Mistério de Natal - Terezinha Pereira Me beije - Maria Avila



nov 30

Paulo, eu gosto muito deste meu poema.
Acho-o de uma humanidade e de uma ternura sem tamanho.
Por isso gostaria de dedicá-lo a você, com todo o meu carinho.

Lu Dias Bh

 

 

Cruzou o meu caminho uma cadela,
balançando as suas ancas rígidas,
como fazem todas elas, quando
a cidade sonolenta adormece,
farejando um macho nas ruelas.

Ao cruzar comigo na esquina,
cachorro morto, figura patética,
perdido num entulho de agruras,
pesteou-me com a tristeza aguda,
que escorria dos olhos dela.

Ao perceber que não me atinha
a seus desajeitados trejeitos,
lambeu-me os chinelos já rotos,
tão gastos como a minha carcaça,
amarfanhada por tantos desgostos.

Suas tetas frias, arrepiadas e nuas
atravessavam o tecido de risca,
das minhas tão surradas vestes,
tornando-me um refém de sua
odorífera secreção de almíscar.

Como dois cães famintos de afeto,
aboletamo-nos num cantinho da rua,
enquanto ela me lambia a cara,
eu lhe alisava a cabeça curvada
à procura de calor e ternura.

E naquela madrugada fria, o sono
veio nos fazer companhia, por pena;
juntinho um do outro, não sei
quem de nós dois mais sofria: se
era eu, o macho, ou era ela, a fêmea.

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Publicado por Lu Dias Bh \\ tags:

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14 comentários para “Juntos: uma cadela e eu - Lu Dias”

  1. Paulo Afonso disse: Reply to this comment

    Obrigado, Lu

    Muito bonito, mesmo. Desnuda a carência de afeto e amor que aflige a humanidade, até quem afirme que já tem o suficiente.

    Bom domingo,

    Paulo

    [Resposta]

  2. Maria Avila disse: Reply to this comment

    Lu
    Que lindo poema, não presenteou somente o Paulo, mas a todos que o leram.

    [Resposta]

  3. Carlos Manoel Marques disse: Reply to this comment

    A carência é democrática - nivela toda a sociedade - assim como o destino final.

    [Resposta]

  4. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @Paulo Afonso:

    Paulo

    Não sei se notou que torno o meu poema dúbio.
    Ou seja, a cadela tanto pode ser um ser humano quanto uma mulher.
    Tento mostrar a necessidade de carinho que há tanto nos homens quanto nos animais.
    Não Paulo, o carinho nunca nos é suficiente. E nem aos bichinhos.

    Abraços,

    lu

    [Resposta]

  5. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @Maria Avila:

    Maria Ávila

    Que bom tê-la aqui de novo.
    E me alegro por ter gostado do poema.
    Gosto muito da humanidade que ele emana.
    Grande beijo,

    lu

    [Resposta]

  6. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @Carlos Manoel Marques:

    Carlos

    A carência é deveras democrática, assim como a dor, a tristeza, as decepções, as alegrias, os medos, os enganos e a felicidade.
    Mas lhe garanto que ela não é tão democrática como devia, pois uns carregam um peso maior que outros.
    Talvez pela sensibilidade com que lhe adornou a vida.
    Obrigada pela visita ao post.

    lu

    [Resposta]

  7. Mário Mendonça disse: Reply to this comment

    Querida Lu Dias

    Sabe o que mais gosto na tua escriba ?

    A crueza como expõe seus sentimentos para com o semelhante, de forma simples e objetiva.

    Agora, é redundância, falar do poema.

    Abraços.

    [Resposta]

  8. Jovimari disse: Reply to this comment

    As eternas carências animais… e nós humanos nos achamos sempre tão fortes e independentes! Como somos ingênuos.

    Beijo!

    [Resposta]

  9. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @Mário Mendonça:

    Mário

    É verdade!
    Não uso de meias palavras ou subterfúgios.
    Quando faço poemas, não costumo, na maioria das vezes, dourar a pílula.
    Vai saindo tudo que sinto.
    E levando em conta a vida do ser humano atualmente, elas serão cada vez mais cruas… risos.
    Obrigada, meu amiguinho, por sua visita.

    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  10. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @Jovimari:

    Jovimari

    Senti a sua ausência no post do meu lindo, belo e querido sobrinho Felipe.
    Quase fui aí lhe puxar as orelhas.

    As nossas carências são imensuráveis.
    Ouso dizer que a maioria de nossos erros nasce da revolta em não poder suportar tais carências.
    São o reverso da medalha.
    Estamos sempre a cobrar a parte que nos é devida, pela vida (rimei querendo).
    Obrigada pelo carinho da visita.

    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  11. Ana Lucia Timotheo da Costa disse: Reply to this comment

    Lu querida,
    Também acho que existe sempre uma parte faltante entre racionais ou irracionais. Beijo. Ana

    [Resposta]

  12. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @Ana Lucia Timotheo da Costa:

    Aninha

    Não é que eu seja intransigente, apenas tento adaptar-me à realidade dos fatos.
    Somos incompletos e incontentáveis.
    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  13. Nina Araújo disse: Reply to this comment

    Lu,

    Eu achei esses versos tão lindamente descritos que resolvi degustar por um dia,até escrever umas linhas.
    É de uma paisagem poética tão rica que me remete´a Walt Disney, a Graciliano Ramos e nada disso tem A Dama e o Vagabundo nem a cachorra Baleia algo diretamentente interligado, mas é a emoção…
    Com todo respeito com tudo que escrevemos, eu, particularmente só consigo prestar atenção em versos que me fazem sonhar assim como voce fez com a minha emoção.Magnífico!
    E é uma delicía prestar homenagens, né não?
    Um beijo poético neste seu coração bonito e farto,
    Nina.

    [Resposta]

  14. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @Nina Araújo:

    Nina

    Somente agora me sobrou um tempinho para responder a seu comentário.
    Estou trabalhando na Cruz Vermelha, responsável pela triagem de sapatos e acessórios.
    Mal me aguento de pé.
    Mas não poderia deixar de lhe agradecer o carinho.
    Vou ter que me afastar uns dias de vocês.
    Mas prometo voltar assim que puder.
    Delícia mesmo é degustar o que você escreveu.
    Muito obrigada!
    Grande beijo,

    lu

    [Resposta]

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