Falando de carnaval – Gutierritos-SP
MARCHINHAS DE CARNAVAL
O TEU CABELO NÃO NEGA E LINDA MORENA
No último texto que fiz nesta série de Músicas Inesquecíveis, destaquei No Rancho Fundo, resultante de uma parceria dos monstros sagrados da música popular brasileira, Ary Barroso e Lamartine Babo.
Na matéria, fiz um breve escorço sobre Lamartine – um compositor excelente – que deixou um legado sensacional, lembrado quase diariamente em todos os meios de comunicação, tantos foram seus sucessos que restaram indeléveis na memória de nosso povo.
E naquele texto, falei de várias composições de Lamartine, mencionei várias marchas.
Entre elas, o Teu Cabelo Não Nega, que foi um notável sucesso, mas soou como preconceituoso o verso, “ mas como a cor não pega, mulata …”
O TEU CABELO NÃO NEGA
Lamartine Babo-Irmãos Valença, 1931
O teu cabelo não nega mulata,
Porque és mulata na cor,
Mas como a cor não pega, mulata,
Mulata, eu quero o teu amor
Tens um sabor bem do Brasil,
Tens a alma cor de anil.
Mulata, mulatinha, meu amor,
Fui nomeado teu tenente interventor.
Quem te inventou meu pancadão,
Teve uma consagração,
A lua te invejando faz careta
Porque mulata tu não és deste planeta.
Quando meu bem vieste à terra,
Portugal declarou guerra,
A concorrência então foi colossal,
Vasco da gama contra o batalhão naval.
Realmente, com muita sutileza, de forma quase imperceptível, apenas suscetível às pessoas mais sensíveis e preocupadas com o preconceito, o verso traz à lume o racismo existente, na época, em relação aos negros, estes que há algumas décadas haviam se libertado da escravidão que vergonhosamente existiu em nosso País.
Esse racismo – de forma violenta – alastrou-se até a década de cinqüenta, quando começou, de fato, a ceder, embora ele, ainda, imperdoavelmente exista em nosso meio, ferindo a dignidade humana.
No finalzinho da década de quarenta e início dos anos cinqüenta do século passado, ainda menino, lembro-me que, na minha pacata cidade, aos sábados e domingos, o trânsito era fechado no quarteirão central, para a reunião da população, evitando o incômodo pela passagem de veículos.
Freqüentavam aquele local, na grande maioria, jovens, para flertar, na busca de namoros e encontros, sendo que os moços se posicionavam na pista e as moças nas calçadas.
Pois bem: havia uma calçada, mais curta, à direita de quem desce a via pública para os negros e a calçada, à esquerda, muito mais larga, para os brancos. Essa situação era respeitada e tida como quase natural, o que hoje estaria nos chocando de forma drástica.
Ainda, recordo-me que havia um clube, simples e rude, para os negros e outro, com muito luxo, para os brancos. No clube dos brancos, o negro era impedido de entrar, mas os brancos tinham todo o direito, embora o evitassem, de ingressar naquele destinado aos negros.
Situação curiosa ocorria nos bailes de carnaval, quando na segunda-feira, como uma tradição, talvez um sinal de tolerância, era comum os negros, em determinada hora do baile, saírem de seu clube em bloco e entrarem todos no baile dos brancos, dançando todos juntos, por uma hora aproximadamente.
Um momento de trégua para o preconceito, mas um momento de rara beleza, quando eram esquecidos este horrível sentimento, para sentirmos que somos todos irmãos, seres humanos igualmente.
Depois, os negros se retiravam e retornavam ao seu clube.
Então, o verso de Lamartine e dos Irmãos Valença, na época, foi tomado com muita naturalidade – embora hoje nos choca e até nos revolta.
Era comum ainda frases terríveis, que não as irei colecionar aqui, por respeito aos nossos irmãos brasileiros negros, que sofreram e bastante com o preconceito e o racismo intolerável. E essas frases eram ditas , com naturalidade, como se fossem normais e nelas não houvessem nenhuma ofensa.
A partir da década de cinqüenta, o preconceito começou a ceder, embora ele, ainda, vergonhosamente exista em nosso meio.
Contei como foi o começo da década de cinqüenta, imaginem o que rolava nos anos trinta. E esses versos preconceituosos e odiosos “ como a cor não pega “, feitos no carnaval de 1931, foram cantados, renita-se, infelizmente, com muita naturalidade.
Na verdade, na composição desta música, também participaram os Irmãos Valença, o que não diminui a pisada na bola de Lamartine.
E, no ano seguinte, em 1932, Lamartine, acredito, tentou contornar a situação e se redimir deste trágico erro que marcou sua carreira artística.
E fez uma nova marchinha, um novo e retumbante sucesso.
A marchinha, agora, com versos muito ternos e afetuosos, afastando a palavra mulata, utilizada, indubitavelmente, de forma pejorativa e vulgar em 1931, para tratá-la, agora, carinhosamente, como morena.
Simplesmente, Linda Morena. E foi uma marcha carnavalesca que estourou nas paradas de sucesso, no carnaval de 1932.
Vejam que maravilha:
LINDA MORENA
Lamartine Babo, 1932
Linda morena, morena,
Morena que me faz penar.
A lua cheia que tanto brilha
Não brilha tanto quanto o teu olhar.
Tu és morena, uma ótima pequena,
Não há branco que não perca até o juízo.
Onde tu passas
Sai às vezes bofetão,
Toda gente faz questão
Do teu sorriso.
Teu coração é uma espécie de pensão,
De pensão familiar à beira-mar.
Oh! Moreninha, não alugues tudo não,
Deixe ao menos o porão pra eu morar.
Por tua causa já se faz revolução,
Vai haver transformação na cor da lua,
Antigamente, a mulata era a rainha,
Desta vez, ó moreninha, a taça é tua.
Ouçam o Teu Cabelo Não Nega e que quebra, outras lindas marchinhas, como o Remador, Aurora, Eu Quero, Jardineira.
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Gutie
Além de nos falar sobre as marchinhas de carnaval, você nos dá uma bela aula sobre o racismo em certa época da história país.
Eu nunca havia atinado para essa frase, na música, pois, já a ouvi algumas vezes.
Embora os compositores divinizem a mulata, fica bem claro que a sua cor não é desejada, na época.
“O teu cabelo não nega mulata,
Porque és mulata na cor,
Mas como a cor não pega, mulata,
Mulata, eu quero o teu amor”
É incrível notar, como um único verso, dentre 20 versos, foi capaz de dar um sentido extremamente preconceituoso à marchinha.
Ainda bem que, Lamartine Babo, com a sensibilidade que sempre lhe foi peculiar, foi capaz de se redimir com Linda Morena.
Se, fosse nos dias de hoje, poderia ter mexido somente no verso rebelde.
Pois ser mulata é um prêmio.
Como são lindas as nossas mulatas.
O Carnaval que o diga!
Parabéns pela riqueza do texto.
Abraços,
lu
GUTIE respondeu:
janeiro 17th, 2010 at 19:52
@Lu Dias BH,
LU DIAS
Todo texto tem muito que ser entendido dentro do contexto da época.
E na época – existente um terrível racismo – não era incomum expressões preconceituosas como esse trecho da poesia de uma música e letras que poderiam ter sido lindas, demasiadamente lindas.
Mas não o foram.
Linda Morena foi uma música que penso – já no carnaval seguinte – redimiu Lamartine para a história.
Todavia, o seu efeito, talvez, tenha sido entre artistas, onde havia numerosos netros, mas não teve qualquer consequência para a época.
Ninguém naquele tempo se importava, tanto que, em 1933, ou seja, no ano seguinte, Braguinha fez o grande sucesso carnavalesco daquele ano, a marcha Linda Lourinha, que me parece ter sido uma resposta dele, Braguinha, a Lamartine, destronando a moreninha.
Note os versos ” desta vez, em vez da moreninha, será a Raínha de nosso carnaval ”
Linda Lourinha:
Lourinha, lourinha
Dos olhos claros de cristal
Desta vez em vez da moreninha
Serás a rainha do meu carnaval
Loura boneca
Que vens de outra terra
Que vens da Inglaterra
Ou que vens de Paris
Quero te dar
O meu amor mais quente
Do que o sol ardente
Deste meu país
Linda loirinha
Tens o olhar tão claro
Deste azul tão raro
Como um céu de anil
Mas as tuas faces
Vão ficar morenas
Como as das pequenas
Deste meu Brasil ”
Viu como este campo é extenso. Música, cultura, arte, questões sociais, seres humanos envolvidos. Temas envolventes e apaixonantes.
Obrigado por teus comentários.
Gutie querido,
Você está de parabéns! Tenho tido muito prazer com as suas aulas e ainda relembrado mamãe cantarolando isto tudo. Obviamente O teu cabelo não nega eu brinquei muito carnaval ouvindo. As outras também. Beijo. Ana
gutie respondeu:
janeiro 18th, 2010 at 12:35
@Ana Lucia,
ANA LÚCIA
Na verdade, vivi em parte muita coisa que escrevo.
No demais, vou pesquisando e mostrando a beleza de nossa cultura e, muitas vezes, também suas tristezas, como o preconceito existente nesta música linda e tão cantada por todos, sem se perceber, inclusive, as letras.
E elas as letras – muitas vezes – maravilhosas, como Linda Morena, outras se mostram ou revelam a moral, os costumes e mazelas de uma época.
Obrigado por teus comentários.
Oi, Gutie
Diante dessas descrições chocantes eu me sinto feliz por ter vivido numa cidade do tamanho do Rio de Janeiro, e com a miscegenação nela existente. Claro que havia racismo, esse sentimento abominável, mas era individual e muito discreto. Não lembro de me defrontar com episódios ou segregações tão claramente visíveis como esses descritos por você.
Abraços
Manoel
GUTIE respondeu:
janeiro 19th, 2010 at 20:23
@manoel.rodrigues,
MANOEL
Minha cidade – ou melhor – a minha região, no interior do Estado de S.Paulo era – precisamos deixar claro que foi e hoje não mais o é, uma cidade muito conservadora.
As terras existentes eram grandes latifúndios e havia muitos europeus.
A miscigenaçã não era, realmente, uma prática e a separação entre as raças era muito visível.
Estou falando de minhas lembranças de infância, no finalzinho da década de 40 e na década de 50.
O racismo, infelizmente, nas décadas de 30 e 40, mesmo nos grandes centros, existiu e era muito bem visível, embora nas populações com menores poderes aquisitivos, este sentimento era mínimo, principalmente, como dissestes, face à miscigenação.
Manoel, graças a Deus, este quadro dramático não mais existe. Entretanto, há ainda muito preconceito, que devemos estar atentos e combatê-lo.
Obrigado por teus comentários.