Quando aconteceu o chamado apagão, os arautos do caos absoluto deram tanta entrevista e fizeram tantas declarações que mais parecia que o país ficaria às escuras por toda a eternidade e que jamais conseguiria gerar energia suficiente para suas necessidades de toda ordem, inclusive a doméstica.
Claro que houve dificuldades, principalmente nas indústrias. Mas o resultado final foi uma adaptação à nova realidade, uma consciência dos brasileiros de que energia não é para se gastar sem motivo, um alerta sobre desperdício, enfim, todos sobreviveram ao dito apagão e dele se tirou uma ótima lição de viver com mais discernimento, inclusive despertando a pesquisa de novas fontes de energia.
Agora, vem essa crise financeira já mais do que anunciada. Ninguém, mas ninguém mesmo que tenha um pingo de juízo, duvidava de que dinheiro virtual e jogatina desenfreada em mercado de ações pudessem ser eternos. Basta observar a insanidade com que se comportam os corretores de ações no pregão das bolsas. Não é por nada não, mas se algum ambiente neste mundo se parece com hospício, é aquele. Fico tão aflita que nem olho quando a televisão coloca na tela imagens daquela maluquice. Quando é no Japão, é ainda pior. Parece que aqueles corretores sentados em frente ao computador vão explodir todos ao mesmo tempo.
Isso lá é vida? Conheci um rapaz que trabalhava na Bovespa. Ele contou que, numa só manhã, fumava três maços de cigarro. Depois, não fumava mais até o dia seguinte. E odiava fumar. Nem perguntei por que não mudava de profissão. Não perdi meu tempo. Ações em bolsas de valores é forma de investimento financeiro, mas evidentemente não pode ser a única forma de vida do planeta e a única preocupação da mídia mundial.
Vou entrar no jogo também, mas no jogo dos porquês:
Por que há de se querer só uma vida virtual?
Por que se troca de modelo de carro todo ano?
Por que um celular de modelo novo inutiliza o que se tem?
Por que o sempre ter mais é cada vez necessidade básica?
Por que a fala “não tenho tempo” é a que mais se escuta?
Por que essa correria toda todo dia e toda hora?
Por que lutar para conseguir tanto supérfluo?
Por que ter em casa e ter na vida coisas tão desnecessárias?
Por que esta precisão de impressionar as pessoas com o que possamos ter a mais do que elas?
A décima pergunta é tão óbvia que nem vou formular. Apenas refletir sobre ela:
É mesmo imprescindível pedir empréstimo em banco para toda e qualquer atividade que queiramos exercer, para toda e qualquer necessidade, para todo e qualquer acontecimento de nossa vida? Será mesmo? E esse infeliz empréstimo consignado que é um fator extraordinário de desagregação familiar, pois os aposentados passaram a ser alvo de pessoas inescrupulosas, mesmo que sejam filhos e netos?
Está tudo errado. O mundo está caminhando na direção errada. Mas, com esse apagão financeiro, tenho certeza de que haverá uma reviravolta mundial.
A globalização é uma farsa, um desrespeito e uma violência com as diversidades. E também não há de se pensar em velhas fórmulas de dominação política, pois nenhuma delas deu certo.
Que tal os homens tomarem consciência de que só se vive uma vez, que túmulo não tem gaveta para guardar nada e que viver para o futuro é não viver, pois a vida é o presente.
É um presente que está sendo desperdiçado, embrulhado em papel de luxo que vai para o lixo. E, no presente, quem gasta mais do que ganha e ganha mais do que precisa é, no mínimo, insensato. Para não dizer coisa pior. Para não dizer palavra muito mais difícil de ouvir.
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11 de novembro de 2008 at 9:58
Amiga Hila
Estou 1000% com você. Consumismo, a palavra do mundo atual, é sinônimo de INSANIDADE. Acho que resumi na minha poesia “Tempos modernos”.
Realmente, está tudo errado, virado e revirado. De cabeça para baixo! Excelente desabafo que é meu também. Estou com você e não abro!
Beijos Sonia Quartin
[Resposta]
11 de novembro de 2008 at 10:17
Hila, e quem vai as lojas em liquidação e compra uma blusa bonitinha, chega em casa e resolve ir buscar mais duas iguais só porque pagou barato?
Ou tem um monte de sapato mas quer aquele que viu no pé de outra?
Coloca isso em tudo, do micro ao macro? porque?.
Amar o que temos.
Ajudar conter a inflação,se cada um der um pouquinho, nós podemos chegar lá.
Obrigada pela força do texto.
[Resposta]
11 de novembro de 2008 at 11:33
Hila Flávia,
Como teu texto tem nele a força de uma bomba. É pertinente, atual e muito bem escrito.
É um sacudão que estamos todos precisando levar.
Sempre me pergunto: Que diabo de mundo deixamos e ainda estamos deixando para os que vieram depois de nós e ainda estão vindo prá cá? Ao tentar responder fico com vergonha.
Eu estava precisando ouvir isto que tão bem colocaste! É isto mesmo! Texto como este teu a gente não só lê. A gente ouve enquanto o lê!!!
Um abraço e parabéns!
Haydée
[Resposta]
12 de novembro de 2008 at 0:02
Hila,
Muito procedente seu jogo dos porquês.
Por que há de se querer só uma vida virtual?
- Sei não. Essa tal de vida virtual não tem cheiro nem sabor.
Por que se troca de modelo de carro todo ano?
- Também não entendo. Dizem que é para não ficar com um carro desvalorizado. Mas quem diz, não deve entender nadinha de matemática. Melhor, de aritmética.
Por que um celular de modelo novo inutiliza o que se tem?
- Pra lhe dizer a verdade, ainda não aprendi a ligar nem a desligar um celular.
Por que o sempre ter mais é cada vez necessidade básica?
- Ser mais é que deve ser básico.
Por que a fala “não tenho tempo” é a que mais se escuta?
- È. Isso me pergunto. Quero um dia de 48 horas. Tem hora que acho que todos os relógios do mundo estão sendo adulterados.
Por que essa correria toda todo dia e toda hora?
- Também me pergunto.
Por que lutar para conseguir tanto supérfluo?
- Lembre-se de Sócrates… De seu discurso.
Por que ter em casa e ter na vida coisas tão desnecessárias?
Por exemplo: um canguru branco.
Por que esta precisão de impressionar as pessoas com o que possamos ter a mais do que elas?
_ Falta-nos memória. Esquecemos que todos nós temos por baixo da pele a mesma cor rubra. Não gosto de falar se está tudo certo, se está tudo errado. Depende do ponto de vista de cada um. Porém, no entanto, entretanto, todavia, a meu ver, esse tal de empréstimo consignado é um grande pecado originado para satisfazer o tal do mercado. Financeiro. Nada tem a ver com pecados original ou capitais. É pecado mortal mesmo. Resultado dessa tal globalização de você falou. Aqui, volto à tal de aritmética. Quem estiver numa instituição financeira qualquer e, antes de fechar seu acordo de um empréstimo, pegar um pedacinho de papel e um lápis – não precisa de calculadora não. Se fizer a conta de multiplicar : número de prestações X valor de cada prestação = dobro do dinheiro que estou levando, caso tenha juízo, não retira o empréstimo.
- Não vou dizer que você me plagiou, que pirateou um pensamento meu: que tal nós todos tomarmos consciência de que “só se vive uma vez, que túmulo não tem gaveta para guardar nada e que viver para o futuro é não viver, pois a vida é o presente.
É um presente que está sendo desperdiçado, embrulhado em papel de luxo que vai para o lixo. E, no presente, quem gasta mais do que ganha e ganha mais do que precisa é, no mínimo, insensato. Para não dizer coisa pior. Para não dizer palavra muito mais difícil de ouvir.”
- Penso exatamente dessa maneira. A vida é um presente. Único. Quando mais despojada, mais autêntica.
Beijos,
TT
[Resposta]
12 de novembro de 2008 at 23:50
Quando leio comentários como os que vocês fizeram me dá uma esperança! Me dá um ânimo de viver cada mais com mais simplicidade! Obrigada pela força, meninas. Vocês são como uma onda de carinho.
[Resposta]