Juno
Juno é um filme bonitinho e adorável; não é uma obra-prima, mas uma história interessante e gostosa de assistir. O filme começa quando Juno MacGuff (Ellen Page), de 16 anos, descobre que está grávida após a primeira e única transa com seu melhor amigo.
Ela pensa em interromper a gravidez, mas após uma visita à clínica de abortos, decide ter a criança e entregá-la para adoção. Com a ajuda da amiga, encontra rapidamente nos classificados do jornal um casal que parece perfeito e depois de tudo encaminhado com eles, conta ao pai e à madrasta.
A família de Juno é tão pouco convencional como ela, e também amorosa e compreensiva, e ela recebe todo o apoio à sua decisão. Apesar de gostar de Paulie Bleekers (Michael Cera), o pai do bebê, ela nem pensa em ficar com a criança, e muito menos em casar com ele. Aparentemente a solução é boa para todos: como diz Juno, “daqui a 30 semanas poderemos fingir que isso nunca aconteceu”. Uma boa maneira de fugir das consequências e da responsabilidade.
O casal escolhido parece perfeito: são simpáticos, saudáveis, moram em uma linda casa e parecem muito felizes. O maior desejo da esposa, Vanessa (Jennifer Garner), é ser mãe. O marido, Mark (Jason Bateman), é um compositor de jingles e roqueiro frustrado, e se dá muito bem com Juno pois ambos gostam de rock. Na verdade, ele parece (ou gostaria de) ser da geração dela.
A partir daí vamos acompanhando a gravidez de Juno, como ela é observada e deixada de lado pelos outros adolescentes, e como com o passar dos meses ela vai percebendo que o mundo dos relacionamentos adultos é mais complexo do que imaginava; Juno sabe o que quer, e fica perplexa por ver que isso não acontece com algumas pessoas crescidas que também deveriam saber.
O final é tocante e singelo; não há como não comparar as complicações que as pessoas causam em suas vidas e a simplicidade e honestidade do amor adolescente, e torcer para que Juno consiga manter essa inocência de espírito quando chegar à vida adulta. Mas com um pouco mais de responsabilidade.
Apesar de interessante e com boas interpretações, especialmente de Ellen Page, não acho que o roteiro de Diablo Cody seja merecedor de um Oscar; apenas um roteiro razoável. E o filme trata com demasiada leveza de um assunto muito sério.
A gravidez adolescente é um problema grave nos EUA, e as recentes campanhas de abstinência juvenil, os bailes de virgindade e toda a atmosfera moralista que pairava no ar durante a era Bush, sem mencionar o fiasco que foi o caso Bristol Palin, não conseguiram diminuir os altos índices de gravidez na adolescência naquele país.
Esse é um problema social que afeta tanto os países desenvolvidos quanto os do terceiro mundo, apesar das causas e circunstâncias serem diferentes nos dois grupos.
Enquanto no terceiro mundo a gravidez adolescente geralmente vem acompanhada de pobreza e leva ao casamento precoce (especialmente se o pai da criança for mais velho que a garota), o que não causa preconceito nem problemas de aceitação no grupo social para a jovem, nos países desenvolvidos as gravidezes acontecem fora do casamento, causando estigma social e abandono dos estudos, e consequente pobreza e dificuldades para criar a criança, que também terá piores prognósticos sociais e educacionais.
Entre os países desenvolvidos, Estados Unidos e Reino Unido têm os índices mais altos de gravidez na adolescência, enquanto Japão e Coréia do Sul têm os menores. Os índices de aborto nos EUA também são muito altos – um terço das gravidezes precoces terminam em abortos.
Não é fácil tentar a redução desses números, especialmente quando por um lado campanhas, escolas e famílias tradicionais pregam a abstinência ao mesmo tempo em que a mídia e toda a cultura em que o adolescente está inserido valoriza a aparência, a sexualidade cada vez mais precoce e até mesmo a promiscuidade, associando-as ao sucesso e aceitação social. É uma briga dura.
Um filme como Juno, apesar de mostrar a inocência do amor juvenil, tem como natural que esse amor encontre expressão física, e mais natural ainda que a garota tenha um filho e o entregue para adoção, sem criar laços emocionais com ele, continuando sua vida como se aquilo fosse um episódio normal de sua vida.
Na minha opinião, esse é um modo irresponsável de se tratar um assunto tão sério. A paternidade é algo que muda a vida de uma pessoa, ainda que de diferentes formas. Se essa gravidez terminar em casamento, aborto ou adoção, qualquer uma dessas opções causa mudanças profundas na vida de uma pessoa adulta, e ainda mais em uma adolescente.
Apesar de tratar o caso de Juno com leveza, o filme mostra como a decisão de ter (ou adotar) um filho pode alterar a vida de pessoas adultas, e como é difícil tomar essa decisão. Creio que o filme poderia ter passado uma mensagem diferente, não que uma gravidez precoce é algo ‘light’, inócuo e que todos podem viver felizes para sempre, sem consequências. Mas não poderíamos esperar isso de uma roteirista como Diablo Cody.
Recomendo que assistam o filme, mas não deixem de refletir a respeito.
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Para saber mais:
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Página do filme no IMDb
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Teenage pregnancy e Gravidez na adolescência na Wikipedia
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Gravidez na adolescência – artigo de g. J. Ballone no site PsiqWeb
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Com alusão a “Juno”, Ipea questiona políticas contra gravidez precoce – artigo de Tatiana Pronin no site UOL – Ciência e Saúde
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Juno: um caso de negação (gravidez na adolescência) – ótimo artigo da psicóloga Élide Camargo Signorelli, no site Integral – escolas inteligentes
Vídeo: Juno – trailer
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