Doloroso percurso – Paulo Valença
1
O espelho reflete o rosto do seu pai: a testa larga, cortada por rugas, os olhos grandes, tristonhos, o nariz adunco, os lábios finos, com o vinco que os repuxam…
- Estou ficando muito parecido.
Conclui sorrindo. Penteia a cabeleira ondulada, cheia, grisalha, igual… Ainda mantendo o sorriso, deixa o quarto, entrando na salinha.
- Vai sair?
Indaga-lhe a mulher morena, na cadeira de rodas.
Responde já em direção do terracinho que o conduzirá após cruzar o jardinzinho, ao portão e daí, à rua estreita.
- Vou fazer a visita.
- Sim.
Ela com o olhar analítico segue-lhe a figura se afastando. O Tadeu está mais gordo? O que é a nossa vida, de repente, nos deparamos velhos, mudados pela metamorfose do tempo. Somos outros seres. Mas assim é a lei natural de tudo. Deus sabe o que faz… Cadencia-se. E o amanhã o que nos reservará?
- Como saber?
Indaga-se, em voz baixinha, libertando o que pensa. E continua refletindo. De três em três meses o Tadeu faz a visita ao jazido, na fiscalização de zelar o que resta do pai… Mas, o que ainda restará do outrora senhor cheio de corpo, forte?
- A lembrança que não morre.
Novamente se resume, na voz sussurrada.
Sim, cada um com seu mundo, sua criação, conduta de vida. Balança-se. Mais tarde, o marido regressará. Silencioso. O rosto fechado, mais tristonho ao encarar a realidade de novamente se deparar com a ausência querida. Cerra os olhos e, sem tardar, adormece.
2
Transpõe o largo portão e caminha entre jazidos. Homens envergados cuidam de aparar ou aguar a grama. Quanta vez já fez esse percurso doloroso, na obrigação de dizer à memória que não esqueceu o pai, que ele o sente presente, na força do parentesco que os une?
Agora parado, de pé, observa o caminho traçado por formigas sobre o verde da grama. Ah, reclamará de Seu Toinho esse descuido, a falta de zelo com o túmulo!
- Bom dia.
Então, reconhecendo a voz de Seu Toinho e se voltando:
- Mas, Seu Toinho, o senhor não tem cuidado do túmulo: as formigas fizeram caminho na grama. O senhor não recebe todo mês para cuidar do túmulo?
Gaguejando, o zelador busca se justificar:
- É que com o verão, as formigas sempre aparecem… Mas, eu vou colocar areia preta no buraco e vou mudar essa grama.
- Espero. Espero Seu Toinho.
Silenciam, enquanto em volta a tarde vai morendo. O céu escurece, as primeiras luzes se acendem na avenida à esquerda. O vento circula mais frio? Alguém grita, chamando um dos operários:
- Samuel!
Então Tadeu e Seu Toinho se afastam, em direções opostas. Calados. Entregues aos próprios silêncios.
- Samuel!
- Já tou indo, cara!
Responde o rapazote próximo e vai saber o que o outro deseja.
O portão. Cruza-o. Adiante, está a parada dos coletivos. Atravessa a avenida, em direção deste. E, de repente, à semelhança das visitas anteriores, sente-se envolvido pela paz. A paz…
Sorri, entendendo. Tudo entendendo.
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Paulo Valença
Que bom ver você de novo.
Estava com saudades.
O seu texto está lindo.
Gosto das imagens que você cria.
Não gosto de túmulos ou cemitérios.
Sou a favor da cremação.
É duro reviver o desintegrar de alguém querido, dia após dia.
Meus pais foram cremados.
Beijos,
lu
PAULO
É sempre muito doloroso o caminho para visitar aqueles que nos deixaram.
E nem sempre muitos entendem a dor que sentimos.
É como reencontrar com a saudade e senti-los:
presentes mesmo ausentes
tão perto e tão longe
tão frios, mas ainda com tanto,
mas com tanto amor.
Feliz ano novo para você e seus familiares.
Que 2009 lhe traga muitas alegria e paz.
lu,
Você, como sempre, sabe como dizer as coisas, sabe como me sensibilizar, portanto, mais uma vez lhe agradeço de coração as palavras inteligentes e fraternais. Obrigado. E que a amiga e família desfrutem no Ano de 2009 de muita paz, saúde e vejam os sonhos concretizados!
Abraços,
Paulo.
GUTIERRITOS,
Sim, é muito dolorosa a visita aos que se foram, mas que continuam vivos em nossa imaginação, em nosso sentimento… para sempre vivos!
Que o Ano de 2009 lhe traga, juntamente com os familiares, a paz, a saúde, e a realização de seus sonhos!
Abraços,
Paulo.
Paulo, fiquei com este dilema no ano passado, de ir ou não ir visitar o túmulo de minha amada e saudosa mãe. Mas era tão difícil, tão difícil! Uma tarde, estava na casa dela, onde mora hoje uma irmã, quieta, escutando música, quando senti uma presença dela tão forte que fiquei até sem ar. Não a vi, mas senti seu cheirinho gostoso e sua energia. De noite, sonhei com ela, que me falava: não fica triste, filha. Nós nunca nos separamos, eu nunca sairei de perto de você. Não precisa sofrer indo ver meu túmulo. Eu estou sempre perto de você, por onde vá. Não sei se ouvi o que precisava e queria ouvir ou se, por extrema bondade de Meu Pai, Ele consentiu que minha mãe me ninasse e acalentasse. Só sei que , desde então, por nenhum momento senti mais sua ausência. Ela está perto, ao alcance de minha saudade e de meu amor. Assim também aconteceu com meu filho, quando ele se foi, tão antes da hora. Sou uma pessoa de sorte: tenho no céu muitos amigos e dois poderosos anjos da guarda, além daquele que me foi dado de nascença. Carinhoso abraço.
Hila Flávia,
Muito bonito o seu comentário sobre o “aviso” tido com sua mãe.
Esta é que é a autêntica verdade: mesmo falecidos, os entes queridos não são esquecidos, pelo contrário, de repente nos chegam, visitando-nos… E assim entre saudosos e realistas, temos de encarar a vida de cada dia.
Abraços,
Paulo.