Esquina da fatalidade – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 7 de outubro de 2009 10:54

1
Roberto está satisfeito e sorrindo para Nete, sua esposa:
- Nega eu vou indo.
Ela também sorri, aquiescendo:
- Vai com Deus.
Ele baixa a cabeça (hábito seu de assim se mover) e abrindo o
portãozinho desce a rua estreita, em sentido à outra, embaixo.
O sol mal nascido de verão, no céu azul, de resumidas nuvens. Nas
residências circunvizinhas o silêncio da madrugada ainda não foi
quebrado pelo agitar ininterrupto do cotidiano do bairro pobre, de
operários.
Nete suspira baixinho, reentregando-se à realidade:
- Que o Pai o proteja nesse seu primeiro dia de emprego.
Retrocede ao interior da casa e se prende aos afazeres domésticos, com
a sensação boa no peito, na esperança de que com o Roberto outra vez
trabalhando, tudo agora dê certo, a vida de ambos aos poucos se
normalize.
Cantarolando uma marchinha antiga (forma de expandir o estado d’alma)
estende a coxa, ajustando-a à cama.

2
O ônibus distancia-se.
Roberto, o novo cobrador, recebe as passagens e passa o troco.
- Certo.
Diz o sujeito moreno empurrando a borboleta, passando.
A senhora gorda também paga a corrida e, com dificuldade empurrando a
borboleta adianta-se.
Roberto tem a atenção ao movimento da condução. Que bom voltar a
trabalhar! Seis meses desempregado…
- Esse ônibus vai pela João de Barros?
Indaga a mocinha morena, graciosa sobraçando os livros.
- Passa sim.
Responde Roberto.
Entregando-lhe o vale-transporte a colegial passa.
À frente, o motorista tem a atenção fixa ao vidro dianteiro, preso à
responsabilidade da profissão.
À esquina, a próxima parada.
O ônibus vence a avenida ainda sem o tráfego congestionado do novo
dia. Às laterais vão ficando as residências com os pedestres
caminhando nas calçadas. Nos morros por trás dessas, descendo as
escadarias estreitas, longas, se vêem os moradores em direção as
paradas dos coletivos que os conduzirá ao trabalho.
A condução estaciona.
As portas se abrem. Passageiros saltam. Outros sobem e de repente, a
voz gritada, alarmando:
- É um assalto! Todo mundo quietinho, que o meu colega vai fazer o
“rapa”. Botar o celular e a carteira dentro do saco.
Diz o adolescente alto, magro, negro, e o segundo, um brancoso, com o
saco aberto recolhe os objetos dos passageiros mudos ante a violência
da cena, enquanto um terceiro jovem aproxima-se do motorista e lhe
encosta a arma na fonte.
O que comanda o assalto então se avizinha da borboleta:
- Vai cobrador, a grana!
Roberto sente o suor na testa, que desce pelas faces frias. As pernas
tremem. As mãos também. Procura obedecer, apressando-se.
- Bora cobrador!
A voz grossa, gritada, outra vez ameaçando. Roberto abre a gaveta e
busca recolher as cédulas, contudo, devido ao estado emocional,
retarda a ação e, nervoso, o outro julgando que ele tenta buscar a
arma, então, dispara duas vezes. As balas atravessam Roberto, que se
envergando, cai com o rosto sobre a gaveta semi-aberta.
Então estendendo a mão livre da arma, o delinqüente recolhe as
cédulas, sem mesmo evitar o contato com a face sem cor.
- Vamos pirar irmãos!
A nova ordem e aos três assaltantes apressados abandonam o coletivo.
Na calçada, encaminham-se a rua à direita e subindo-a se perdem numa
de suas transversais.
- O cobrador tá ferido!
- Santo Deus é muita violência.
- A gente sai de casa sem saber o que vai acontecer…
Comentários nervosos, dos passageiros que aos poucos, se reentregam a
realidade. E os olhos dançam nas faces pálidas, numa indagação muda.
Procurando se auto-controlar, então o motorista se ergue da cadeira e
achega-se ao cobrador, que tem o peito e as costas vermelhas do sangue
que brota com força.
- Porra! A bala atravessou o rapaz.
Aí numa resolução prática, retira o celular do bolso das calças e
disca, tomando as primeiras providências.
Os passageiros estão novamente calados, irmanados no mesmo silêncio da
terrível perplexidade.
Roberto devagar desperta e geme baixinho.
- O cara tá se acabando aqui. Venha logo cara!
Solta outro palavrão e foge a vista, fugindo do rosto do cobrador
ainda sobre a gaveta estreita, meio aberta. E sente o coração pulsar,
angustiado, dentro da própria impotência. Espera.

3
Uma das balas atingiu a espinha dorsal e em conseqüência, Roberto se
encontra paraplégico, apenas movendo a cabeça, o tronco e os braços.
As pernas estão mortas… Em silêncio, resigna-se à fatalidade que lhe
esperava naquela parada da esquina, contudo, de repente as lágrimas
descem-lhe pelas faces cadavéricas, amareladas.
Nesses instantes, Nete desvia a vista, não querendo vê, fugindo ao que
não pode dar jeito. E se fazendo de forte se avizinha.
- Seu café, Roberto.
As mãos de dedos magros, trêmulas se estendem para receber a bandeja.
Lá fora, o sol brilha sobre as residências, as escadarias, os
moradores, os veículos, os pedestres, em sua eterna missão de tudo
agasalhar.
Ao lado da cadeira de rodas, a mulher solidária, boa companheira,
aguarda que o marido termine a refeição.
Espera. Contendo-se…

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10 comentários para “Esquina da fatalidade – Paulo Valença”

  1. Lu Dias BH disse:

    Paulo Valença

    Você deve ter uma profissão muito voltada para o ser humano.
    Ou seja, o objeto de seu trabalho deve ser gente.
    Pois o seu amor pelo homem é visível nos seus textos.
    Um amor cheio de generosidade e compaixão.

    Mas, também, está presente a tragédia.
    Realidade que acompanha o nosso viver.
    De certa forma, ao colocar os revezes da vida de uma forma tão normal, você não deixa de nos mostrar que isso também faz parte da existência, quer queiramos ou não.

    Roberto pleno de entusiamo.
    Nete cheia de esperanças.

    Mas…

    Na vida há sempre um MAS.
    Na vida há sempre um SE.

    Parabéns pelo lindo conto, extremamente humano.

    Beijos no coração,

    lu

  2. Ana Lucia disse:

    Paulo Valença,
    Seus contos são de uma atualidade que sangra. Porque são muito verdadeiros. Infelizmente o que mais se vê é este tipo de fatalidade. E isto acovarda. Hoje em dia a gente, para enfrentar a vida, tem que ter dose dupla de coragem. Sua lente capta casos com extrema sensibilidade. Parabéns! Um abraço. Ana

  3. Lu Dias BH disse:

    Paulo

    Vixe Maria!
    Onde anda esse menino que não responde os recados da gente?

    Abraços,

    lu

  4. Paulo Valença disse:

    Lu,
    Você além de ser uma ótima poetisa e escritora, também se destaca como uma colega fraternal, o que me faz portanto, mais uma vez lhe agradecer as palavras de estímulo ao que escrevo. Obrigado.
    Abraços,
    Paulo.

    Lu Dias BH respondeu:

    @Paulo Valença,

    Paulo

    Sou muito agradecida pelo carinho que recebo neste blog.
    Tenho conquistado, aqui, amigos maravilhosos.
    Apenas retribuo a fraternidade com que me presenteiam.
    Além do mais, como disse a Aninha, a sua lente é generosa ao captar as desditas humanas.

    Grande abraço,

    lu

  5. Paulo Valença disse:

    Ana,
    É como já afirmei, escrever para depois receber a opinião de colegas à sua semelhança é muito gratificante, é estímulo para que continue escrevendo, daí emocionado, repito: Obrigado.
    Abraço,
    Paulo.

  6. Jovimari disse:

    Paulo,

    Lindo seu texto e cheio de sensibilidade.

    A vida brinda com fatos todos os seres. Triste é que os atos podem ferir…

    Beijo!

  7. Paulo Valença disse:

    Jovimari,
    “Triste é que os atos podem ferir”…
    Nessa poética frase, você diz tudo, sintetiza o meu texto e, por isso, mais uma vez lhe admiro e lhe sou grato.
    Abraços,
    Paulo.

  8. GUTIERRITOS disse:

    PAULO

    Tens muita sensibilidade, voltada sempre a percepção dos dramas que todos podemos passar.

    Lindo texto.

    Parabéns.

  9. Paulo Valença disse:

    GUTIERRITOS,
    Obrigado pelo comentário que, como sempre, em resumidas e inteligentes palavras diz tudo.
    Abraço,
    Paulo.



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