tirar vantagens.

Toma consciência de que, faça o que fizer, as desigualdades de tratamento entre certas pessoas persistirão, em nome de um tradição religiosa equivocada e egoísta, existente em seu país.

Ao ser adotado por um homem culto, da mais importante casta, com uma visão humanística do que seja a presença do homem no mundo, Bahuan, necessariamente, deveria pensar e agir de modo diferente?

Penso que não! Pois, tudo vai depender da profundidade de suas cicatrizes.

Muitas vezes, a revolta latente não permite ao aprendiz subordinar seus pensamentos ao do mestre. Mesmo que nele acredite e confie plenamente.

A complexidade de tais questões foge à racionalidade humana, pois nem sempre compreender é aceitar.

Sabemos que a mente humana é por demais complexa. E, que algumas são bem mais complexas de que outras. Tanto é que, muitas vezes, nós nos assustamos com o modo como agimos em determinadas situações.

Mesmo que o pai adotivo, Shankar, tenha dado a Bahuan todas as oportunidades possíveis, para que o filho se livrasse das lembranças de seu passado repulsivo, tal mudança só existiria de fato, a partir do momento em que o rapaz tivesse autonomia racional, para aceitar ou não, o que lhe ensinara o pai. E, amadurecimento demanda tempo, muitas vezes, demanda experiências amargas.

Ter sido criado por um brâmane não foi o suficiente, para que o menino dalit, que viu sua casa ser queimada com sua família dentro, não se rebelasse contra o estigma de sua origem.

Ao contrário, penso que o saber, que lhe foi repassado pelo mestre e pai adotivo, tenha lhe aberto com mais força as comportas do seu entendimento e de sua busca por justiça. Pois o saber é contestador, enquanto a ignorância é permissiva e acomodada, podendo ser facilmente controlada, quer pelo medo, quer pela lavagem cerebral.

Acredito que o amor próprio de Bahuan tenha ganhado vida, ao conviver com a sabedoria e as ideias libertárias de Shankar, que não admite que um homem possa ser inferior a outro, a partir de seu nascedouro e ao longo da vida, sem uma causa muito justa.

Sendo tal ensinamento o responsável por ter lhe tirado a trave da sujeição a que está submetida a sua casta de intocáveis, levando-o, a compreender a posição social e moral que lhe é de direito, como cidadão, dentro da sociedade em que se insere.

Apesar de todas as pesquisas feitas, não pude compreender como a sociedade hinduísta pode esperar que suas crianças mimadas (pertencentes às castas altas) e as reprimidas (pertencentes às castas miseráveis) possam se transformar em adultos decentes, comprometidos com o futuro do país. A tendência é de que, todas elas, venham a se transformar em adultos monstruosos, sem qualquer equilíbrio.

Não me atenho aqui, apenas ao comportamento impulsivo, ávido de poder e cheio de falhas emocionais de Bahuan, mas tento, também, levantar questionamentos capazes de nos levar a uma reflexão mais humanística.

Teria sido insuficiente a educação dada por Shankar a Bahuan?

Está claro que não, pelo próprio comportamento do pai.

Educar pressupõe mudança de comportamento. E, se olharmos com mais indulgência para o filho, veremos que os ensinamentos, que lhe foram repassados, tiveram grande impacto em sua vida. Transformaram-no!

É fato, que não se pode negar, que Bahuan deseja subir na vida, ter poder, sair do anonimato. Assim como não se pode negar, que ele é um moço dinâmico, batalhador, inteligente e justo nos seus negócios.

Sem os ensinamentos de Shankar, Bahuan poderia ter se transformado num ladrão ou assassino, da pior laia.

Apesar das transformações sofridas, Bahuan ainda não conseguiu domar sua vontade de se vingar da sociedade, que dizimou sua família e o expeliu de seu seio.

Bahuan ainda é imaturo, atormentado e muito frágil. Como diríamos nas Gerais:

“Ainda não se encontrou!”.

Portanto, eu o absolvo!

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Ramiro, um machão abestado – Ana Lucia Timotheo da Costa

Por Ana Lucia Timotheo da Costa, 7 de setembro de 2009 6:00

A nossa crítica Ana Lúcio Timotheo foi curta na análise que faz sobre o final da novela Caminhos das Índias. Com ela, não tem essa de dourar a pílula. É vapt-vupt!

Vejamos o fim que escolheria:

1 – Acho justo que Maya e Raj fiquem juntos, porque foram capazes de construir a relação e isto faz com que a mesma dê certo.

2 – Duda é muito deslumbrada. Deveria amadurecer para cuidar do filho. Sua relação com o Luca não deverá ir adiante, pois ambos são imaturos.  

3 – Melissa e o Tarso merecem tratamento, porque ela tem um quê de esquizofrênica. Haja vista os momentos em que se enrosca nos sofás da vida: posição semelhante à do filho.

4 – Ramiro deve ficar com a Melissa porque todo machão é abestado em potencial e merece pagar pelas futilidades da mulher.

5 – Lakshmi deveria arder no fogo da pira, pois errou como Maya e ainda tem a audácia de julgá-la. A “naja-mor” deveria ser desmascarada. Como julgar os outros se tem telhado de vidro?

6 – Os pais perversos do Zeca precisam aprender a ser gente, sendo castigados.  

7 – Norminha e Abel podem até ficar juntos, porque todo castigo para corno é pouco.

8- Dr. Castanho deverá estar com o casamento com os dias contados, pois há muito desequilíbrio na relação.

9- Os asquerosos Mike e Yvone, a dupla maldita, deveria ver o sol nascer quadrado.

10- A Surya deveria deixar a barriga cair na frente de todos, para não mais acusarem a “firangue” estrangeira Camila.

11- A ImbeSilvia deveria “sofrer” bem, para deixar de ser abestada.

12- Radesh e toda a sua corja deveriam prestar serviço social.

13- A Cobra de Jaleco deveria casar com o Fasano – ê dupla bonita.

14- Kiara deveria tomar juízo e não mergulhar, de cabeça, em relações desconhecidas. 

15- Tônia precisa “trabalhar” a culpa de deixar o namorado e partir para outro relacionamento sadio.  

16- Dayse se quer ser indiana de verdade, que vá estudar a cultura daquela gente.  

17- Pudja tem que ser aclamada com pompa e circunstância. Seu neto, sonhador (e brilhante ator mirim), merece um lugar ao sol, assim como os outros párias.

18- Indra merece se acertar com a filha de Opash, pois pensam do mesmo jeito e já está mais do que na hora dele sair da barra da saia da mãe e da tia.

19- Ademir, apesar das suas limitações, deverá realizar algo, para servir de exemplo para tanta gente excluída.

20- Gopal merece ficar com o dinheiro do Raul. Ninguém trabalha de graça, afinal. Vale pela sua lealdade. Quanto à sua mulher, Durga, ele deveria lhe dar um chute, porque não presta, é uma discípula de Surya.

21- Final feliz para Raul?
Negativo!
A não ser que fosse o Vadinho, de Dona Flor. Neste caso até concordaria.

Abraços para todos os leitores deste blog!

 

 

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