Category: Mulheres - Sonia Quartin

I – Pesadelo ou o quê – Sonia Quartin

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Por Sonia Quartin, 1 de abril de 2009 18:05

Acordou com uma sensação muito estranha. Parecia que estivera em algum lugar, mas não sabia onde. Estava vestida com roupas de sair: nunca dormia assim! Um gosto de guarda-chuva na boca e a cabeça pesando como chumbo. Tentou se virar na cama: tinha cama bem larga que lhe permitia rolar a vontade. Mas, alguma coisa a impedia de se mexer. Surpresa olhou para o lado direito. Alguém dormindo em sua cama! Um homem em sua cama! Inteiramente nu! Meu Deus! Assustada tentou se recostar, firmando nos cotovelos, para ver o rosto dele. Inútil! Estava virado para o outro lado o que impedia de lhe contemplar a face. Mas, mas essa não era a sua cama!!! Sentou, ainda tonta. Olhou em torno. Esse, sem dúvida, também não era o seu quarto!!! Tentou se lembrar o que tinha acontecido: inútil. A mente parecia vazia. Levantou-se cambaleando, procurando o banheiro. Uma porta entreaberta deixava ver o vaso sanitário. Um banheiro, que não era, certamente, o seu. Olhou-se no espelho: tinha confete nos cabelos, o batom todo borrado, um brinco esquisito na orelha esquerda… Era Reveillon? Não, não era ainda! Estamos em setembro, tenho certeza! Lavou o rosto, e tentou dar uma aparência melhor ao seu visual. Ajeitou os cabelos com um pente meio quebrado que achou na pia. Voltou ao quarto, procurando os sapatos. Não achou. O tal homem roncava como um porco. Saiu do quarto cheia de receio. Onde estava? Era, sem dúvida, um desses pesadelos que a gente tem e não pode acordar. Na sala, algumas pessoas dormiam sobre o tapete, um homem no sofá sem a camisa… Todos desconhecidos, aparentando mais de trinta. Copos e garrafas por todo lado. Pontas de cigarros, também. Uma cueca pendurada no lustre. Tentou se controlar do pânico que começava a sentir. Calma! Tudo isso deve ter uma explicação! Passos vindos do corredor: um homem surgiu na sala com um copo da mão.

— Veroca! Enfim alguém acordou! O “seu gostoso,” como está?

— Não sou Veroca e não tenho a mínima idéia de quem é o “seu gostoso”.

— “Seu gostoso” – dizendo isso apontava o dedo indicador para ela, acentuando a palavra “gostoso”

— Você apresentou ele assim: “ Esse é o meu gostoso!”

— Você deve estar me confundindo. Não ia nunca apresentar alguém assim: Meu gostoso! Eu não sou Veroca! Me chamo Marina! E não tenho “gostoso” nenhum!

— Depois que ele fez aquele strip tease total e caiu duro no meio da sala, levamos para o quarto. Você não viu? Chiii! Veroca, você estava ruim mesmo! Não lembra nem do show do seu gostoso? O ponto alto da noite! Veroca, ontem, hein? Aquele fank foi demais!!! Dança bem, garota!!!

— Não sei do que você está falando! Conversa de doido! De quem é esse apartamento?

— Se não é o seu, só pode ser da Irene!

— Quem é Irene?

— Irene, sua amigona! Lembra? Você dizia: minha amigona Irene! E caiam no samba! Mas, depois de todas que você bebeu… Refrescando sua memória: Irene é aquela de blusa vermelha, dormindo no chão.

— Com MINHA BLUSA? Agora, já estava gritando totalmente descontrolada. Respirou fundo, pensando: “Calma! Calma”. Era um pesadelo e ia acordar! Percebeu, então, estar vestindo uma camisa social masculina. Como? Por quê? De quem? Sua blusa em uma desconhecida! E aquele homem nu lá no quarto… Strip tease?

— Por favor, me diz como cheguei aqui, onde estou e quem são vocês?

— Bem. Por parte: só conheço a Irene, amiga de graaaandes farras! Os outros são seus amigos. Não conheço e nem sei quantos. Dormindo no outro quarto. Não tenho certeza, mas acho que estamos em São Conrado, ou Barra… Não sei. Ainda assim, sou o que ficou melhor. Chegamos no seu carro, isso eu me lembro! Belo carro! Importado! Dirige bem, garota! Com tudo o que bebeu… O guarda queria nos parar, mas você foi mais esperta e…

— MEU CARRO!!!!! Não dirijo faz anos e não tenho carro nenhum! Deus! Isso não estava acontecendo! E aquele negócio de “bebeu todas?” Não bebia nunca!

— Você veio dirigindo do “Bico Doce” até aqui! Você, seu gostoso, eu e a Irene no seu carro. Nos outros carros… Não sei.

— “Bico doce” o que é isso?

— Veroca!!! Que porre, hem, amiga! “Bico doce”, aquele barzinho na Lapa, lembra? Roda de samba! Mas, você é boa mesmo é no fank, gata! Que pandeiro! Que ritmo, gata!

Agora, estava em pânico! Ela, num bar da Lapa, bebendo, roda de samba, com uma turma da pesada… Desconhecida… Agora num apartamento em algum lugar, para onde veio dirigindo um carro importado de alguém… E de porre? Nunca tinha ficado de porre! Não podia ser verdade! Não era ela! Não! Não era! Estava tendo um baita pesadelo!

— Veroca! Você não está bem! Quer um antiácido? Quer vomitar?

Queria é acabar logo com tudo isso! Voltou ao quarto à procura dos sapatos e da bolsa. Entrou de novo no banheiro: uma mulher que tomava banho, abriu a porta do box e espiou:

— Há! É você Veroca! Me alcança a toalha? Marina lhe entregou a toalha sem protestar. Veroca! Veroca! Com alívio, encontrou sua bolsa pendurada no porta – toalha. Conferiu: documentos, carteira, chaves… Tudo lá! Graças a Deus! No celular, um recado aflito de sua irmã, Cris: “Marina! Onde você está? Seu celular cai sempre na caixa postal! Procuramos você na sua casa, mas o porteiro não te vê desde ontem pela manhã. Estamos todos preocupados. Você ficou de trazer o bolo da Bel. Por favor, me liga!”

Sim! Disso se lembrava: ia fazer um bolo para Bel, sua afilhada, mas faltavam ovos e saiu para comprar. Mas… e depois? O que aconteceu depois? A cabeça vazia de todo. Voltou à sala. No corredor, achou um par de sandálias de alguém: calçou, agradecendo a Deus ter servido no seu pé. O tal homem junto à janela ainda bebia, distraído.

— Veroca! Estive pensando, quando a turma toda acordar, a gente podia… Veroca!!! Aonde você vai? Você não esta em condição de dirigir! Veroca!!!! Vero…

Desceu correndo pelas escadas. Na rua, reconheceu o bairro: Leblon! Morava em Vila Isabel! Tomou, aliviada, o primeiro táxi que apareceu. Em casa, telefonou para Cris se justificando: tinha tomado um remédio muito forte e apagara. Agora já era domingo, cinco horas da tarde. O que fizera desde a manhã de sábado? Talvez nunca viesse a saber. Depois de um banho demorado, se meteu entre os lençóis, pensando:

“Não conto essa história nem pro meu analista! Senão, me internam!”

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II – Difícil decisão – Sonia Quartin

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Por Sonia Quartin, 1 de abril de 2009 18:04

Faltavam cinco dias para o casamento. As amigas até já tinham promovido o “chá de panelas”. Só faltou a dinda Marina com o bolo. Só cinco dias! Isabel estava em pânico! Marcelo sempre fora um homem apaixonado, mas equilibrado. Desde os primeiros dias de namoro, tinha falado que não estava passando tempo: queria casar! Isabel estranhou a pressa. Esmola demais…

Não estava apaixonada por Marcelo. Não! Tinha se apaixonado por Gilberto, aos quinze anos e foi arrasador. Ele só queria uma aventura e nada mais. Oito anos mais velho, a tratava como uma criança mimada. Achando interessante a relação com alguém assim, virgem ainda. Conheceram-se na festa de quinze anos de uma amiguinha. Ele, do interior, mas escolado, parente da aniversariante, estudando no Rio. Ficou louca de paixão. Com Gilberto conheceu o sexo e os motéis, deixando em seu diário de adolescente, páginas e páginas de confissões de amor eterno, envolvidas em corações contendo “Gilberto,” “Gilberto”… No auge da paixão, ele foi embora sem despedidas. Onde morava, o porteiro só informou ter viajado para sua terra. Não! Não sabia se voltaria. Escreveu várias carta cheias de saudades, exigindo explicação. Passaram-se semanas. Nada de notícias. Pensou, então, em se matar! Gilberto leria pelo jornal a sua morte e se mataria, também, de remorso. Não teve coragem: sua juventude falou mais alto. Dias trancada no quarto, em lágrimas. Estudos esquecidos… Ano escolar perdido… Mas, veio o verão, o calor, os dias de sol, a turminha chamando para a praia… Rasgou o diário e voltou a viver. Gilberto ficou no passado. Bem guardadinho em seu coração.

Apareceram, então, as paquerinhas, começadas e terminadas nas praias ou nas festinhas. Todas sem importância. Todas esquecidas no dia seguinte. Pensava em Gilberto, quando voltasse queria estar descompromissada. Assim, não deixava o caso ficar mais sério, nem se permitia amar de novo. Ele, um dia voltaria!

Dedicou-se ao pré-vestibular com afinco. Passou a freqüentar a biblioteca pública durante as tardes. Conheceu então Augusto, que encontrava sempre lá, envolvido em livros antigos. Ficou encantada! Era um intelectual! Sabia tudo! Ensinava para ela os pontos mais complicados com uma facilidade extrema, e um sorriso no rosto que a derretia. Profundo conhecedor de filosofia. Foi um amor platônico. Augusto jamais soube que Isabel morria por ele. Na saída procurava sempre Augusto com o pretexto de uma explicação. Solícito, ele nunca negava. Um dia Augusto também sumiu da biblioteca e Isabel perdeu seu amor platônico, jurando não mais amar.

Alguns anos se passaram. Na verdade, Isabel procurou esquecer seus dois amores e se dedicar aos estudos. Mas, de vez em quando, seus pensamentos voltavam, ora para Gilberto, ora para Augusto. Com Gilberto, conhecera o sexo, o toque de pele, a paixão. Com Augusto, o amor platônico feito de olhares, de pequenos cuidados. Então, balançava a cabeça tentando afastar os pensamentos. Não queria mais “perder tempo com homens”, como dizia.

Mas, quando estava terminando a faculdade, conheceu Marcelo: irmão de uma nova amiga. Ele ficou encantado! Marcelo era engenheiro civil, com escritório já montado e clientela certa. Namoro relâmpago, noivado e data do casamento marcada. Tudo rápido, como um filme ou uma novela. Incentivado pela amiga, irmã do noivo e, claro, por sua mãe.

Agora faltavam cinco dias! Isabel cheia de dúvidas! Será que amava Marcelo? Tirou o vestido de noiva que estava experimentando e saiu para a rua deixando a modista falando sozinha. Tinha que andar! Precisava por as idéias em ordem.

Entrou numa igreja quase sem perceber. Um jovem padre, ainda em paramentos da missa, rezava ajoelhado no primeiro banco. Alguma coisa parecia familiar. Augusto! Augusto? Era ele? Sim! Augusto agora era padre! Conversaram em voz baixa ali na penumbra daquela igreja. Sim! Quando se conheceram ele já estava seguro de sua vocação! Desde menino, sempre quis ser padre! Cursava o Seminário! Estudava Teologia na biblioteca. Só uma vez vacilara. Dizendo isso, olhou para Isabel e sorriu. Foi uma prova! Concluiu. Despediram-se em silêncio, respeitosamente.

Na rua, ainda tonta, Isabel esbarrou em alguém. – Bel! É você Bel? – Só os muito íntimos a tratavam assim- Não está me reconhecendo? Gilberto! Você é a mesma! Não! Está mais bonita! Quanto tempo!

Não! Não podia reconhecer aquele homem que estava em sua frente: gordo, suado, roupas surradas… Não parecia ser o homem que ela pensava ter amado! Só a voz e o sorriso eram os mesmos. Tinha casado. Quatro filhos. Representante de um laboratório, visitando a praça. Gilberto a abraçou com intimidade, beijando-a na face. Entregou seu cartão, dizendo: “Quando quiser vai conhecer a minha terra. Joana adora receber visitas! Vai casar? Então, se quiser passar a lua de mel”…

No caminho da praia, sentiu o cheiro forte de maresia penetrando em suas narinas. Um vento leve desarrumou seus cabelos. O seu passado tinha lhe feito uma visita. Não sabia se queria se casar, mas estava liberta! Tinha ainda cinco dias para resolver. Tirou os sapatos e mergulhou no mar.

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III – Uma nova chance – Sonia Quartin

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Por Sonia Quartin, 1 de abril de 2009 18:03

Isabel mergulhou no mar para esfriar a cabeça. Sentia a leveza de quem sai de uma prisão: a prisão do passado que, de há muito, lhe atormentava. Quando retornou do mergulho, percebeu que alguém, mais ao fundo, se debatia. Deus! Estavam se afogando! Avaliou sua capacidade num segundo: não sabia nadar o suficiente para tentar um salvamento. Procurou em torno quem pudesse fazer isso, mas a praia estava deserta. Por instantes a cabeça do afogado desapareceu, engolida pelas ondas. Segundos depois surgiu novamente. Agora parecia que a pessoa não se defendia mais. Alguém desejava mesmo morrer! Ficou em pânico!

Não podia permitir que um ser humano pusesse fim à vida bem diante de seus olhos! Tinha que fazer alguma coisa e rápido! E as aulas de primeiros socorros que recebera? Sim! “Como se salvar de afogamento e como salvar alguém de morrer afogado”. Tentava se lembrar do manual. Intimamente pedia a Deus para fazer tudo direitinho. Sem muito pensar no que estava fazendo, começou a nadar em braçadas ligeiras e cadenciadas, procurando manter a calma e se aproximar do afogado. Não saberia dizer quanto tempo nadou, mas de repente sentiu que tocava em alguma coisa. Estendeu a mão e agarrou alguém pelos cabelos. Puxou o corpo para fora da água. Procurou passar o braço em torno do corpo inerte do afogado e prendê-lo junto a si bem firme. Viu, então, que se tratava de uma mulher. Desfalecida ou morta? Não tinha tempo para investigar. Agora, agarrada àquela estranha carga, recomeçou sua luta contra a força das ondas bravias, tentando chegar à praia. A mulher pesava muito. Isabel nadava e rezava, rezava e nadava. A necessidade do momento lhe dava uma força que não tinha. Para Isabel parecia estar nadando sempre no mesmo lugar. No entanto, de repente seus pés tocaram o fundo do mar. Completamente exausta, buscando suas últimas energias, conseguiu finalmente arrastá-la até arrebentação e, sem perda de tempo, passou a fazer respiração boca a boca, alternando com massagens cardíacas, tal como aprendera nas aulas. E gritava, quase em delírio: Reage! Reage! Reage, mulher! Por favor, meu Deus, faça com que ela reaja! Que não tenha sido tarde! Súbito, a tosse… a golfada e… Estava voltando à vida! Isabel continuou pondo em prática o que aprendera nas aulas de primeiros socorros como se ouvisse ainda a voz do professor: faça isso, faça aquilo! Algum tempo depois, mais um longo suspiro e a mulher abriu os olhos. Salva! Graças a Deus!

— Queria morrer, maluca? – seu grito era misto de alívio e de revolta.

— Sim queria! Por que me salvou? — respondeu a afogada quase num sussurro.

— Suicídio é um ato de covardia! Sabe disso? Hein? Sabe disso?

Essas palavras deram força à mulher que perguntou no mesmo tom:

— E você? Quem é você pra me julgar? O que sabe você de mim?

— Sou alguém que arriscou a própria vida para te salvar!

— E eu te pedi isso? Você fez porque quis! E fez uma coisa errada! Se está esperando que eu te agradeça, está enganada!

Lado a lado deitadas na areia fria, a beira do mar, por muito tempo guardaram silêncio. Tão perto da morte, respeitosamente, ambas repensavam suas vidas. Um vento gelado despertou Isabel de seus pensamentos. Sem se virar, tocando a mão da afogada, falou com doçura e firmeza:

— Precisamos nos trocar e de uma bebida quente. Já está anoitecendo. Vem comigo e me conte a sua história. Como se chama?

— Helena. E você?

— Isabel. Mas me chame de Bel!

Algum tempo depois, roupas secas e tomando uma boa xícara de chocolate, Helena expôs seu drama: uma história comum que, de certo modo, acontece todos os dias. Única para quem a está vivendo: Menina de classe média, seu sonho era ser médica.

— Muito bem! — disse seu pai. — Pediatra, naturalmente!

— Não, pai! Quero ser neurocirurgiã! É meu sonho!

Via-se operando as pessoas, salvando vidas. Sabia que era essa a sua vocação! Nascera para tal! Contra a vontade dos seus pais, prestou vestibular com esse propósito. “Neurocirurgiã, imagina! Talvez nem saiba direito o que é!”, seu pai dizia. Passou entre os primeiros lugares para uma ótima faculdade. Mas, no fim do ano, conheceu Rogério: médico recém formado, com um promissor futuro. Apaixonado por um campo que mal começava então: genética! Da parte de Helena, principalmente, foi uma paixão fulminante, avassaladora! Casaram em poucos meses. Continuaria os estudos depois de casada, pensou. Então, seu marido, Dr.Rogério Pontes, foi convidado a fazer um curso de especialização na Inglaterra. Helena, grávida, trancou matrícula para acompanhá-lo. A partir desse dia, não mais Helena, a futura neurocirurgiã! Brilhante aluna! Era tão somente a “senhora do Dr.Rogério Pontes”. Enquanto o grande médico e cientista subia na profissão, Helena virava uma dona de casa frustrada e mãe ausente. Não nascera para ser sombra, mas para brilhar. No entanto, seu marido também nascera para brilhar! E não havia lugar para duas estrelas!

— Três filhos: Silvia bipolar agora internada na clínica da Dra. Lídia Fonseca, psiquiatra. Parece que fez até um aborto, esconderam de mim. O Carlos Henrique (Carlão, como todos chamam) saindo do segundo casamento. Minhas noras? Duas loucas! Dedo podre para escolher mulher! Edu, o meu caçula, que parecia o mais equilibrado, caiu de amores por uma “senhora” muito mais velha que ele. Foi morar com ela e nem responde aos meus telefonemas. Não sei se ainda está na faculdade. Agora Rogério me pediu divórcio! Por e-mail! Pode? Depois de toda a minha renúncia! Meus sonhos frustrados! Minha dedicação! Desconfiei quando ele foi para a Europa com a secretária me dizendo que eu não precisava acompanhá-lo! Período longo avisou! Com a Dra. Taís! Estão de caso! Tenho certeza! E você sabe quem é a Dra. Taís, a tal secretária? A melhor amiga de Silvia, minha filha! Da idade dela! Colegas de escola desde o primeiro grau! Secretária do meu marido! É Dra. Taís pra cá, é Dra. Taís pra lá… Pediu divórcio por e-mail! Da Europa! E eu? Como fico? Já não tenho mais ânimo para recomeçar de onde parei!

— E por que não? Você ainda é jovem! E por que não?

— Você acha? Voltar pra faculdade?

— Veja eu! Ia me casar daqui a cinco dias!

— E não vai mais?

— Não! Vou desmanchar o compromisso! Sem amor… Ainda não sei o que vou fazer. Só sei que, por hora, não quero me casar. Vou jogar tudo pro alto! Noivo, Igreja, vestido de noiva, recepção, lua de mel… Tudo! Não quero mais! Quanto a você, desculpe se estou me metendo em sua vida, mas o que fiz me dá esse direito. Seu casamento já acabou! Deixe seu marido e seus filhos viverem a vida deles! Volte para a faculdade! A medicina te espera! Os pacientes também! Dê uma nova chance pra você! Siga seu sonho, mulher!

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IV – Dois destinos, dois caminhos – Sonia Quartin

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Por Sonia Quartin, 1 de abril de 2009 18:02

- Lídia! Sou eu de novo! Então, como nós combinamos, você fica responsável pela Silvia. Bela herança companheira! Como você me aconselhou, deixo a Silvia em suas mãos. Um grande desafio para uma psiquiatra, não? Daria uma bela tese! Meu avião parte às nove. Mais uma vez, obrigada! Quando puder, te dou notícias. Não te digo pra onde vou. Você vai, mesmo, saber pelos jornais. Mas veja bem: a Silvia não pode descobrir! Conto com você! Beijos! Valeu, amiga! Desligou. Um certo remorso roia seu coração. “Não! Não! – pensou – Fiz o que pude por ela! Fiz mais do que seria humanamente possível fazer. Sempre fiz! Agora, depois do que ela me aprontou, não dá mais!”

Carregava Silvia como uma cruz, por todos aqueles anos, desde o colégio. Primeiro, Silvia e suas trapalhadas escolares. Depois seus casos de amor complicados. Só se interessava por quem não prestava. Taís resolvendo tudo para ela: as pequenas e grandes encrencas em que sempre se metia. Era rotina buscá-la em delegacia porque dirigia em alta velocidade ou esquecia os documentos em casa. Pagar suas contas, seus cartões de crédito, para ela não cair no SPC; eternamente desempregada, porque não aturava o chefe, ou não obedecia a horários, ou faltava ou…

Entre Silvia e Taís havia muito mais que uma amizade: cumplicidade. Mas eram tão diferentes! Taís, responsável e ponderada, médica ginecologista conhecida por sua competência, agora assistente de um médico famoso por suas pesquisas no campo da genética. Silvia, bipolar, não concluíra o segundo grau, se submetendo a subempregos, nos quais não permanecia por mais de uns poucos dias.

- Taís! Preciso de você! Estou mal, amiga! Levei o fora do Geraldo! Vem pra cá? Estou no fim! Só você pode me ajudar!

-Silvia! Silvia! Geraldo de novo! Amiga, ele não presta! Sai fora! Estou estudando, você sabe, preciso estudar muito. Já são onze horas! Amanhã tenho que trabalhar muito cedo!

- Ta bem. Então, vou pra sua casa. Não posso ficar sozinha. Estou deprimida. Se não fosse você…

Conselhos, não adiantavam. Noites perdidas conversando com ela. Jurava não procurar mais o traste. Melhor: quando Geraldo tentasse voltar, ela não o aceitaria mais. Porém, era ele telefonar, saía correndo ao seu encontro, cheia de esperança – ele jurou que tinha mudado! Agora seria diferente! Tinha deixado as drogas! Era outro homem! – Sentiu em sua voz!

Felizmente Silvia não caíra nessa das drogas. Mas Taís tinha medo que isso pudesse acontecer! Ainda não tinha chegado a isso, felizmente! Mas veio aquela noite. Foi a gota d’água. Taís tinha ido a uma festinha de comemoração ao prêmio recebido por seu chefe. Ao voltar, encontrou Silvia deitada na soleira de sua porta. Pálida como um cadáver, quase desfalecida. – Me ajuda, amiga? Fiz uma besteira!

- O QUÊ? Tenho até medo de perguntar!

- Fiz um aborto! Me garantiram que não tinha perigo. Mas estou mal. Acho que vou morrer. Me ajuda?

Taís pensou: ela, ginecologista assistente de um médico famoso que está recebendo prêmio, entrevistas em todos os jornais… Agora convidado a dar palestras no exterior… Tinha até chamado para lhe acompanhar. Ficara de dar resposta. Meu Deus! O que vou fazer? Levar Silvia para um hospital? Logo veriam tratar-se de um aborto. A imprensa publicando: “Dra.Taís, assistente de doutor Rogério Pontes, traz ao hospital amiga que fez aborto!” Comentariam por baixo dos panos: seria eu a responsável? Ao menos ficaria a dúvida. A carreira pela qual tanto lutara indo por água abaixo. Meu nome…. Meu emprego… Meu futuro… Mas… e Silvia? Abandoná-la à própria sorte? Só tinha ela! Família do interior. Sua cabeça rodava. Levou a amiga para dentro. Ali é que não podia ficar: chamaria atenção dos vizinhos. Calma! Calma! – pensou – Quem poderia ajudar? Lídia! Sim! Amiga de ambas, ela conhecia bem o “meu problema”.

Com efeito, Lídia com a cabeça mais fresca, levou Silvia para o hospital de um amigo, num subúrbio distante. Lá ficou até se restabelecer. Depois foi transferida para uma clínica psiquiátrica onde faria um tratamento de desequilíbrio emocional, sob a responsabilidade de Lídia.

Taís, depois dos últimos acontecimentos, tomou a decisão mais difícil de sua vida: seguiria na equipe! Chegara à conclusão de que aquela amizade estava fazendo mal às duas. Sua super proteção tinha impedido Silvia de crescer, de amadurecer, de ser responsável por sua vida. Taís, sempre resolvendo seus problemas, a mãezona. Mas ela, Taís, também perdera muita coisa por causa de Silvia: amores, amigos e amigas… Passeios que deixara de ir, cursos que perdera para dar assistência à “pobrezinha”… Noites de estudo que não fizera para lhe paparicar…

Lídia, muitas vezes tinha tentado mostrar isso que agora, só agora, conseguia compreender. Precisava partir! Para o bem de ambas! Longe talvez… Talvez por longos anos… O tempo diria.

Apagou a agenda do celular e deu ao filho do zelador. Vida nova! Um dia talvez voltasse, talvez não. Quem sabe do futuro?

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V – Encontro com o passado – Sonia Quartin

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Por Sonia Quartin, 1 de abril de 2009 18:01

A galerinha era grande. Formada desde os tempos do colégio e fortalecida nas férias quando se encontravam todo dia: juntos na praia, para o cineminha ou nas festinhas de sábado. No meio dessa turma animada, reinava Bia. Não era a mais bonita. Roberta sim, loura com seus grandes olhos azuis, era linda. No entanto, sempre discriminada pelas garotas, que a julgavam orgulhosa e metida. Mas Bia era diferente. Tinha aquilo que podemos chamar de um encanto especial. Uma luz que não significava somente beleza exterior: era algo que vinha de dentro. Sabia cativar, dando atenção a cada um como se fosse especial e todos adoravam Bia, embora Fernanda fizesse muito sucesso por ser mais extrovertida. As meninas disputavam quem seria a melhor amiga de Bia e os garotos tentavam namorá-la sem sucesso. Bia distante fingia não perceber suas tentativas. Quando pressionada, dizia ao pobre rapaz que gostava muito dele sim, mas só como amigo. Intimamente via defeito em todos. Carlão só tinha tamanho, muito bobão, só falando de futebol. Renato, baixinho, da sua altura, como poderia usar saltos? Albertinho, esse era gordo!!! Alfredo, então! Com aqueles óculos de fundo de garrafa? E Marcos? Bonito sim, mas metido a galã! E assim o tempo passou. Nem um namoradinho siquer. Bia afastava todos parecendo não se importar. Na época da faculdade foi estudar no interior, partindo toda feliz, para realizar seu sonho: ser advogada. Muito choro e promessa de escrever sempre. Computadores, e-mail, ainda não existiam. Com o tempo essa promessa foi esquecida. Agora, formada em Direito tendo, por alguns anos, exercido sua profissão na cidadezinha onde havia estudado, estava de volta. Pensava procurar logo sua turminha, mas… Falta de tempo? Ou coragem de remexer no passado? Dava sempre uma desculpa para adiar o momento.

Ao sair do fórum, certa tarde, ouviu uma vozinha que lhe pareceu familiar chamando: “Bia! Bia!” Voltou-se e deu de cara com Fernanda, gloriosamente grávida. Caíram nos braços uma da outra. Fernanda então arrastou-a para um banco da pracinha a poucos passos de onde estavam.

— Fernanda, você está linda. Quantos meses? Seis?

— Sete! Esse é meu temporão pra fechar. Já tenho dois quase adolescentes! Adivinha com quem me casei! Com Renato.

Bia pensou: Renato? O baixinho? Fernanda com toda aquela altura!

Fernanda riu: — Surpresa? Pois nós nos amamos muito. Ele é o homem de minha vida! Acho que tirei a sorte grande!

— E… os outros? O… O… Carlão… Alberto… Martinha… Roberta… Analu…

— Carlão já está saindo do segundo casamento. Mas nenhuma das duas é da turma. O Alberto está trabalhando na Bahia. Emagreceu! Está um gato! Você não vai reconhecer! Noivo de uma baiana. De férias no Rio. A Marta fez um curso de teatro experimental, qualquer coisa assim… Sei lá. Não sei direito. Quase não aparece mais. Analu, a esquisita, não sei… Mas você deve saber, era a única que se relacionava com ela. Marcos? Depois de adulto fez a sua opção: agora é gay. Roberta continua linda, mas não casou como você. Diz que também fez opção. É psicóloga. O João… Sabe aquela mania de fotografia dele? Tem um estúdio, até faz exposições. Já recebeu prêmios com isso.

— Casado? – Bia perguntou fingindo indiferença.

— Não! Diz que espera por alguém especial. Ainda agora está aí pelo mundo em busca de fotos para sua nova exposição. Chega no sábado e estamos, eu e Renato, programando uma festa surpresa para ele. Toda turma vai aparecer. Quase toda! Conto com você! Vou te dar meu endereço. Remexeu na bolsa a procura de um cartão.

João! João foi o único que nunca tentou namora-la. Ficava assim de longe olhando disfarçadamente. Quando seus olhos por acaso se encontravam, desviava. João mexia com ela. Sempre solitário com sua máquina fotográfica. Nunca namorou ninguém.

Enfim chegou a noite da despedida. Bia já havia dançado com todos. Menos com João. Mas de repente tocou uma música romântica. João se aproximou, como se estivesse apenas esperando por aquele momento e levou-a até o meio do salão. Dançaram muito juntos em silêncio. Como nunca haviam feito. Pela primeira vez, Bia sentia uma emoção diferente. Coração acelerado. O tempo havia parado. Os outros não existiam mais. Apenas os dois e aquela música suave. Ao som do último acorde, ele se afastou. Sem uma palavra. Foi a sua despedida. Sumiu da festa e não foi visto no aeroporto com a turma. Daquele momento mágico, ficou o som da música em seus ouvidos. Como um presente.

Voltou à realidade com a voz de Fernanda que exclamou espantada, consultando o reloginho de pulso:

— Meu Deus nem vi o tempo passar! Renato deve estar preocupado.

Despediram-se com carinho. Fernanda acenou da esquina, gritando:

— Sábado! Conto com você! Não falte, hein!

Ao entrar em casa, Bia correu para se olhar no espelho do banheiro. Há muito não se cuidava como devia. O cabelo, por exemplo, precisando de um corte mais moderno e uma tintura, onde já se viam os primeiros fios brancos. Estava um pouco acima do peso. “Não muito, pensou! Apenas suas linhas estavam mais arredondadas.” Já se desculpando pelas últimas extravagâncias: Chopinho dos fins de semana… Sanduíches e pizzas em vez de saladas menos calóricas. Examinou a pele: necessitava de uns bons creminhos que, muitas vezes, se esquecia de usar no corre – corre da vida. Pensou: “Como estaria o João? Gordo? Careca? Velho? Ainda teria aquele jeito displicente que tanto a encantava? Por que não perguntou à Fernanda? Ainda se lembraria dela? E o que significaria “esperando alguém especial.” Seria ela? Pretensiosa! Pretensiosa! Deve estar falando de um modo geral! Depois de tanto tempo.. Não viaja, Bia!” Meu Deus! Pela primeira vez em sua vida estava com medo. Parecia uma adolescente! Devia ir a esse encontro? Esse encontro com o passado? Com o único homem que fez seu coração bater um dia?

Mas, sábado chegou. Às dez e meia, já estava pronta. Deu uma última olhada no grande espelho do quarto: O corte do cabelo lhe dera um ar jovial. A maquiagem, discreta e cuidadosa, ressaltava o que tinha de mais interessante: seus grandes olhos negros. O vestido novo combinava com o tom de sua pele morena. Sentiu-se mais segura, embora suas mãos tremessem um pouco ao fechar a porta do apartamento.

Como seria esse encontro com o passado? A conclusão de uma história de amor mal resolvida? Ou, afinal, essa noite seria apenas o desfecho de uma louca fantasia congelada no tempo e no espaço?

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VI – A esquisita da turma – Sonia Quartin

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Por Sonia Quartin, 1 de abril de 2009 18:00

Dirigindo seu carro a caminho da festa, Bia foi pensando nos seus velhos amigos. Lembrou de Ana Luísa, com saudades. Onde estaria ela? Ana Luísa, isto é, Analu, era conhecida pela turma assim: “Analu, a esquisita”. Quase não falava com ninguém. Aos doze anos era a mais alta da turma, tinha pernas e braços muito longos e finos, o que fazia projetar os ombros para frente ao caminhar, sempre de cabeça baixa. Suas feições, um pouco grosseiras para uma menina, mostravam um rosto meio quadrado, boca grande de lábios grossos, emoldurado por cabelos crespos e rebeldes. Filha única de mãe viúva, Analu vivia, então, de casa para o colégio, isolada das demais companheiras. Na sala de aula, sempre parecia ausente e quando era chamada, os professores tinham de repetir várias vezes a mesma pergunta e, então, os coleguinhas caiam na risada, deixando-a toda corada. Nunca era convidada para uma festinha nos fins de semana e, quando havia trabalho de grupos, ficava difícil achar um onde pudesse encaixá-la.

Certa manhã, no caminho do colégio, Analu percebeu que estava sendo insistentemente observada por um homem. Sempre que tal fato acontecia, ficava em pânico. Dessa vez, porém, não se tratava de um garoto: era um homem já maduro, bem vestido, parecendo analisá-la em detalhes. Como por instinto, bruscamente, deu sinal e saltou do ônibus, embora faltassem dois pontos ainda, partindo em desabalada pela rua. No dia seguinte lá estava ele dentro do seu ônibus. Dessa vez acompanhado por uma mulher. Com a cabeça fez um sinal para sua companheira indicando a presença da menina e ambos pareciam comentar coisas sobre ela. De novo? A presença da mulher, de certa maneira, a tranqüilizou. Não, não era paquera. Deu sinal para saltar e o casal também. Tentaram uma aproximação, mas Analu se misturou às colegas e entrou correndo no colégio. À saída, lá estava o casal. Caminhou apressada para o ponto e eles também. Ao descer, eles também desceram. Não tinha mais dúvida: estava sendo seguida. Mas, por quê? O que queriam com ela? Dessa vez apenas a seguiam, sem tentar uma abordagem. Entrou em casa e foi para o quarto. Da janela viu o casal se afastar.

Dois dias depois a campainha tocou e, quando Analu atendeu, lá estavam eles. O senhor retirou um cartão do bolso e então fez as apresentações: eram de uma agência de modelos e queriam falar com os pais dela. Com certa apreensão Vilma, sua mãe, deixou que entrassem. O que queriam com sua menina? Como haviam dito, estavam procurando modelos adolescentes. A garota tinha futuro! Seria uma linda modelo! Tinha um rosto diferente, exótico, e um corpo que, se bem trabalhado… Vilma resistia. Não! Analu era muito menina ainda! Tinha que estudar… Modelo? Além do mais, Analu era muito tímida! Nunca seria uma modelo! Imagina!!! Analu nada dizia. Parecia ausente, mesmo assustada. Mas o casal continuava insistindo. Ela só faria um teste. Se ela quiser… Você quer? Dizia a mãe. Analu fez que sim com a cabeça. Mas só se eu for junto! E se ela for aprovada, eu tenho que acompanhá-la sempre até sua maioridade. Que isso faça parte do contrato! Vilma era escolada. Resumindo: tudo aceito, Analu fez o teste e então desabrochou, se transformando numa linda modelo. A estrelinha da agência!

Depois disso deixou o colégio, recebendo aulas particulares. Anos mais tarde Bia tentou localizá-la pela Internet. Seria mesmo modelo? Estaria no Brasil, ainda? Sem ter sucesso, recorreu, então, às antigas colegas

Eis algumas respostas que recebeu por e-mail:

1) Analu, a esquisita? Parece que tentou modelo, imagina! Mas, não conseguiu.Tudo que sei, é que se casou com um rapaz do interior de Goiás. Está enorme de gorda e com uma penca de filhos.

2) Analu? Você não sabe? Dizem que morreu de anorexia tentando chegar ao corpo de modelo. Pobrezinha. Era tão desengonçada, não? Que judiação!

3) Menina de sorte, essa esquisita! Foi pra Europa e caiu no gosto de um nobre europeu. Casou e hoje é Mrs. Ana Luísa de… Tem um sobrenome complicado. Esses estrangeiros têm um gosto tão estranho, não é?

Bia recebeu muitas outras indicações sobre o destino de Analu. Mas nunca conseguiu localizá-la, realmente.

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VII – Bonita demais – Sonia Quartin

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Por Sonia Quartin, 1 de abril de 2009 17:59

Roberta nasceu linda! Desde a maternidade foi admirada por sua graça e beleza. Seus lindos cachinhos dourados e seus olhinhos azuis, parecendo duas contas, fizeram sucesso entre enfermeiras e médicos. Assim cresceu terceira filha, única mulher, em família de classe média alta, mimada por todos. Na escola, sempre se destacava, não só por sua beleza, mas também pela inteligência e vivacidade. Várias vezes foi escolhida Rainha da Primavera nas festinhas escolares. Até chegar à adolescência era o centro das atenções entre as coleguinhas. Ditava moda nas festinhas de aniversário: Roberta estava usando vestido assim, cabelo penteado daquela forma, e todas passavam a imitar. Tudo nela ficava especial.

Isso até chegar aos treze anos. Meio gordinha que fora, deu então uma espichada. Cresceu e emagraceu. Mais linda ficou. Aí passou a ser invejada pelas meninas da turma que se afastaram dela. Festinhas eram realizadas na surdina, em segredo, aos cochichos. Ninguém a queria por perto, com medo da concorrência. Ficava sabendo depois. Expansiva que era até então, passou a se isolar do grupinho, magoada com essa atitude. Suas mais íntimas amigas já tinham seus namoradinhos. Ela não! Por quê? Parecia que os rapazes tinham medo dela! E tinham mesmo! Bonita demais! Nenhum ousava se aproximar. Ficavam de longe, admirando, assim como se ela fosse uma artista de cinema ou de televisão. Roberta refugiou-se nos estudos. Além da escola, inglês e alemão. No clube que freqüentava foi convidada a participar de um concurso de beleza. Não aceitou. Precisava desfilar? Não! Não tinha coragem! Não gostava de se exibir!

Faculdade! Chegou á hora de se definir. Que profissão escolher? Psicologia? Medicina? Direito? Veterinária? Psicologia, sim! Entrou num cursinho e conheceu Guilherme! Guilherme era o mais brilhante da turma. Sobressaia com perguntas inteligentes e pertinentes. Queria sempre saber mais. Não era bonito, mas o que importava? Parecia de família humilde. Ela conhecia bem roupas de grife, tênis de marca. Guilherme, embora estivesse sempre com camisas limpas e bem passadas, via-se que eram roupas compradas em lojas populares. Trabalhava em meio expediente, chegando às vezes atrasado às aulas. Mas, psicologia era sua vocação e a ela se dedicava. Roberta tentava se aproximar, arranjando desculpas para estar sempre por perto. Guilherme, solícito, atendia seus pedidos, mas não passava disso. E Roberta sonhava totalmente apaixonada. Um dia, quem sabe ele ainda reparava.

Véspera do vestibular. Aulas extras. Saída tumultuada. Uma garota atravessando a rua e gritando para o seu Guilherme que retribui acenando. Abraços e beijos apaixonados. Roberta cai das nuvens. Ele tem namorada! Tão feinha! Roberta que sempre ganhou tudo o que quis: brinquedos importados, roupas e jóias caras, até um carro de luxo ao fazer dezoito anos. Mas agora, seu objeto de desejo parecia perdido, impossível de alcançar.

Que adiantava ser tão bonita, como todos diziam? Que adiantava ter tudo que tinha, se o homem que amava nem sabia do seu amor. Não sabia? Será? E todos os esforços que fazia para se aproximar dele? Os livros que pedia emprestado e nem lia, as explicações de assuntos que já sabia, o cisco que simulou ter no olho e quase o beijou, assim tão perto… Tanta coisa tinha feito! Ele sempre distante! Apaixonado, não por ela, mas por aquela menina sem graça. Viu nos olhos dele, quando se beijaram ali, no meio da rua.

Percebeu, então, que estava chorando silenciosamente. Lágrimas descendo pelo seu rosto e embaçando sua visão. O casal já tinha desaparecido sem ela perceber. Lentamente caminhou sem destino, perdida, um gosto amargo de fracasso na boca. Não era mais a princesinha. Era sim uma mulher sofrendo sua primeira desilusão de amor. Como todas as mortais, um dia.

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