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	<title>Alma Carioca - Contos e Crônicas</title>
	
	<link>http://www.almacarioca.net</link>
	<description>Literatura brasileira</description>
	<pubDate>Thu, 04 Dec 2008 16:38:43 +0000</pubDate>
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		<title>Estilhaços de Babel - Convite</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Dec 2008 16:38:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Dica Cultural]]></category>

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		<description><![CDATA[
 
Prezado leitor,
Temos o prazer de convidá-lo para a festa de lançamento do Estilhaços de Babel - Volume 2, de Érico Braga Barbosa Lima. O segundo volume do projeto Estilhaços de Babel (12.000 versos escritos sobre papel toalha, refletindo e ironizando a contemporaneidade de forma lírica / chã, filosófica / sarcástica, melódica / prosaica - em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_5283" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2008/12/convite.jpg"><img class="size-full wp-image-5283" title="convite" src="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2008/12/convite.jpg" alt="Estilhaços de Babel" width="500" height="349" /></a><p class="wp-caption-text">Estilhaços de Babel</p></div>
<p> </p>
<p>Prezado leitor,</p>
<p style="text-align: justify;">Temos o prazer de convidá-lo para a festa de lançamento do Estilhaços de Babel - Volume 2, de Érico Braga Barbosa Lima. O segundo volume do projeto Estilhaços de Babel (12.000 versos escritos sobre papel toalha, refletindo e ironizando a contemporaneidade de forma lírica / chã, filosófica / sarcástica, melódica / prosaica - em babel temática e estilística) virá a lume na quarta-feira dia 12 de dezembro, às 19h00, na livraria Letras &amp; Expressões do Leblon. O sarau musical e poético terá início às 21h00 com a presença de compositores, performers e amigos. Aguardamos sua presença e participação.</p>
<p>Cordialmente</p>
<p>Editora Antigo Leblon<br />
<a title="Estilhaços de Babel" rel="nofollow" href="http://www.antigoleblon.com.br" target="_blank">www.antigoleblon.com.br</a></p>
<p> </p>
<h2>O Bruxo do Leblon</h2>
<p style="text-align: justify;">Por que você, ó leitor, deve levar para o sossego do seu canto de leitura este livro que lhe convocou a abri-lo, a folheá-lo aleatoriamente e a dar uma espiadela em suas orelhas? E é engraçado como nós, os “ratos” de livrarias e bibliotecas, temos faro para o que nos interessa entre os inúmeros títulos e autores que se nos oferecem à vista, muito poucos ao tato. É uma espécie de magia, ao modo dos iniciados, à maneira dos bruxos.</p>
<p style="text-align: justify;">Que o mundo das palavras dispostas em sentido poético, e especialmente quando o mundo da realidade é terrivelmente exposto em sua crueza, como nas páginas destes Estilhaços de Babel, é um mundo de enigmas e decifrações do humano, que os iniciados compreendem, e os neófitos anseiam compreender. Pois este novo livro de Érico Braga Barbosa Lima, continuação (?) do primeiro volume de Estilhaços, é bruxaria das boas, que surpreende os primeiros pela alta dosagem de conhecimento dos usos e apetrechos da magia poética, e aos segundos, pela imensa alegria da revelação do humano. A todos nós, pela coragem na exposição do homem, consciente de si e do seu universo, e pela sabedoria poética na decifração da alma masculina em seus momentos de plenitude, que só a poesia é capaz de revelar. Bruxaria das boas.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois Érico Braga Barbosa Lima é um bruxo. É um bruxo do Leblon. Pois o Leblon é o seu espaço natural. Não o Leblon das celebridades da TV, mas o Leblon dos “lebloninos”, o Leblon das praias desde menino, das tardes chuvosas que lembram Paris, dos seus antigos, que caminham invisíveis pelas ruas do bairro aos silêncios dos que sabem as estórias, o Leblon das suas musas, elegantes e discretas, sempre muito lindas. O Leblon dos bares que são moda desde sempre, que não entram na moda ou saem da moda. Um Leblon feito das eternidades do humano em suas individualidades. Um Leblon feito de niilismos, mas um niilismo suave como o seu sol a se pôr&#8230; A compreender as noites&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Aos modos de Baudelaire, o poeta desses estilhaços vai tecendo a noite do homem com um radicalismo de assustar os incautos, os hipócritas, os medrosos, os afoitos, os consumidores de moda, os novos-nobres da velha corte luso-brasileira, os novos-acadêmicos, que não pensam, não lêem, não buscam, como Elliot recomendava, os seus próprios poetas, preferindo os nomes sagrados, que lhe rendem aprovação automática, financiamentos, mídias e mercados. Escritos que já nascem velhos, gastos, cansados, que nada revelam do homem brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas esse bruxo do Leblon, radical e contraditório, nesses seus niilismos que nada querem, para tudo querer, que tudo nega, de nada prescindindo, busca atingir o clímax máximo na afirmação da sua individualidade, do seu tempo e do seu espaço. Não se trata mais de derrubar ícones. Érico, impiedoso, bate em seres já derrotados, anjos caídos, aos pedaços, fragmentos. Sacode cada pedacinho dos “deuses do Olimpo” e grita, esbraveja: “Eu não disse? Vêem agora a (ao) que serviram? Nada!”.</p>
<p style="text-align: justify;">Seu simbolismo, materialista ao extremo, parte para a reconstrução, a ressurreição dos ícones fragmentados, a ressuscitá-los em deuses mais calejados. Pois Érico crê em seus deuses soterrados. Por isso, faz da sua poesia uma dialética permanente: com os mitos, os sociais, as gentes, consigo mesmo – sobretudo consigo mesmo, que é onde moram os seus deuses. Por isso que seu individualismo é método, nunca finalidade. Se em Estilhaços de Babel I, tal um Henry Miller caminhando para a sua Crucificação Encarnada, o poeta recorreu às dispersas energias sexuais, nestes novos estilhaços, ele recorre às fugidias energias intelectuais, para a todos nós revelar, revelando-se poeticamente. Para além das confissões, para além das maldições, a poesia desse bruxo do Leblon nos assusta e nos comove, convidando-nos a examinar as próprias almas aos próprios espelhos. Aos cacos, aos fragmentos, que nos são dados recolher.</p>
<p style="text-align: justify;">Paulo Bauler</p>
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		<item>
		<title>Cantoria - Nina Araújo e Vera Borato</title>
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		<comments>http://www.almacarioca.net/cantoria-nina-araujo-e-vera-borato/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 04 Dec 2008 10:39:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Araújo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Nina Araújo]]></category>

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		<description><![CDATA[Rapta o fascínio da lua
Em baldes de jorro alado
E verás que a dor amua
Num suspiro enamorado
Ele farta o rubor da rosa
Ele trota em grande euforia
Tão forte como a multidão ruidosa
Quando espera cantoria
Rapta o teor das almas
Como o compositor falaria,
E verás sauvas de palmas
Deste amor que só podia&#8230;
Deste amor que só podia&#8230;
Deste amor que só podia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Rapta o fascínio da lua<br />
Em baldes de jorro alado<br />
E verás que a dor amua<br />
Num suspiro enamorado<br />
Ele farta o rubor da rosa<br />
Ele trota em grande euforia<br />
Tão forte como a multidão ruidosa<br />
Quando espera cantoria<br />
Rapta o teor das almas<br />
Como o compositor falaria,<br />
E verás sauvas de palmas<br />
Deste amor que só podia&#8230;<br />
Deste amor que só podia&#8230;<br />
Deste amor que só podia !!</p>
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		<title>Vitória - Bruno Sousa</title>
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		<comments>http://www.almacarioca.net/vitoria-bruno-sousa/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 23:37:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Bruno Sousa]]></category>

		<category><![CDATA[Bruno]]></category>

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		<description><![CDATA[Aposto que tá bêbado. Domingo, quatro horas da tarde, só pode tá bêbado.
Ei, aonde você vai? Volta aqui, Edmundo! Seu ordinário, tava bebendo de novo no boteco do seu Jair, né? Futebol, futebol&#8230; Que importa o futebol? E o seu filho chorando no berço? Isso é que importa. Isso é o que importa sim, senhor! [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Aposto que tá bêbado. Domingo, quatro horas da tarde, só pode tá bêbado.</p>
<p style="text-align: justify;">Ei, aonde você vai? Volta aqui, Edmundo! Seu ordinário, tava bebendo de novo no boteco do seu Jair, né? Futebol, futebol&#8230; Que importa o futebol? E o seu filho chorando no berço? Isso é que importa. Isso é o que importa sim, senhor! Todo Domingo agora é isso, Edmundo: sai na hora do almoço, me deixa almoçando sozinha com os meninos, e só volta no fim da tarde! Isso quando volta, né! Isso quando volta e consegue chegar – atrasado – lá na fábrica. Se não se importa comigo, pense pelo menos nos seus filhos. É claro que não se importa comigo! Eu percebo: só pensa em futebol, amigos, cerveja, cerveja e cerveja, e mulher&#8230; Ah! Só pensa em mim! Não seja palhaço, Edmundo, acha que eu nasci ontem, é? Eu é que cuido da casa, dos seus filhos, faço sua comida, lavo suas roupas e ainda trabalho o dia inteiro lá na casa do Dr. Augusto, e sou eu que tenho que te agüentar bêbado? Vai encher seus amigos, então. Que é que eu fiz de ruim pra você? Faço tudo o que você pede, gosto de você, e é assim que me trata? Chego à noite cansada e ainda tenho que recolher toda a sujeira que você deixa, enquanto você dorme. Por sinal roncando igual a um porco! É, mas tô reclamando agora. Cansei dessa vida, Edmundo. Dessa vida de escrava, fazendo tudo pra você sem nem ouvir um obrigado. É esse o tipo de coisa que falta em você: educação, respeito, boa vontade. A única coisa que você sabe falar pra mim é “Desliga a TV”, “Traz a cerveja”, “Arruma o jantar”, “Joga uma água no fusca”. Não&#8230; Não é você que lava não, sou eu mesmo. Espantado? Por quê? Viu? Nem pra lavar o carro você serve. Sou sempre eu, eu, eu, eu. Sabe o que mais? Sempre quis ter uma moto igual ao do Sales, sim. Sempre. Mas nunca te disse pra te agradar, Edmundo, queria te ver contente com aquele seu fusca caindo aos pedaços. Como assim por que eu não disse antes? E isso por acaso ia fazer alguma diferença? Você não me ouve, não tá nem aí pro que eu quero! Compra amanhã então! Sem dinheiro, sem dinheiro&#8230;. É claro que tá sem dinheiro, gasta tudo com cerveja e com mulher! Só faltava essa agora, querer se fazer de santo a essa altura do campeonato! Devia é ter vergonha nessa sua cara, isso sim. Não vou parar de falar não, que é pra você saber&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Covarde! Covarde! Covarde, covarde, covarde, covarde! Filho da mãe! É a última vez que isso acontece, seu idiota! É a última vez que essa sua mão nojenta e asquerosa encosta em mim! Já aturei isso durante muito tempo. Só que fingia que era normal nas “brigas de casal”. Mas não é. Não é! Isso é covardia! Não teve pai não? Não teve uma mãe que te dissesse que é covardia bater em mulher? Não sabe falar, então bate! Sabe que tá sem a razão, então bate! Monstro! Desculpa&#8230; Que desculpa o quê! Não quero nem saber dessas suas desculpas falsas, inventadas, desculpas que amanhã, depois, ou depois, você já vai ter esquecido que disse. Sempre aceitei suas desculpas, na esperança de que fosse mudar, parar de beber, se dedicar mais a mim, à sua família, à sua casa. Tudo ilusão. Dezenove anos agüentando suas desculpas. Sempre fingindo que não era nada e&#8230; pronto! Tô melhor, bola pra frente. Dezenove anos da minha vida perdidos, vivendo e fazendo tudo, dando o melhor de mim para um&#8230; um monstro. Só espero que seus filhos não sejam isso que você é. Esse troço, essa brutalidade em pessoa. Nunca te disse, mas todas as vezes em que ia trabalhar com um roxo na cara ou no braço, ou com uma marca de ferro na perna, Dona Márcia me perguntava o que era, o que havia causado aquilo, toda desconfiada. É claro que eu nunca disse! Senão você já estaria preso há muito tempo. E quer saber por quê? Porque toda vez ela me dizia, a um canto da casa, baixinho, confidentemente, que se estivesse acontecendo alguma coisa, se estivesse com algum problema pessoal, podia contar com a sua ajuda, fosse para o que fosse. Eu, desprevenida, inventava alguma desculpa frouxa, mas é óbvio que ela não acreditava. É óbvio. E pensar que sempre te protegia&#8230; Mentia pra Dona Márcia, que sempre gostou de mim, confiava em mim. Sempre nos ajudou&#8230; Também nunca foi com a sua cara, o patrão. Ninguém vai com a sua cara, pra falar a verdade, só eu&#8230; Boba o suficiente pra cair na conversa de um cara igual a você, em plena flor da juventude. Cinco anos mais velho, com um carro – essa coisa que tá aí parada na garagem – e não sei mais o quê&#8230; Me levou em cheio com seu papo furado. E eu esperando um príncipe, alguém especial&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;E me aparece você. Que chorando o quê! Só se for de felicidade. Enfim você tá ouvindo o que merece. Me enganou. Me enganou por dezenove anos! Agora chega! Aposto que se um malandro viesse te assaltar, você não batia nele. Sabe por quê? Por que tem medo! É, tem medo! Em homem você não bate! Se se atrevesse, ia apanhar, sabe disso, ia apanhar! De qualquer um você apanha! E eu não vou calar a boca coisa nenhuma! Você que encoste um dedo em mim, que saio daqui e vou direto à polícia. Não, agora não vai ser assim: agora É assim. Esse negócio de “vai ser” já acabou. É, Edmundo, existem novas leis, que protegem as mulheres contra covardes iguais a você. Ou vai me dizer que nunca ouviu falar da Lei Maria da Penha? Não faz de bobo. Você sabe muito bem o quê que é. Pois é&#8230; Agora esse negócio de violência contra a mulher vai acabar. As coisas não são mais como eram há dezenove anos atrás. Pessoas como você, Edmundo, vão começar a sentir o peso da Lei. As coisas estão mudando&#8230; Você me batia porque pensava que eu era fraca, Edmundo, não podia reagir. Mas não era por isso que eu aceitava tudo, mas sim porque acreditava que nosso relacionamento poderia mudar&#8230; Poderia melhorar. Mas agora você vai sentir o quão forte eu posso ser, seu nojento! Te chamo, sim! Te chamo, sim! Pois é o quê você é! Um nojento! Espera Sábado à noite para sair com uma dessas que qualquer um encontra na rua! Gastando o nosso dinheiro! O meu dinheiro! Já que é com ele que a gente vive. Já que você gasta o seu todo em jogo, aposta, bebida, mulher! É, repito sim! Repito quantas vezes forem necessárias pra poder entrar na sua cabeça a raiva que estou de você! A raiva que tenho guardado de você todo esse tempo! Não&#8230; Não tem como voltar atrás, não. No tempo que se tinha para isso eu te dei todas as oportunidades. Não venha se fazer de arrependido! Vou gritar o mais alto que eu puder! Você não manda mais em mim! Fui boba de ter aceitado isso antes! Sempre submissa, obedecendo! Não, eu sou mais que isso, Edmundo! Eu sou mais que você! Não preciso de você mais pra nada. Você representa agora, para mim, apenas mais um problema que eu devo tirar do meu caminho. Foi um erro ter me casado com você. O pior erro que cometi na minha vida! Podia ter vivido melhor sem você. Viveria melhor até sozinha! Qualquer coisa teria sido melhor do que você. É óbvio que ele perguntou do futebol! Você prometeu jogar com ele já faz dois meses. É sempre “Deixa pro próximo final de semana que hoje o pai tá cansado”. Sempre isso. Mas agora não importa também; acho que seria até melhor eles viverem sem você por perto, sem seus exemplos. Quero que eles sejam homens de bem, que amem suas esposas e suas famílias. Nunca igual a você. Não venha se fingir desconsolado. Isso não me engana mais. Até chora! Que falso você é! Que estúpido! Que humilhante! Sempre tão metido a ser forte, valentão, agora chora! Não faça isso, por favor, me poupe. Quero que leve todas as suas coisas daqui e vá embora ainda hoje. E nem adianta vir com “Não, Vitória, por favor&#8230;”. É isso e pronto. Depois de tudo que me fez passar, acha que eu ainda quero viver com você? De jeito nenhum. Depois de todo esse tempo que vivi com você, aprendi a ser forte o suficiente para poder viver sem você. Sempre cuidei dos meninos sozinha, pra mim vai ser fácil. Sou forte. Sou forte. Aprendi a ser forte. Nada me derruba mais. Nada! Vou ser feliz sozinha, longe de você, seu traste. Vou abandonar essas chinelinhas que me acompanharam por todos esses longos anos e calçar um tamanco. Vou mudar. É isso que eu vou fazer, Edmundo.</p>
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		<title>O reino desencantado - Ana Lúcia Sousa</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 21:59:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Ana Lúcia Sousa]]></category>

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		<description><![CDATA[Sou a Bela Adormecida; foi no Reino Encantado que adormeci; desde 1908 até 2008 é que estou aqui; faz uns dias que acordei. Neste reino quase tudo continua o mesmo, os castelos, os bosques, porém atualmente os príncipes aparecem de moto. Como devem imaginar, para os meus amigos esses cem anos fizeram muita diferença.
Atualmente pretendo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sou a Bela Adormecida; foi no Reino Encantado que adormeci; desde 1908 até 2008 é que estou aqui; faz uns dias que acordei. Neste reino quase tudo continua o mesmo, os castelos, os bosques, porém atualmente os príncipes aparecem de moto. Como devem imaginar, para os meus amigos esses cem anos fizeram muita diferença.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente pretendo viajar para o Reino Desencantado, onde tudo é real; quero dormir apenas uma noite, sei lá, fazer certas mudanças. Sei que já se passaram cem anos e nem tudo será o mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Um passarinho me contou que no Reino Desencantado quase não há mais bosques, os “príncipes” costumam não chegar, as bruxas não dão só maçã – isso não entendi: será que elas agora estão dando abacaxi, melancia&#8230;? – enfim, os seres reais também deixaram esses cem anos fazerem diferença. Como pode? Nem é tanto tempo!</p>
<p style="text-align: justify;">É&#8230; Acho que permanecerei aqui, não quero que daqui a cem anos as coisas mudem para pior. E você no seu reino?</p>
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		<item>
		<title>Pelo que há… - Nina Araújo e Vera Borato</title>
		<link>http://feedproxy.google.com/~r/almacarioca/SCzE/~3/kWI2UzaySTA/</link>
		<comments>http://www.almacarioca.net/pelo-que-ha-nina-araujo-e-vera-borato/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 20:57:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Araújo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Nina Araújo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.almacarioca.net/?p=5274</guid>
		<description><![CDATA[Valei-me a boa inércia
Valei-me quando não for atrapalhar
Valei-me o vento zoando as copas do juá
Valei-me um metro de abraços
Valei-me a ânsia do riso
Valei-me o friso da boca se sujar
Valei-me o tempo de férias
Valei-me o dom das crianças
Valei-me a luz de um avatar
Valei-me a lonjura dos tetos que o Criador mandar
Valei-me a ginga das ondas quando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Valei-me a boa inércia<br />
Valei-me quando não for atrapalhar<br />
Valei-me o vento zoando as copas do juá<br />
Valei-me um metro de abraços<br />
Valei-me a ânsia do riso<br />
Valei-me o friso da boca se sujar<br />
Valei-me o tempo de férias<br />
Valei-me o dom das crianças<br />
Valei-me a luz de um avatar<br />
Valei-me a lonjura dos tetos que o Criador mandar<br />
Valei-me a ginga das ondas quando quebram<br />
Porque hão de fazer canções sobre as coisas<br />
Porque hão de aparar a lua bonita<br />
Porque hão de tornar a noite bendita<br />
Então,valei-me Deus pelo que há&#8230;.</p>
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		<item>
		<title>O Lobo e a Hiena - Bruno Sousa</title>
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		<comments>http://www.almacarioca.net/o-lobo-e-a-hiena-bruno-sousa/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 18:57:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Bruno Sousa]]></category>

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		<description><![CDATA[O Lobo, em um dia em que a fome o perturbava muito, saiu pela floresta em busca de comida. Foi em um momento de seu passeio que encontrou, repentinamente, a Hiena fartando-se com um grande pedaço de carne. Cansado de procurar o que comer e faminto, o Lobo resolveu lucrar com a situação; virou-se para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Lobo, em um dia em que a fome o perturbava muito, saiu pela floresta em busca de comida. Foi em um momento de seu passeio que encontrou, repentinamente, a Hiena fartando-se com um grande pedaço de carne. Cansado de procurar o que comer e faminto, o Lobo resolveu lucrar com a situação; virou-se para a Hiena e disse:</p>
<p>- E aí, minha cara amiga, como vai?</p>
<p>- Vou muito bem! Olhe a sorte que dei! Encontrei este pedaço de carne dando bobeira&#8230; Ele está delicioso. Mas mesmo assim não vai me satisfazer!</p>
<p>- Pois então deu sorte! – disse o Lobo alegremente – eu, com minhas hábeis capacidades de caça, posso buscar um almoço reforçado para nós, mas, para isso, tenho que recompor minhas energias. Dê-me seu pedaço de carne, que busco algo para comermos!</p>
<p>A Hiena pensou por algum tempo na proposta do Lobo, até que disse:</p>
<p>- Fechado. Mas volte logo, hein!</p>
<p>- Não se preocupe! Breve estarei aqui! – disse o Lobo. E em poucos minutos, devorou a carne e partiu.</p>
<p>A Hiena esperou por sua volta o resto do dia, mas nunca mais o encontrou.</p>
<p>Moral: usufrua daquilo que é certo, pois o que se tem é melhor do que nada.</p>
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		<item>
		<title>Cumplicidade - Ana Lucia Timotheo da Costa</title>
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		<comments>http://www.almacarioca.net/cumplicidade-ana-lucia-timotheo-da-costa/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 14:13:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Lucia Timotheo da Costa</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Ana Lucia Timotheo da Costa]]></category>

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		<description><![CDATA[Há muito seu travesseiro era seu cúmplice e confidente. Com ele dividia as suas reais preocupações do dia-a-dia. Chegar à meia-idade, sozinho, trazia-lhe certo amargo na boca. Mexia com ele. Realmente, a esta altura do campeonato, se as coisas estavam assim, há que se convir que tinha havido consentimento de sua parte. Óbvio que existe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há muito seu travesseiro era seu cúmplice e confidente. Com ele dividia as suas reais preocupações do dia-a-dia. Chegar à meia-idade, sozinho, trazia-lhe certo amargo na boca. Mexia com ele. Realmente, a esta altura do campeonato, se as coisas estavam assim, há que se convir que tinha havido consentimento de sua parte. Óbvio que existe sempre uma justificativa que soa como tom de desculpa - conversa mole pra boi dormir.</p>
<p style="text-align: justify;">Na realidade, fechou-se em seu casulo. Adiou o virar da página, sem permitir realizar seu lado borboleta. Não buscou novos narcisos nem costelas-de-Adão.</p>
<p style="text-align: justify;">Mestre da maldita mania de ser ex/tre/ma/men/te seletivo. Esqueceu-se de que o equilíbrio está no meio. Sua independência nunca lhe permitiu invasões e questionamentos. Sentia-se diferente. E realmente era.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje é capaz de admitir seu engano: o ser humano não busca o diferente e sim o igual. Balela esta tal história de que o positivo procura o negativo. É só observar: o chato gosta da chata, o inculto da inculta, o gentil da gentil, o miserável da econômica&#8230; (Ou então a relação tem por base a tolerância).</p>
<p style="text-align: justify;">Acordou tarde. Mas resolveu agarrar-se com unhas e dentes à possibilidade de encontrar eco para ouvir e ser ouvido, compartir e trocar. Ter e dar prazer. Sentir a beleza do silêncio dividido.</p>
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		<item>
		<title>O sol saiu - Nina Araújo e Vera Borato</title>
		<link>http://feedproxy.google.com/~r/almacarioca/SCzE/~3/wbaAKtmZ2HA/</link>
		<comments>http://www.almacarioca.net/o-sol-saiu-nina-araujo-e-vera-borato/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 12:12:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Araújo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Nina Araújo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.almacarioca.net/?p=5268</guid>
		<description><![CDATA[Não te darei trela, amor confuso,
Solo de aluvião, solo úmido
Chão que encharca a cor do coração
Não te darei cela, nem mesmo tentes,
Procure outro alguém, mostre-lhe os dentes
E sirva-se deste amor preguiça
Fraqueza, cipó, areia movediça
Que brigam para ter a conclusão
Não fiques a rondar meus pensamentos
Hoje me disponho a andar com os tolos
Esses que aplaudem o sol [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Não te darei trela, amor confuso,<br />
Solo de aluvião, solo úmido<br />
Chão que encharca a cor do coração<br />
Não te darei cela, nem mesmo tentes,<br />
Procure outro alguém, mostre-lhe os dentes<br />
E sirva-se deste amor preguiça<br />
Fraqueza, cipó, areia movediça<br />
Que brigam para ter a conclusão<br />
Não fiques a rondar meus pensamentos<br />
Hoje me disponho a andar com os tolos<br />
Esses que aplaudem o sol poente<br />
Rimam vendo a vida diferente<br />
Líricos, com o corpo na emoção<br />
Se trombar comigo não te preocupes<br />
Já não me convences, nem iludes<br />
Largar de ser bobo e vá ser são !</p>
<p> </p>
<p> </p>
<p style="text-align: right;">&#8220;Quero antes o lirismo dos loucos<br />
O lirismo dos bêbedos<br />
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos<br />
O lirismo dos clowns de Shakespeare<br />
-Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.&#8221;</p>
<p style="text-align: right;">(Poética - Manuel Bandeira)</p>
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		<item>
		<title>Encerrando um ciclo - Paulo Coelho</title>
		<link>http://feedproxy.google.com/~r/almacarioca/SCzE/~3/4SkLs4wCS_M/</link>
		<comments>http://www.almacarioca.net/encerrando-um-ciclo-paulo-coelho/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 11:50:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Paulo Coelho]]></category>

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		<description><![CDATA[Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final.
Se insistimos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos, não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final.<br />
Se insistimos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos, não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi despedido do trabalho?<br />
Terminou uma relação?<br />
Deixou a casa dos pais?<br />
Partiu para viver em outro país?<br />
A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?</p>
<p style="text-align: justify;">Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seu marido ou esposa, seus amigos, seus filhos, sua irmã, todos estarão encerrando<br />
capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.</p>
<p style="text-align: justify;">Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.</p>
<p style="text-align: justify;">O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que sentem-se culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.</p>
<p style="text-align: justify;">As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar. Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Ninguém está jogando nesta vida com<br />
cartas marcadas, portanto as vezes ganhamos, e as vezes perdemos.</p>
<p style="text-align: justify;">Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o está apenas envenenando, e nada mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não tem data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do momento ideal.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, não voltará. Lembre-se que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.</p>
<p style="text-align: justify;">Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<address style="text-align: justify;">Este texto foi publicado no Globo em 22/08/2004. A psicóloga colombiana Sonia Hurtado, colunista do jornal El Pais, de Cali, fez uma acusação, alegando ser a verdadeira autora, e entrou na justiça com processo de plágio contra Paulo Coelho.</address>
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		<item>
		<title>A tristeza de brasileiros - Hila Flávia</title>
		<link>http://feedproxy.google.com/~r/almacarioca/SCzE/~3/Bnq6g7hYu-w/</link>
		<comments>http://www.almacarioca.net/a-tristeza-de-brasileiros-hila-flavia/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 07:38:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Hila Flávia]]></category>

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		<description><![CDATA[Estamos todos penalizados com a situação do Estado de Santa Catarina, bem como de outras cidades do Brasil onde as águas têm feito vítimas e dado prejuízos. A vontade era de pegar a primeira condução e ir ajudar, mas não sendo possível, fazemos um pouco que seja por aqui mesmo.
Sempre me contaram e sempre ouvi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Estamos todos penalizados com a situação do Estado de Santa Catarina, bem como de outras cidades do Brasil onde as águas têm feito vítimas e dado prejuízos. A vontade era de pegar a primeira condução e ir ajudar, mas não sendo possível, fazemos um pouco que seja por aqui mesmo.<br />
Sempre me contaram e sempre ouvi falar de que o poeta aparece para falar pela multidão, para exprimir o sentimento quando é difícil fazê-lo, para ser um instrumento da solidariedade manifestada por escrito. E desta vez não foi diferente. De tudo que li o que mais me comoveu foi um texto, infelizmente sem autoria, chamado Começar de Novo. A informação é de que ele foi escrito quando de uma grande enchente na Argentina, que fez muitas e muitas vítimas. E um morador catarinense, atingido, fez do texto a tradução de seu sentimento:</p>
<p style="text-align: justify;">
Eu tinha medo da escuridão<br />
Até que as noites se fizeram longas e sem luz<br />
Eu não resistia ao frio facilmente<br />
Até passar a noite molhado numa laje<br />
Eu tinha rejeição por quem era da capital<br />
Até que me deram abrigo e alimento<br />
Eu tinha aversão a judeus<br />
Até darem remédios aos meus filhos<br />
Eu adorava exibir minha nova jaqueta<br />
Até dar ela a um garoto com hipotermia<br />
Eu escolhia cuidadosamente a minha comida<br />
Até que tive fome<br />
Eu desconfiava da pele escura<br />
Até que um braço forte me tirou da água<br />
Eu achava que tinha visto muita coisa<br />
Até ver meu povo perambulando sem rumo<br />
Eu não gostava do cachorro do meu vizinho<br />
Até naquela noite eu o ouvir ganir até se afogar<br />
Eu não lembrava os idosos<br />
Até participar dos resgates<br />
Eu não sabia cozinhar<br />
Até ver na minha frente arroz e crianças com fome<br />
Eu achava minha casa melhor de todas<br />
Até ver todas cobertas pelas águas<br />
Eu tinha orgulho do meu nome e sobrenome<br />
Até a gente se tornar seres anônimos<br />
Eu criticava a bagunça dos estudantes<br />
Até centenas deles me estenderem as mãos solidárias<br />
Eu tinha segurança absoluta do meu futuro<br />
Agora nem tanto<br />
Eu vivia numa comunidade com uma classe política<br />
Agora espero que a correnteza a tenha levado<br />
Eu não lembrava o nome de quase ninguém<br />
Agora guardo cada um no coração<br />
Eu não tinha boa memória<br />
Talvez por isso não me lembre de todo mundo<br />
Mas terei o que me resta da vida para agradecer<br />
Eu não te conhecia<br />
Agora você é meu irmão<br />
Tínhamos um rio<br />
Agora somos parte dele<br />
É de manhã, já saiu o sol<br />
Não faz mais tanto frio<br />
Graças a Deus<br />
Vamos começar de novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Feliz de quem pode recomeçar e de quem não perdeu a esperança. Que a tragédia faça com que o solo seja respeitado bem mais do que a especulação imobiliária.<br />
Se não tiramos uma lição do sofrimento ele se torna inútil e muito pior.</p>
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