E haja feriado! – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 28 de novembro de 2009 0:05

Hoje eu estava lendo as notícias do Brasil pela internet e uma coisa me intrigou: tava lá escrito que os paulistas se preparavam para o feriadão. Ainda que eu não consiga entender qual a graça em ter três dias livres seguidos e gastar dois deles presos em engarrafamentos, na ida e na volta, para um refúgio qualquer, seja na praia ou no campo, e quando finalmente chegam, nem têm tempo de desarrumar o carro e curtir o lugar, pois já está na hora de voltar, deixei isso de lado (cada louco com sua mania), parei e tentei me lembrar do que se tratava, até com certo desespero, já que nenhuma data conhecida me vinha à cabeça.

Comecei a pensar: “será que eu já estou tão desligado do Brasil assim?”. Com o auxílio do google eu descobri: dia 20 de novembro – dia da consciência negra. Já tinha ouvido falar sobre a sua importância e o que representava, mas não sabia que era feriado, mais um.
Depois daquele inevitável comichão, comecei a me questionar e pesquisar se o Brasil é mesmo, como todo mundo imagina, inclusive eu, o país com mais feriados no mundo. Quem pensa assim, e olha eu aqui de novo, como dizíamos no meu tempo de criança: “golou o ovo” (aqui entre parêntesis, alguém aí sabe o que essa expressão significa? Só sei que é usada quando alguém pensa numa coisa, mas está completamente errado. Bom, focando novamente no texto…). Há lugares com muito mais datas comemorativas do que a minha querida terra natal.
Até mesmo os Estados Unidos, com aquela conversa fiada de que é a nação que nunca dorme, tem mais dias festivos do que nós. Para vocês terem ideia, os caras têm até um tal de “Tax Day”, comemorar imposto… é coisa de gringo xarope ou não é?
E quando a gente sai pesquisando sobre o resto do globo, vai se dando conta de que não somos tão folgados assim. Só para matar a curiosidade de alguns, a Indonésia é quem tem o maior número de feriados com uma média de 17,8 ao ano, ao passo que a Estônia é quem tem menos, com apenas 6.
Nesse aspecto, o que conta em nosso desfavor é que somos um povo que não desperdiça uma chance sequer para fazer festa. Carnaval (pré, pós, em época e fora de época…), páscoa, São João, natal e muitas mais. O que ninguém observa é que, no dia seguinte, ainda que ajudados por uma ducha fria e uma xícara de café quente e sem açucar, estamos de volta ao trabalho, firmes e fortes, ou o mais próximo disso.
Mas é aquela velha história: depois de criada a fama, fica difícil reverter. Um exemplo clássico disso são os baianos. Nunca mais vão se livrar do estigma de que só trabalham dias de terça, quarta e quinta (se nenhum deles for feriado ou dia santo, obviamente). Já até tentaram ensaiar um protesto de âmbito nacional contra essa imagem distorcida de que eles são preguiçosos e que só querem saber de festas, mas desistiram por ver que ia ser muito cansativo e que algumas manifestações cairiam nos dias de ensaio do Olodum. Não fosse o bastante, eles acreditam que se o horário de Brasília serve como hora padrão para todo o Brasil, porque com a jornada de trabalho dos políticos não pode acontecer o mesmo?
Outra coisa interessante que eu vi sobre o Brasil foi a história de que, agora, é possível mudar os feriados de dia para criar os conhecidos feriadões. Para quem ainda não sabe, foi aprovada uma lei onde, tirando-se o ano novo, natal, páscoa, carnaval, independência e república, todos os outros (que, em verdade, não são poucos), quando caírem num dia do meio da semana, serão trasnferidos para a segunda-feira anterior ou para a sexta-feira subsequente, pois alegaram que o comércio estava sendo prejudicado. O interessante é que, segundo eu pude descobrir, o primeiro feriado de que se tem notícia aconteceu no ano 2000 a.C. e só se deram conta disso agora.
Aqui no Timor, a coisa é, de certa forma, aperfeiçoada: se o feriado cair num dos dias do final de semana, é trasnferido para a segunda-feira posterior. Ora, se o dia já era livre por questões “calendarísicas” não tem a menor graça em folgar, não é mesmo? Estou pensando em exportar o know-how para a nossa terra brasilis, quando eu voltar.
Fazendo um aparte, só é uma pena que para nós que trabalhamos na Polícia da ONU a coisa não funcione assim, trabalhamos de domingo a domingo, podem acreditar, independentemente de feriados ou dias santos, e folgas só a cada 21 dias, no mínimo.
Voltando ao assunto, não bastassem os feriados, feriadões, emprensados e et ceteras, ainda temos o tal do ponto facultativo e, dia desses, um colega do Japão veio me perguntar de que se tratava. Eu pensei, pensei, e o melhor que eu consegui dizer foi o seguinte: “ponto facultativo é aquele dia em que você pode ir trabalhar, se quiser, mas, se for, vai ter que voltar pra casa porque ninguém foi, nem mesmo a pessoa que abre os portões da repartição”. Não sei se me fiz entender, já que o japa fez uma cara como se estivesse ainda mais intrigado, agradeceu e não tocou mais no assunto.
Porém tenho que admitir: feriado é bom e eu gosto. E se for prolongado então… E por isso eu engrosso o côro daqueles que defendem que 2015 seja “emprensado”. Nada mais justo, 2014 tem as Olimpíadas, 2016 tem a Copa do Mundo, 2015 tem que ser de descanso, senão ninguém aguenta. Eu mesmo já estou precisando…
Pra finalizar, eu peço a qualquer um de vocês que tiver um calendário atualizado com todas as datas comemorativas e festivas brasileiras, enfim: feriados em geral, não importando que sejam conhecidos, desconhecidos, tradocionais ou não, favor enviar ao meu e-mail. Ah, de preferência em horário comercial, eu também não sou de ferro.
Do Timor, com carinho,
Gus
Dili, 19/11/09

Augusto Vilaça tem 33 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?
Todas as segundas com uma novidade no Blog Notícias de Muito Longe: http://aavs1976.wordpress.com

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3 comentários para “E haja feriado! – Augusto Vilaça”

  1. GUTIERRITOS disse:

    GUS

    Podes não acreditar, mas feriado para mim é uma chateação terrível. Salva-no apenas a oportunidade para a reunião familiar. Fora isto, nem a TV nos oferece uma boa programação.

    O que fazer ?

    Talvez ouvir música.

    Antes ficava fazendo poesias, textos, contos, pesquisando, mas agora com a Alma um pouco paralisada, estou apenas fazendo comentários, pois não obtive, ainda, luz verde para escrever meus textos.

    Então, até que temos uma boa notícia – o Brasil não é tão dado a feriado.

    Ah, no dia da Consciência Negra, em minha cidade, não foi feriado – é um feriado municipal, decretado, assim, em cada município, que tem autonomia para isto.

    Em Dois Córregos – onde moro – há apenas quatro feriados municipais. Um é a sexta-feira santa – feriado municipal em todo Brasil, um feriado municipal que virou nacional. O outro é o aniversário da cidade, no dia 04 de fevereiro. Também é feriado municipal o religioso, com data mutável, dedicado ao Corpus Christis. E o finados, no dia 02 de novembro – também um verdadeiro feriado nacional.

    Portanto, minha cidade gosta muito de trabalhar.

    Comemora as datas, nas escolas, nas igrejas, nos centros comunitários, etc., mas trabalha.

    Temos os feriados federais e um estadual.

    Ah, esqueci: a grande coisa no feriado é que a Cidinha manda brasa em um churrasco bom demais.

    Ah, por sinal, acabei de sair de um deles.

    Estava demais.

    Quer um pedaço?

    Se der tempo, pode vir que eu guardo meio quilo pelo menos.

    Um bom sono e um alegre despertar, aí no Tímor.

    Se não estiveres em uma boite, dançando, deves estar dormindo.

    Então,antecipadamente, um bom dia.

    Augusto Vilaça respondeu:

    @GUTIERRITOS, Ultimamente eu não sei mais nem o que pensar sobre os feriados. Como eu disse, para nós a coisa não funciona.

    Por outro lado, como trabalhamos direto (igual a “cantiga de grilo”, como se diz na minha região), precisamos de folgas para aliviar um pouco o estresse, senão…

    É fato que os feriados são interessantes como forma de quebrar a rotina de trabalho e dar um alívio nos problemas cotidianos, agora certas manobras são pura forçada de barra. Essa mesmo de mover um feriado do sábado ou domingo, que já são dias “livres”, para a segunda-feira é demais. Se fosse na tropa a gente ouviria: “azar militar!”. Se bem que isso me fez pensar em outra coisa: tenho 16 anos como policial e nunca ouvi falar na “sorte militar”, será que existe? Bom, acho que isso é assunto pra uma outra conversa…

    No mais, a noite de ontem foi tranquila e hoje teremos churrasco, estão convidados a provar o nosso “traquejo” e ver se deixa a desejar em relação ao da sua esposa-companheira-chef particular.

    Abração, obrigado pelo comentário e volte sempre (não esquecendo de trazer seus textos)

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça

    GUTIERRITOS respondeu:

    @Augusto Vilaça,

    GUS

    O churrasco tá cheirando daqui.

    Acho que é contra-filé.

    Só pode ser.

    Bom almoço.

    

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