A chuva - Lu Dias Shakespeare e o humano - Lu Dias



nov 05

O coração da gente não tem sossego. É só ligar a televisão, ler jornal, escutar qualquer prosa e as notícias que chegam são terríveis. Pior ainda é conversar com professores, orientadores educacionais e pedagogos. O desalento é tão grande que, não fosse a teimosa esperança, a tristeza se instalaria e realmente ficaria para sempre. Os mais novos se assustam, mas para nós, os nasceram na primeira metade de um século que passou, não é só assustador não, é absolutamente aterrorizante perceber como o comportamento dos jovens e das crianças se modificou.

Vou contar um singelo caso meu e três que presenciei outro dia mesmo, e poderão notar a diferença abissal:

1) Minha amada e saudosa mãe gostava de receber suas amigas e conversar com elas enquanto tomava um café bem gostoso. Eram prosas longas, calmas, risonhas. Éramos muitos filhos e menino pequeno a coisa de que mais gosta é escutar conversa de adulto. Mas essa chance não nos era dada e nenhuma palavra era dita pela minha mãe nesse sentido. Ela só olhava para os filhos e cada um caçava seu rumo. Sem meu pé me dói. Aquela hora era a de as amigas conversarem e nenhum menino sequer ousava perturbar. Isso porque, sempre, era-nos dito que, em conversa de gente grande, criança não entrava e que, quando as amigas de minha mãe chegassem para um café, era a hora delas, não a nossa. Não me lembro de nenhum trauma causado pela disciplina na qual fomos criados.

2) Na manhã de segunda-feira, viajei de Formiga para Belo Horizonte no ônibus da manhã, quando nenhum passageiro teve um pingo de sossego e paz na viagem. Uma menina de aproximadamente quatro anos chutou os bancos, gritou o tempo todo, bateu incontáveis vezes com a mão aberta no rosto da mãe, disse a ela palavras de baixo calão, exigiu cada segundo da atenção dela com pedidos constantes, enfim, não deixou que ninguém, mas ninguém mesmo, fizesse uma viagem tranqüila. E o que a mãe falava? Apenas, numa doçura melosa, repetia: – Filhinha, a mamãe vai acabar se zangando! Filhinha, a mamãe vai amarrar você com o cinto de segurança como castigo! Filhinha, a mamãe vai acabar ficando nervosa, vai adoecer e morrer e você vai ficar sozinha no mundo! E a cada filhinha pronunciada, recebia um tapa na cara e um palavrão. Os passageiros, garanto, imaginaram o que seria aquela menina quando adolescente! Cada queixa dos companheiros de viagem era motivo para juras de amor da mãe à filha, que respondia com um palavrão.

3) Já um menino de seus dez anos de idade, cujos pais saem de casa de manhã e retornam à noite, conta para todos os colegas os sites pornográficos que vê na televisão e os filmes que gosta de assistir. Ou é de violência sádica ou da mais completa e absoluta pornografia.

4) O velho aposentado não consegue receber o seu salário. Mínimo. Porque ele está comprometido com empréstimos consignados, que os bancos espertamente facilitam para filhos adultos e netos adolescentes comprarem seus supérfluos e pagarem contas feitas com absoluta falta de controle pessoal, à custa do sacrifício do pai ou avô.

Alguma coisa está muito errada neste mundo, quando os pais temem os filhos e não são respeitados por eles.

Não faço apologia de disciplina rígida, da falta de diálogo entre gerações, que por muito tempo existiu nas nossas famílias, e muito menos de castigos corporais que eram comuns. Mas consideração, respeito, carinho, são atitudes mútuas entre pais e filhos que não podem deixar de existir nunca. Educar dá trabalho, dizer não é muito mais difícil do que o sim que não resolve, apenas supera na hora a questão.

É prova de amor impor limites aos filhos e netos. É prova de amor zelar por eles, saber com quem andam, por onde andam e o que fazem fora das vistas adultas. Até que consigam voar sozinhos, é prova de amor ensiná-los a ter asas fortes e responsáveis.

 

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Publicado por Hila Flávia \\ tags:

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6 comentários para “De pequenino… - Hila Flávia”

  1. Sonia Quartin disse: Reply to this comment

    Amiga
    A situação com relação ´a educação dessa juventude atual ficou insustentável e sem controle por parte de educadores ( pais e professores). Acho que ela é irreversível, infelizmente. Sem mais palavras. Abraços Sonia Quartin

    [Resposta]

  2. Ana Lucia Timotheo da Costa disse: Reply to this comment

    Hila,
    Assino embaixo deste seu texto. Coisa que me irrita é a falta de limites impostos. Esta história de que os pais de hoje são acostumados a não imporem limites( porque trabalham e convivem pouco com as crianças e por isto não cobram) não é desculpa. Eu sempre trabalhei ( e trabalho até hoje) e nem por isto criei um monstro. A educação se faz pelo exemplo. Beijo. Ana

    [Resposta]

  3. Paulo Afonso disse: Reply to this comment

    Infelizmente é verdade. A palmada, seja física ou verbal, faz muita falta. Precisa haver hierarquia na família. E muito respeito, mesmo que seja imposto pelo medo (mesmo que nunca tenha havido nada que o justificasse).

    Essas crianças rebeldes, que mesmo com apenas 5 anos batem nos coleguinhas da escola, podem vir a se tornar seres abomináveis que incendeiam mendigos, matam os pais, etc.

    [Resposta]

  4. Lu Dias Bh disse: Reply to this comment

    Hila

    Pelo que me parece é também uma mineirinha.
    Que coisa boa!

    O seu texto é uma pequena amostragem de como anda a educação de nossas crianças.
    Aqui eu eximo o professor, porque sei que a educação deve ser, primeiro, implantada no lar, desde os mais tenros anos.
    Hoje, se um professor for mais severo com o aluno, chega toda a família na escola e o caso vai parar na Secretaria de Educação.
    A criança sabe que possui o escudo protetor da família por trás.

    Certa vez li uma reportagem que dizia que os hotéis da Alemanha estavam rejeitando casais brasileiros com crianças, pois as brasileiras eram mal educadas, verdadeiros reizinhos.

    No caso da criança do ônibus, acho que quem merecia ir para uma casa de correção era a mãe, a debilóide.
    Como uma criança dessa não aprende através do amor que educa, na vida vai acabar aprendendo com a dor.
    Em suma: levando muita porrada.

    Um grande beijo,

    lu

    [Resposta]

  5. Ethie Giacomelli disse: Reply to this comment

    Tenho seis filhos, nunca recordo de nenhum deles terem altercado, pais filhos, irmãos.
    Agora,sempre houve, respeito, respeito, respeito.
    Gooldsmith, a cada saida de casa para vender rendas de porta em porta, lia uma frase de amor para os filhos.
    Um dia ao sair, escutou o pequenino dizer, Pai…Que a paz de Deus seja convosco. Vá em Paz.

    [Resposta]

  6. GUTIERRITOS disse: Reply to this comment

    DONA HILA FLÁVIA

    Eta mineirada boa.

    Terra dos mil poetas.

    Gostei bastante de seu texto.

    Bastante talentoso.

    Parece que todos os bons mineiros ( ou será que todos são bons?) desembarcaram aqui na alma carioca.

    Logo, logo o Paulo vai ter que escrever Alma Cariosa e …..Mineira.

    Olha que eu sou paulista.

    Agora, sobre o seu tema, olhe, conheci muita coisa boa destes bons tempos.

    Principalmente a serenata.

    Olha, se fosse um pouco alta, baixava a polícia e nos mandava embora.

    E o romantismo daquele tempo.

    A gente se amava muito mais.

    Como era gostoso o bate-papo.

    Não tinha nem televisão, uai.

    Mas existiram coisas ruins também.

    Quer um exemplo?

    Em minha cidade natal, havia um preconceito racial danado. Cheio de maldade.

    Você acredita que chegou ao ponto de ter, na mesma rua, uma calçada ( mais larga ) para o passeio dos brancos e uma calçada ( mais curta ) para os negros.

    E falavam cada coisa, que nem é bom lembrar.

    Gente ruim.

    Sempre anamatizei o preconceito.

    Graças a Deus, para nossa família todos eram iguais e merecedores de nosso respeito e carinho.

    Mas não era assim para todo mundo não.

    Hoje, isto mudou bastante.

    E para melhor.

    O mundo, Dona Hila, acho que é mesmo assim.

    Melhora aqui. Piora ali.

    Mas vamos vivendo.

    E nunca perca a esperança.

    A Lu Dias disse que a esperança, mesmo frágil, ficou lá na caixa de Pandora, e está por aí.

    Eu tenho fé e acredito que o mundo pode ser melhor.

    Estamos em mudança.

    Quando acontece, os móveis, as coisas, as roupas, tudo fica fora de lugar.

    Depois, com o tempo, a gente vai colocando no lugar.

    Ah, sabe, antes que eu esqueça, tive um grande amigo, infelizmente, já falecido, e ele era mineiro.

    Foi apelidado pelo povo do interior paulista de Mineiro.

    Assim, ele foi o embaixador aí de Minas e até hoje aprendi com ele a gostar dos mineiros.

    Bão, o papo tá bom, mas a Cidinha já me chamou.

    Já vou, Cidinha.

    Eta muié danada. Se eu me atrasar, vai me dar a conta.

    Boa noite.

    [Resposta]

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