Coisas de Internet ou A vingança – Sonia Quartin

Por Sonia Quartin, 1 de março de 2010 17:27

Amigas desde a infância. Ambas com quarenta e sete anos. Maria Eugênia solteira e Stella divorciada. Mantinham contato através de e-mails diários e, não contentes com isso, se encontravam uma vez por mês, ora na casa de uma, ora de outra, para botar o papo em dia.

Uma tarde, Stella veio com uma novidade.

- Geninha, estou namorando.

- Quem? Me conta essa história!

- Bem. Ainda não é propriamente namoro, namoro… Conheci uma pessoa pela internet. Chat de relacionamentos, sabe? Entrei só de brincadeira. Tem mais de um mês.

- Mas, isso não é perigoso? Assim… Assim… Sem conhecer direito…

- Me pareceu boa pessoa, sério, querendo compromisso…

- De onde ele é? Qual o seu nome? Vai ver que ele é até casado, hein?

- Daqui mesmo, do Rio. Laranjeiras! O nome a gente combinou só dizer no nosso primeiro encontro! Só usamos nosso pseudômino: Eu sou Estrela Cadente e ele Cavalheiro Andante.

- To achando tudo muito esquisito!

- Eu é que propus isso! Nada de nome, por enquanto. Dá mais emoção!

- Mandou foto? Quantos anos?

- Também não! Foto, Geninha! Aposto que mandava uma de dez anos atrás! De mais a mais, você sabe que eu não sou fotogênica! Cinqüenta e três anos.

- Você ta maluca!

Como sempre faziam, Stella contou tudo à sua amiga confidente nos mínimos detalhes. Cada conversa que tiveram, naquelas tardes virtuais.

- Ainda acho que você não deve levar isso avante. Não se envolver demais. Nada de muitas expectativas. Você pode se decepcionar e se machucar, amiga!

Alguns dias se passaram e Maria Eugênia sempre procurando saber de todos os detalhes daquele romance. Mas sempre aconselhando a desistir do romance.

- Pra mim ele é casado! Ah! Quando ele disse que… Não lhe pareceu suspeita essa pergunta dele? Não sei não! Casado ou coisa pior!

Até que um dia Stella contou que haviam marcado um encontro num barzinho em Copacabana.

- Não dá mais pra adiar. Vou e blusa verde e, para não ficar dúvidas, levo uma rosa na mão. Vai que tenha outra de blusa verde, não é? Ele disse que vai de camisa azul clara, trazendo um buquê de flores do campo. Eu disse que são as minhas preferidas.

Maria Eugênia, mais uma vez, insistiu para ela desistir.

- Você sabe que eu até não tenho conseguido dormir direito? Só pensando nessa sua maluquice. Desista disso, por favor! É perigoso!

Em casa, Stella começou a pensar.

- Quem sabe, Deus está me alertando pelas palavras de Geninha? Quem sabe tudo isso não é uma bobagem, uma carência minha? E se ele não for aquilo que parece ser? E se fisicamente ele for um velho caquético e ficar pegando no meu pé. Afinal, eu não sou de se jogar fora! É! Acho que não vou! Telefono pra Geninha e digo que desisti! Está tão aflita!

Assim o fez. Mas, no dia combinado, decidiu ir e ficar escondida, só para conhecer o “Cavalheiro andante”. Vestiu uma blusa branca, discreta e, bem antes da hora marcada, ocupou uma mesa ao fundo, de onde tudo podia observar sem ser vista. Em certo momento, um senhor de camisa azul clara, trazendo flores campestres se sentou em uma mesa que ficava bem na entrada. Sim! Era ele! Stella pode analisar o cidadão: baixo e ligeiramente calvo. Uma barriga proeminente… Humm! Não era seu tipo! Ainda estava agradecendo a Deus e a sua amiga Geninha tê-la feito desistir, quando eis que a mesma surge à porta: Blusa verde com uma rosa na mão! Sorridente, se aproximou do tal homem de camisa azul. Ah! Por isso seu empenho em fazê-la desistir do seu pretendente! A danada queria para ela! Bela amiga! Teve ímpeto de se levantar e armar um barraco. Não fez. Quando o casal pareceu distraído nas apresentações, levantou-se e saiu pela porta lateral sem ser vista.

Dia seguinte mandou um e-mail para a então ex amiga onde dizia:

“Maria Eugênia

A Geninha que eu conhecia, amiga e confidente, morreu ontem quando te encontrei naquele bar vestindo blusa verde com uma rosa na mão.

Favor nunca mais me procurar. Stella.”

A atitude de Maria Eugênia, foi considerada uma profunda traição por parte de Stella. Por muito tempo chorou a perda de sua melhor amiga.

Mas, feridas cicatrizam e o tempo tudo apaga. Certo dia ficou sabendo que Maria Eugênia ia casar “com um namorado arranjado na internet.”

Então, mesmo sem convite, apareceu na Igreja toda orgulhosa de braço com seu novo amor, um belo espécime masculino, encontrado nas voltas que o mundo dá. Esse sim! Do seu jeitinho!

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3 comentários para “Coisas de Internet ou A vingança – Sonia Quartin”

  1. manoel.rodrigues disse:

    Oi, Sonia
    Muito bom seu conto, sobre as armadilhas dos namoros pela internet (ou por correspondência em geral). Acho que todos conhecemos alguns casos ilustrativos.
    Mais interessante ainda foi a vingança da Stela: a vitória pelo método tradicional e sem trapaças.
    Abraços
    Manoel

    Sonia Quartin respondeu:

    Amigo Manoel
    Agradeço seu comentário. Gosto de fazer contos que tenham um final inesperado. É meu estilo.
    Beijos virtuais.
    Sonia Quartin

  2. Ana Lucia disse:

    Soninha,
    Por isto que tenho um amigo que diz que ‘amigo a gente conta nos dedos e sobra muito dedo’. Muito bom o seu conto. Beijo. Ana



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