Os Kaxixós - Terezinha Pereira Quando o amor chega - Lu Dias



out 29

Somos todos cegos. Saramago tem absoluta razão ao colocar todo mundo sem visão alguma do que é essencial. Mas tinha de deixar uma pessoa enxergando, para que o caso pudesse ser contado. Senão, como saber do tamanho de nossa ignorância, da abissal estupidez dos motivos dos conflitos e da imensurável irracionalidade das manifestações sensoriais dos humanos.

O filme, tal como o livro, é de uma pungência que chega às raias do insuportável. Em muitos momentos tive vontade de gritar, de manifestar meu repúdio, de falar alto, mas me contive em um choro ao mesmo tempo desesperado e calado.

O autor da história, José Saramago, escritor português que conquistou meu respeito e admiração desde o primeiro texto que li dele, não tem contemplação com o gênero homem. Não perdoa. Põe a nu e sem nenhum disfarce toda a enorme fragilidade e toda a necessidade que tem o homem de disfarçar tal fragilidade com a violência, a crueldade, a insensatez e os desmandos. Já quanto ao gênero mulher, ele é respeitoso e admirador. É uma única mulher que enxerga tudo, que vê tudo e não julga ninguém. Ela compreende, é solidária, carrega o mundo nas costas, suporta as mazelas alheias, é companheira acima de tudo. E, apesar disso, ainda é cobrada como fêmea, quando a situação era a sobrevivência a cada momento, justamente pelo homem que ela tanto amava que o acompanhou na cegueira e na loucura do desterro. Esse aspecto foi o que mais me marcou na narrativa.

Assisti ao filme já sabedora da história. Mas uma coisa é ler e outra é ver. A visão amplia a dimensão dada pela imaginação e pela narrativa. O medo que assola a população é de uma primariedade absurda. Não se questiona a causa, pune-se a conseqüência. Afastar o atingido pela doença adormece a consciência. Dá a ilusão de salvaguarda. É como se dizer: o contagiado está segregado, estou seguro. O assassino está preso, estou a salvo. O ladrão está na cadeia, posso abrir a porta. Logo se descobre que todos são os contagiados. Não há como isolar todo mundo nem como destrancar as portas dos que foram confinados e deixados esquecidos à deriva. Não ficou mais ninguém para abrir as portas, a não ser uma única mulher que enxergava. Apenas duas pessoas eram sabedoras disso. E a mulher guiou quem a seguiu. Guiou quem confiou nela.

Uma vez, há muitos anos, um vizinho me perguntou, numa conversa entre amigos, o que eu desejava para meus filhos, quais eram meus sonhos em relação a eles. Ao responder, vi nos rostos das pessoas que estavam por perto um olhar de desdém, mesmo um riso de deboche. Na sala de cinema me lembrei desse episódio com muita força. Veio-me à memória como se acontecido recentemente, pois na época respondi que desejava aos meus filhos não faltar o suficiente para uma vida em harmonia com a natureza, água quentinha para um banho gostoso, cama limpa para dormir, comida para uma alimentação saudável. Que tivessem filhos que amassem e por eles fossem amados. Que, principalmente, tivessem sempre em mente a gratuidade das bênçãos que recebiam em todos os momentos da vida, a começar pelo dom de suas próprias vidas. E que tivessem a honra de ganhar seu sustento com o trabalho de suas mãos. Tudo o mais lhes seria dado por acréscimo e do acréscimo de talentos lhes seria cobrada uma boa administração.
Não conheço o coração de José Saramago. Conheço suas palavras e seu talento. Mas posso interpretar o que leio dele. Posso aferir o recado de um dos maiores diretores de cinema do mundo, o brasileiro Fernando Meirelles. Posso dar minha visão de uma obra de arte. Para isso é que serve a arte, para que cada um tire dela o que sentir, o que chega até sua percepção. É uma questão puramente subjetiva.

O que me passou o extraordinário filme Ensaio sobre a cegueira é a necessidade urgente de retornar à simplicidade. O que importa na vida é tão pouco, mas tão pouco que não se aceita. Toda a decorrência dramática dos males narrados vem da sedução do poder, do desrespeito pelo ser humano como filho de Deus, do esquecimento da fraternidade e da solidariedade que, mesmo em situações de extrema e igual miséria, fazem com que alguns sintam a volúpia do domínio e do desmando, para lhes garantir a ilusão da imortalidade e disfarçar o medo.

No entanto, uma mulher via tudo. Guiava quem a seguia e esmagou a cabeça da serpente, começando a redenção.

Para bom entendedor…

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Publicado por Hila Flávia \\ tags:

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4 comentários para “Ensaio sobre a cegueira - Hila Flávia”

  1. lu dias Bh disse: Reply to this comment

    Hila

    Que bom saber que há alguém que compactua comigo, Dessa minha raiva santa contra o massacre do corpo e da alma feminina aqui e em vários lugares do mundo.

    Por que a mulher é sempre tão sofrida e tão cobrada, como se fosse responsável pelos desenganos do mundo?

    Por favor, veja a última poesia que fiz, após ler o livro CARTAS DE HERAT.

    Também sou assim! Há momentos em que a indignação arrebata-me e se não desfaço o nó, morro engasgada.

    Também gosto do José Saramago. Grande figura humana!

    Permita-me citar aqui a passagem mais linda do seu texto:

    “… é a necessidade urgente de retornar à simplicidade. O que importa na vida é tão pouco, mas tão pouco que não se aceita. Toda a decorrência dramática dos males narrados vem da sedução do poder, do desrespeito pelo ser humano como filho de Deus, do esquecimento da fraternidade e da solidariedade que, mesmo em situações de extrema e igual miséria, fazem com que alguns sintam a volúpia do domínio e do desmando, para lhes garantir a ilusão da imortalidade e disfarçar o medo.”

    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  2. Terezinha disse: Reply to this comment

    Hila,

    Ensaio sobre a cegueira foi o segundo livro de Saramago que li. Havia livro o Evangelho……, que não me chamou muita atenção.
    Depois desse ensaio, não perdi mais nenhum Saramago. Fiquei encantada com o ser humano Saramago, quando ele esteve no Brasil, após o Nobel e deu diversas entrevistas. Até escrevi um conto, após assistir a uma dessas entrevistas. O título: Transplante pirata. Deve aparecer no blog por esses dias.
    Gostei muito do que vc. disse sobre o ensaio sobre a cegueira ( ou ensaio sobre o mundo de hoje!…)

    Abraços
    TT

    [Resposta]

  3. Dirley disse: Reply to this comment

    Hila Flávia,
    Saramago, universalizado, consagra-se com obras maravilhosas, ainda que com temas aviltantes e deprimentes, aí você vem e em seu ensaio: adiciona, discorre, esclarece, especifica o insuportável, ressalva o admissível, desencanta e encanta.
    Seu ensaio, brinca com minha potencialidade de escrever, assim como super dotados possam divertirem-se com primatas. Neste âmbito de literatura, e certamente noutros, fico no meu espaço se comparativo for, tendo que é melhor, valer-me sim, de analogias, para alcançar você.
    Fui rever a coluna “categorias” deste site do Paulo e, nossos nomes, em ordem alfabética, estão na mesma relação. Estou motivado e muito orgulhoso.
    Dirley.

    [Resposta]

  4. Ana Lucia Timotheo da Costa disse: Reply to this comment

    Hila,
    Texto maravilhoso! Parabéns! O ser humano que se despe da visão é capaz de não julgar. E quem não julga tem tempo para amar e compartir. O meu abraço. Ana

    [Resposta]

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