Daqui praí – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 8 de fevereiro de 2010 6:49

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Foi bom enquanto durou, mas acabou-se o que era doce!

Como vocês que acompanham as crônicas sabem, estive recentemente no Brasil, de férias. A folga passou rápida como um raio e a programação, coordenada pelos meus dois filhos pequenos, foi super-intensa: zoológico, praia, shopping, parque de diversões e cinema (onde eu assisti de: Xuxa e o mistério da feiurinha até Sherlock Holmes, passando por Avatar e Astroboy).

No total foram vinte e seis dias, dos quais seis foram só viajando e vinte dias em casa.

Saindo do Timor, a primeira parada foi Bali e a empresa: Merpati – avião pequeno, entretanto a viagem estava só começando e, como era de se esperar, a excitação em voltar para casa, depois de oito longos meses, me fazia superar tudo, até mesmo o fato de não achar uma posição confortável para colocar as pernas, que insistiam em não caber no espaço entre uma fileira de poltronas e a outra. Ah, rolou almoço, com direito a sobremesa: uma espécie de pudinzinho em formato de flor, parece que estamos mordendo uma barra de sabonete mais macia.

Em Bali eu levei um chá de chão, meu voo só saía à noite e nem na parte interna do aeroporto eu podia esperar, tive de ficar do lado de fora, sentado no chão e vendo o tempo passar. Quando finalmente entrei, fiz o check-in e depois de passar por aqueles procedimentos de raio x e detectores de metal por duas vezes, uma ainda na entrada do aeroporto, enfim, partimos.

O próximo destino era Doha, a capital do Catar, nos Emirados Árabes. A empresa: Qatar (é assim que se escreve) Airways, o conforto mudou da água para o vinho, ou melhor, da água para um suco de uvas, já que vinho só serviam na classe executiva… Poltronas que me cabiam, tela individual com filmes, seriados, joguinhos e música. Nas refeições, havia até um menu (chique, hein?!), a comida, confesso, era de um paladar diferente do nosso, ainda assim, bem melhor que barrinhas de cereal. O estranho nesse vôo foi que, mesmo tendo passado, por duas vezes, naqueles procedimentos de segurança – raio x, detectores de metal, tira sapato, cinto, essas coisas… – no meio do caminho aterrisamos em Singapura, onde tivemos de descer da aeronave e passar por tudo outra vez para embarcar de novo e continuar a viagem.

Em Doha, me impressionei com o tamanho do aeroporto, o avião para a uma boa distância do prédio e tem uns ônibus esperando para nos conduzir, uma espécie de “integração” de luxo. A viagem leva quase 15 minutos, e aí vocês calculam a distância que é percorrida.

O lugar em si é requintado, fiquei até com medo de entrar no Duty Free, olha o nome: “Milionaire”, dá pra acreditar? Com o dinheiro mais do que contado, nem arrisquei. A única coisa de que eu não gostei foi o banheiro, imundo e fedorento, e se eu já era bastante contente por ter nascido homem, imagine encarando um sanitário daquela categoria, ainda bem que nosso equipamento de tirar água do joelho é mais prático que o das mulheres e possibilita o uso à distância.

No saguão eu vi um monte de pessoas com aquelas roupas enormes e que parecem abadás de trio elétrico, usando turbantes e barbas longas. Só me lembravam daqueles “homens-bomba” que vemos na TV. Até fiquei com vontade de tirar foto, mas tive receio de que o flash da câmera pudesse disparar uma bomba, vai saber…

Mais um tempinho de espera e voamos para Paris. Minha primeira vez na “Cidade Luz”, fiquei até emocionado. Como a conexão seria de quase oito horas, calculei o tempo para pegar as malas e para um novo check-in e achei que poderia dar um passeio na cidade. Sabe aquela coisa bem clichê? Visitar a Torre Eiffel, comer croissant, e tirar uma foto com um baguete dembaixo do braço.

A coisa começou a dar errado antes mesmo de eu chegar lá. A previsão do tempo era de neve e temperatura de -5º C, para um nordestinho, acostumado ao sol do Recife e sem os apetrechos necessários para enfrentar o frio, isso era o retrato do apocalipse. Por outro lado, como a oportunidade poderia ser única, resolvi encarar o desafio.

O problema é que eu levei mais de uma hora até achar a saída do aeroporto, quando finalmente o fiz, fui até um posto de informações onde tomei nota dos ônibus que deveria tomar para cumprir o roteiro que desejava. Troquei alguns euros e fui até a parada. Já me assustei com o preço da passagem: 34 euros ida e volta, fora o metrô que ainda precisaria pegar, caso quisesse ir até a Torre Eiffel (e Paris sem a Torre Eiffel, não é Paris). O frio estava me castigando, a única proteção era uma calça jeans e uma jaqueta que um colega me emprestou.

Mais uma espera. Trinta minutos depois, o ônibus ainda não havia chegado e eu comecei a me preocupar com a hora e, lógico, em gastar 34 euros. O espírito pirangueiro* falou mais alto do que o espírito aventureiro e eu desisti do passeio. Voltei ao saguão e procurei saber como fazer para chegar ao balcão da TAM onde faria o novo check-in para o vôo até São Paulo.

Prestei bem atenção ao que me informaram e fui atrás do tal Shuttle Bus*, que de ônibus não tinha nada, estava mais para um mini-metrô. De onde eu estava (Terminal 1) até o Terminal 2 (estranhamente, o Terminal 3 ficava no meio…), levamos uns 10 minutos e, a partir daí, eu tive que caminhar quase 20 minutos até o balcão de atendimento da TAM. Fiquei imaginando se, realmente, daria tempo para o meu passeio pela cidade e acho que tomei a decisão correta ao desistir.

Espera novamente. Comecei a ficar com um pouco de fome e resolvi procurar um lugar para comer comida tipicamente francesa. Achei: McDonald’s! Ora, considerando que era feito na França, era comida francesa ou não? O sanduíche estava ótimo, bem diferente dos que temos no Brasil: o pão era diferente, uma espécie de ciabata, e ainda vinha com um molhinho poivre*, muito bom. O resto era o de sempre: coca-cola e batata frita. Aproveitei para usar a internet (de graça) e dar notícias sobre a viagem.

O avião da TAM não deixou a desejar, consegui me encaixar na poltrona e as pernas cabiam no espaço, ainda que não tão confortavelmente quanto no vôo anterior. Depois de 11 horas e qualquer coisa voando, novamente pisava em solo brasileiro.

Agora em Sampa, mais um chá de espera, se bem que, dessa vez, me sentindo em casa. Quase sucumbi ao que diz aquela música de Roberto Carlos: “… e ao se sentir em casa, sorrindo vai chorar…”. Só mais algumas horas e eu estaria, de novo, na minha terrinha amada.

Poupando-os daquele velho blá-blá-blá procedimental, já estava pronto para embarcar, outra vez, agora pela Webjet, fiquei sabendo que o avião atrasaria uma hora – “é, cheguei mesmo ao Brasil”, pensei.

Finalmente embarcado, tive de discutir com a aeromoça, ou melhor, comissária de bordo que, deliberadamente, enquanto eu fui ao banheiro, colocou um pessoal na fileira onde eu estava, ocupando a minha poltrona. O pior é que ela ainda veio braba pro meu lado, como se aquele não fosse o meu lugar. Depois de ver que eu estava certo, perguntou se eu fazia questão, o que já devia ter ficado claro quando comecei a argumentar com ela, respondi que sim, pois tinha escolhido aquele assento, na saída de emergência, para poder esticar as pernas. Depois de algumas caras feias (fome, talvez?), saíram e eu pedi que devolvessem a jaqueta e o livro que eu tinha deixado marcando meu lugar.

O voo, a opção mais barata, saía de São Paulo e fazia conexão em Brasília. Devido ao atraso, saímos de um avião e corremos para o outro. A única coisa que eu pude ver da cidade foi o corredor entre os minhocões de acesso, mas posso garantir que era bonito e, aparentemente, bem planejado, como dizem que é tudo na nossa Capital.

Ah, antes que eu me esqueça, o lanche foi barrinha de cereal (realmente eu estava no Brasil).

Por último, Recife! Muita gente me esperando no aeroporto, me senti uma celebridade. Beijos, abraços e acredito até ter visto algumas lágrimas. Minha filha pulou no meu colo e só me largou quando entramos no carro, para me agarrar de novo quando o carro parou no restaurante onde mais um monte de gente me esperava e onde pude matar um pouco as saudades do meu povo e de alguns sabores dos quais eu já havia quase me esquecido.

Vixe, o texto ficou muito longo, espero que me perdoem e que consigam lê-lo até o final com a paciência costumeira. Ainda tenho muito a contar, mas isso fica para o próximo capítulo, ok?

Do Timor, com carinho (como podem ver, já estou de volta)

Gus,

Díli, 04/02/10

* Pirangueiro – avarento, muquirana;

* Shuttle Bus – ônibus para pequenos deslocamentos;

* Poivre – pimenta-do-reino.

Augusto Vilaça tem 33 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?

Todas as segundas com uma novidade no Blog Notícias de Muito Longe: http://aavs1976.wordpress.com

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9 comentários para “Daqui praí – Augusto Vilaça”

  1. Timoneiro disse:

    Augusto,

    Seja bem-vindo de volta. Que maratona! Eu também teria desistido do tour a Paris. Sou muito estressado com horários. Ainda bem que tudo deu certo e você stá de volta ao blog para nos brindar com suas histórias.

    Grande abraço,

    Paulo

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Timoneiro, Rapaz, você não tem ideia… e olhe que aí só tá um pedaço da viagem. Imagina a volta, onde a expectativa era bem menor do que a de rever o lar…

    Obrigado pelo comentário e por ter guardado um espacinho pra mim aqui no site.

    Ah, aproveitando, ficou bem legal o novo design.

    DO Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

    Timoneiro respondeu:

    @Augusto Vilaça, Eu imagino como deve ter sido a volta. Dá vontade de desistir, não é?

    Criei um novo blog, o Blog do Timoneiro, onde escrevo basicamente sobre artistas e programas de TV.

    Não deixe de conhecê-lo. http://www.blogdotimoneiro.com.br

  2. Ana Lucia disse:

    Augusto,
    Imagino o que você passou. Uma maratona de deixar qualquer um à beira de um ataque de nervos. Mas nada como ainda ser broto. A volta suponho que tenha sido um desastre.
    Estava com saudades dos seus textos. Grande abraço. Ana

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Ana Lucia, Amiga Ana,

    Realmente foi uma viagem muito longa. Juntando a ida com a volta, “acumulei” milhas de ter dado literalmente a volta no Globo. O interessante de tudo isso é ver que, mesmo estando tão longe, encontramos um país que fala português, ainda que não seja uma unanimidade.

    A volta, como era de se supor, foi bem mais traumatizante, afinal, a excitação não era a mesma da ida.

    Bom, aos poucos estou voltando à luta, não vou mentir que ainda esteja um pouco naquele clima de férias.

    Obrigado pelo comentário,

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

  3. Jovimari disse:

    Gus,

    E quem disse que viajar traz apenas alegrias? Há também o desconforto, a decepção, o estresse, o cansaço e para nós mulheres, o choro de raiva quando tudo dá errado. É bom ser mulher!! ;)

    Seja bem-vindo aí e aqui.

    Beijo!

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Jovimari, Olá Jovi,

    É bem verdade, ainda bem que nós homens não nos estressamos tão rápido nem por tão pouco (na nossa ótica masculina, lógico!). Mas “tudo vale a pena, se a alma não é pequena…”, e valeu muito, posso garantir.

    Obrigado pelo comentário e pelas boas vindas.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

  4. manoel rodrigues disse:

    Oi, Augusto
    Isso acontece, você ja devia esraer vacinado.
    Há ocasiões em que tudo dá errado, embora você tenha feito o planejamento; em outras acontece justamente o contrário.
    Quando os acontecimentos não dependem de você e sim do acaso, da incompetência, da lua, do sol, da neve, da chuva, há somente que relaxar e aproveitar o que puder.
    Lembra da história do limão, que foi , inclusive, objeto de uma crônica sua? É por aí.
    Abraços, e salve o seu retorno.
    Manoel

    Augusto Vilaça respondeu:

    @manoel rodrigues, Amigo Manoel,

    Eu já previa mesmo quase tudo isso, afinal, o que mais se pode esperar de uma viagem de 3 dias com várias horas de espera em aeroportos? Mas, ainda assim, havia a esperança de as coisas irem melhor, não é? Por outro lado, se tudo tivesse saído certinho, não teria tempero suficiente para escrever a crônica… Como você mesmo disse, a viagem foi o limão, a crônica, a limonada.

    Espero que tenha saído bem refrescante.

    Obrigado pelo comentário.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

    

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