Paulo, eu gosto muito deste meu poema.
Acho-o de uma humanidade e de uma ternura sem tamanho.
Por isso gostaria de dedicá-lo a você, com todo o meu carinho.
Lu Dias Bh
Cruzou o meu caminho uma cadela,
balançando as suas ancas rígidas,
como fazem todas elas, quando
a cidade sonolenta adormece,
farejando um macho nas ruelas.
Ao cruzar comigo na esquina,
cachorro morto, figura patética,
perdido num entulho de agruras,
pesteou-me com a tristeza aguda,
que escorria dos olhos dela.
Ao perceber que não me atinha
a seus desajeitados trejeitos,
lambeu-me os chinelos já rotos,
tão gastos como a minha carcaça,
amarfanhada por tantos desgostos.
Suas tetas frias, arrepiadas e nuas
atravessavam o tecido de risca,
das minhas tão surradas vestes,
tornando-me um refém de sua
odorífera secreção de almíscar.
Como dois cães famintos de afeto,
aboletamo-nos num cantinho da rua,
enquanto ela me lambia a cara,
eu lhe alisava a cabeça curvada
à procura de calor e ternura.
E naquela madrugada fria, o sono
veio nos fazer companhia, por pena;
juntinho um do outro, não sei
quem de nós dois mais sofria: se
era eu, o macho, ou era ela, a fêmea.
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30 de novembro de 2008 at 7:03
Obrigado, Lu
Muito bonito, mesmo. Desnuda a carência de afeto e amor que aflige a humanidade, até quem afirme que já tem o suficiente.
Bom domingo,
Paulo
[Resposta]
30 de novembro de 2008 at 12:47
Lu
Que lindo poema, não presenteou somente o Paulo, mas a todos que o leram.
[Resposta]
30 de novembro de 2008 at 13:40
A carência é democrática - nivela toda a sociedade - assim como o destino final.
[Resposta]
30 de novembro de 2008 at 19:21
@Paulo Afonso:
Paulo
Não sei se notou que torno o meu poema dúbio.
Ou seja, a cadela tanto pode ser um ser humano quanto uma mulher.
Tento mostrar a necessidade de carinho que há tanto nos homens quanto nos animais.
Não Paulo, o carinho nunca nos é suficiente. E nem aos bichinhos.
Abraços,
lu
[Resposta]
30 de novembro de 2008 at 19:22
@Maria Avila:
Maria Ávila
Que bom tê-la aqui de novo.
E me alegro por ter gostado do poema.
Gosto muito da humanidade que ele emana.
Grande beijo,
lu
[Resposta]
30 de novembro de 2008 at 19:26
@Carlos Manoel Marques:
Carlos
A carência é deveras democrática, assim como a dor, a tristeza, as decepções, as alegrias, os medos, os enganos e a felicidade.
Mas lhe garanto que ela não é tão democrática como devia, pois uns carregam um peso maior que outros.
Talvez pela sensibilidade com que lhe adornou a vida.
Obrigada pela visita ao post.
lu
[Resposta]
30 de novembro de 2008 at 21:07
Querida Lu Dias
Sabe o que mais gosto na tua escriba ?
A crueza como expõe seus sentimentos para com o semelhante, de forma simples e objetiva.
Agora, é redundância, falar do poema.
Abraços.
[Resposta]
30 de novembro de 2008 at 21:44
As eternas carências animais… e nós humanos nos achamos sempre tão fortes e independentes! Como somos ingênuos.
Beijo!
[Resposta]
30 de novembro de 2008 at 23:21
@Mário Mendonça:
Mário
É verdade!
Não uso de meias palavras ou subterfúgios.
Quando faço poemas, não costumo, na maioria das vezes, dourar a pílula.
Vai saindo tudo que sinto.
E levando em conta a vida do ser humano atualmente, elas serão cada vez mais cruas… risos.
Obrigada, meu amiguinho, por sua visita.
Beijos,
lu
[Resposta]
30 de novembro de 2008 at 23:26
@Jovimari:
Jovimari
Senti a sua ausência no post do meu lindo, belo e querido sobrinho Felipe.
Quase fui aí lhe puxar as orelhas.
As nossas carências são imensuráveis.
Ouso dizer que a maioria de nossos erros nasce da revolta em não poder suportar tais carências.
São o reverso da medalha.
Estamos sempre a cobrar a parte que nos é devida, pela vida (rimei querendo).
Obrigada pelo carinho da visita.
Beijos,
lu
[Resposta]
30 de novembro de 2008 at 23:58
Lu querida,
Também acho que existe sempre uma parte faltante entre racionais ou irracionais. Beijo. Ana
[Resposta]
1 de dezembro de 2008 at 0:19
@Ana Lucia Timotheo da Costa:
Aninha
Não é que eu seja intransigente, apenas tento adaptar-me à realidade dos fatos.
Somos incompletos e incontentáveis.
Beijos,
lu
[Resposta]
1 de dezembro de 2008 at 8:34
Lu,
Eu achei esses versos tão lindamente descritos que resolvi degustar por um dia,até escrever umas linhas.
É de uma paisagem poética tão rica que me remete´a Walt Disney, a Graciliano Ramos e nada disso tem A Dama e o Vagabundo nem a cachorra Baleia algo diretamentente interligado, mas é a emoção…
Com todo respeito com tudo que escrevemos, eu, particularmente só consigo prestar atenção em versos que me fazem sonhar assim como voce fez com a minha emoção.Magnífico!
E é uma delicía prestar homenagens, né não?
Um beijo poético neste seu coração bonito e farto,
Nina.
[Resposta]
1 de dezembro de 2008 at 23:06
@Nina Araújo:
Nina
Somente agora me sobrou um tempinho para responder a seu comentário.
Estou trabalhando na Cruz Vermelha, responsável pela triagem de sapatos e acessórios.
Mal me aguento de pé.
Mas não poderia deixar de lhe agradecer o carinho.
Vou ter que me afastar uns dias de vocês.
Mas prometo voltar assim que puder.
Delícia mesmo é degustar o que você escreveu.
Muito obrigada!
Grande beijo,
lu
[Resposta]