Kahjuraho e os Templos da Sensualidade – Lu Dias
Continuação da correspondência, que a jornalista Laura Medioli escreveu a uma amiga, durante a sua primeira viagem à Índia, no ano de 1999:
“Amiga, te escrevo do aeroporto onde pegaremos o vôo para Khajuraho. A viagem é rápida, menos de uma hora. Olhando pela janela; dá um desânimo total. Não se vê nada a não ser uma grande secura, inclusive nos leitos dos rios.
Ao nos aproximarmos da cidade, com o avião já descendo, comecei a me preocupar:
- Que diabo de lugar é esse que só tem pedra e terra seca? Nem uma arvorezinha! Lá embaixo um vilarejo minúsculo, completamente perdido.
Chegando ao aeroporto, simples como era de se esperar, um guia nos aguardava. Com entusiasmo nos diz que o hotel fica a dois minutos do aeroporto. Olhei pro Vittorio e o jeito foi rir.
- Bom, se o hotel fica a dois minutos desse lugar, quer dizer que fica no meio do nada, ou melhor, no meio de poeira, pedra e total desolação. AÍ, meu Deus!
De repente a surpresa: Entramos por uma portaria e lá dentro encontramos árvores e até um jardim florido. Nas paredes, quadros com pinturas de casais transando. Estranhei, já que os indianos me parecem bem puritanos. Alguém explica (erroneamente) que estamos na cidade do Kama Sutra.
À tarde saímos para a visita aos templos. Fiquei muito impressionada com o que vi. Construídos em pedras areníticas, há cerca de 2.000 anos, são belíssimos.
Segundo o guia, antigamente eram 85 (cada um dedicado a uma posição sexual), só que há cerca de 500 anos a maioria foi destruída por um terremoto.
Na verdade, o Kama Sutra não tem nada a ver com eles, a não ser em algumas formas de se fazer amor.
Não sei se sabe, mas o Kama Sutra foi escrito há mais de mil anos por um sábio indiano que o considerou um dever religioso. Tanto as mulheres quanto os homens são complementos um do outro e são iguais.
O Kama, que seria o prazer ou a satisfação sensual, junto ao Sutra, teria o significado de “Ciência ou Técnica do Amor”, onde devem ser usados os cinco sentidos: audição, tato, visão, paladar e olfato, com a coordenação da mente junto à alma.
(…)
Os templos ficam espalhados num lugar cheio de verde, incrível como conseguiram isso naquele ambiente desértico.
Já do outro lado do muro, a história muda. Encontramo-nos num vilarejo, com suas ruelas empoeiradas e vendedores prontos a “atacar” (no bom sentido). Aliás, isso é uma coisa que esqueci de falar: na Índia somos literalmente atacados por ambulantes. Em Déli, quando ainda não sabíamos disso, levamos um susto.
Ao descermos do carro, nos vimos cercados por mais ou menos dez. Ao descobrirem que falávamos italiano, na mesma hora começaram a dizer o básico: Com licença! É barato! E todo um repertório desesperado para se verem livres de suas mercadorias, um monte de bobagens que eu adoro, mas que eram impossíveis de serem adquiridas. Digo isso porque, se demonstrarmos algum tipo de interesse, os dez se transformam em 20 e se você comprar de um e deixar de comprar do outro… Socorro!
Depois que começamos a entender um pouco da vida difícil que levam, compreendemos suas atitudes. Infelizmente, esse não é o melhor método de venda, acabam espantando todos os turistas.
(…)
Nesse mesmo dia fomos ao vilarejo. As crianças daqui são lindas. Distribuímos balas enquanto elas, com suas mãozinhas estendidas, pedem: Money, money!
Enfim, amei Khajuraho! Justamente esse pontinho perdido no mundo, cheio de pedras e poeira. Descobri que não é sempre assim, a época em que viemos é que é de seca. De acordo com o guia, Khajuraho foi durante muitos séculos um pequeno e obscuro vilarejo, até quando, em 1800 e alguma coisa, um capitão do Exército britânico visitou o lugar e descobriu os templos. Depois disso, ficou conhecido mundialmente, e pessoas de todo o mundo vêm aqui para admirar a grandiosidade da obra, sua beleza e o fascínio sensual de suas estátuas. Muitas teorias surgiram para explicar o porquê das esculturas eróticas e casais tendo relações.
Ao final da tarde, fomos visitar um templo jainista, apenas do lado de fora, já que não nos é permitida a entrada. Das religiões indianas, acredito que o jainismo seja das mais radicais.
Segundo o que li, eles têm “a responsabilidade de conduzir as almas para a liberdade espiritual, tirá-las de sua prisão na existência material”. Acreditam que “toda alma é divina e pode atingir seu objetivo seguindo as práticas de purificação e disciplina”.
Os mandamentos dos jainista são: não-violência; falar a verdade; abstinência sexual; não pegar nada que não seja dado; des1igamento de pessoas, lugares e coisas.
Os monges mais evoluídos ficam presos, nus em constante jejum. Suas posturas são tão radicais que alguns chegam a usar saltos finos e altos nos pés para evitar atropelar algum inseto.
Não tomam conhecimento do que acontece aqui fora, vivendo em estado de meditação. Já os seus devotos, menos radicais, são vegetarianos e não realizam trabalhos que envolvam a destruição da vida, como a caça e a pesca.
Os que não ficam confinados vivem como andarilhos, com pouquíssima roupa, geralmente uma veste branca, um vasilhame (que usam para tomar banho), um recipiente de esmola (que não pedem nunca, alguém deve dar a eles de livre e espontânea vontade) e uma cópia do texto das escrituras para as orações. Não permanecem num único lugar, para não criar apegos.”
Nota: Publicado no Jornal Pampulha, 20 a 26/06/2009; Belo Horizonte-MG
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LU DIAS
Excelente o texto que a jorrnalista Laura Medioli escreveu e que você nos tem brindado.
Uma cidade com monumentos eróticos – Kama Sutra – e com um templo janista, com monges todos pelados, meditando em contemplação, sem machucarem sequer os insetos.
Dá para imaginar ?
Enfim, essa é a India que o Brasil começou a descobrir depois de tão longo tempo que Vasco da Gama chegou por lá.
Parabéns pela sua publicação.
Lu Dias BH respondeu:
junho 21st, 2009 at 14:33
@GUTIERRITOS,
Gutie
Criei um amor tão grande pelos meus leitores, que não posso ler nada sobre a Ìndia que tenho vontade de lhes repassar.
A Laura Medioli está fantástica, na narração que faz de sua viagem àquele país.
Uso mão de seus textos, depois de lhe passar um e-mail avisando, para possamos nos enriquecer mais e mais.
Nada como ouvir o parecer de quem viveu a situação in loco.
Eu, pessoalmente, estou amando.
Beijos,
lu
Lu,
Existem mesmo templos belíssimos, riquíssimos na Índia. Adoro ver as fotos. Encantam-me.
Fico pensando. Como foram construídos? Como era a mão de obra. De que tecnologia de construção dispunham, de onde saía o dinheiro? Com tanta gente faminta….
Agora… quanto a ataque de vendedores. Não precisa sair do Brasil. Em Porto Seguro. E também de Maceió a Fortaleza, palmo por palmo daquelas belas praias, somos literalmente atacados. Aparecem vendores de qualquer coisa que você não quer comprar. Repentistas cantando o que você não quer ouvir e passando o chapéu… Já vi gente oferecendo dinheiro para os repentistas saírem antes de cantar.
E os “guardadores de carros”? Ficam escondidos atrás das moitas.
Uma vez, fomos conhecer no nordeste a “Praia dos Sonhos”, acho que em Alagoas. Diziam que era um lugar lindo e muito tranquilo. Éramos 2 casais. Doidos para darmos um cochilo deitados na areia, o que não havíamos feito ainda em 10 dias de viagem. Estacionamos o carro perto de um restaurante que ainda estava fechado. Comentamos, que sossego! Havia poucas pessoas na praia, algumas crianças correndo. E não é que de trás de uma moita saem dois garotos, como do nada… ô xente! Quase morremos de susto, pensando que fosse um assalto.
Um deles falou bem alto: este Fiat do senhor veio de longe. Nós vamos ficar aqui cuidando dele, e pa-pa-pa—- . Vamos cobrar xxx real!
Então tá…. Pelo menos, não apareceram vendedores.
TT
Lu Dias BH respondeu:
junho 21st, 2009 at 14:46
@Terezinha,
TT
Mesmo assim, não há nada que se compare à Índia.
Estive em Porto Seguro, ano passado, e achei tudo tranquilo.
Uma minha amiga “zen”, disse-me que foi literalmente despida na Índia.
Rasgaram-lhe a roupa, em busca de esmolas.
E o pior, ninguém fez nada, embora ela gritasse por socorro e estivesse no meio da rua.
É uma miséria esquelética, deformada, doída.
Ela voltou apavorada.
Beijos,
lu
Terezinha respondeu:
junho 21st, 2009 at 14:52
@Lu Dias BH,
Você tem razão, menina.
Acabo de ler um artigo no blog Indiagestão, da Sandra. “Quando um indiano te disser que Brasil e Índia são parecidos e que tem muitas coisas em comum, afinal ambos são países de terceiro mundo, responda: ” E aí ela cita 51 itens…..
Moramos no céu!
Beijos,
TT
Lu Dias BH respondeu:
junho 21st, 2009 at 15:02
@Terezinha,
TT
O diabo é mais feio do que se pinta.
Vou lá ler o texto da Sandreca.
Obrigada pela informação.
Beijos,
lu
D.Lu, é impensável que exista um lugar assim,parece até imaginação.O texto é fantástico,como sempre.
Obrigada por nos presentear com essa cultura tão rica e pra mim tão desconhecida .
Beijos
Zi
Lu Dias BH respondeu:
junho 21st, 2009 at 20:55
@zilma,
Zilma
Como eu gosto de tê-la por aqui.
Você é uma garota brilhante.
Pois é, minha querida, não dá mesmo para acreditar.
O pior é que é verdade.
Beijos,
lu
Mais um texto brilhante que me encantou, parabéns! Sempre achei piada à postura adotada por alguns monges e nesse texto referem isso, Como dizia Gandhi: Os animais são meus amigos e eu não como os meus amigos… Continue e encantar-nos que nós agradecemos. Bj.
Laura Medioli respondeu:
junho 22nd, 2009 at 19:02
@Cila Caeiro,
Cila
Também gostei muito do texto da jornalista Laura.
Nada como acompanhar os fatos da parte de alguém que já esteve no local.
Não há como contestar.
Espero que a Laura continue nos brindando com estes textos maravilhosos.
Veja o comentário dela, abaixo.
Beijos,
lu
Prezada Lu,
Obrigada pela carinhosa manifestação sobre minhas crônicas a respeito da Índia, é sempre bom receber o incentivo de quem nos lê. Obrigada também por divulgá-las em seu blog. Aproveito para parabenizá-la pelo seu trabalho, bem feito e muitíssimo interessante.
Com meu abraço,
Laura Medioli
Laura Medioli respondeu:
junho 22nd, 2009 at 19:05
@Laura Medioli,
Laura
Sou eu quem lhe agradece pela permissão de poder usar os seus belos textos em nosso blog.
É uma delícia lê-los.
Viajamos junto com você.
Espero que continue com a série no Jornal Pampulha.
Abraços,
Lu Dias
Lu querida,
Os templos são realmente encantadores. Mostram uma paz imensa – contraste gritante com a grande pobreza indiana. Grande abraço. Ana
Lu Dias BH respondeu:
junho 23rd, 2009 at 10:21
@Ana Lucia Timotheo da Costa,
Aninha
Estava conversando com um meu amigo, sobre a religião hindu.
E, ficamos encabulados de perceber, que tal religião não mudou quase nada com o passar de milênios de anos.
Enquanto o cristianismo passou por profundas reformas.
E pensar que o cristianismo buscou no hinduísmo, muitos valores, uma vez que nasceu muito depois.
Não é o contrário, como muitos pensam.
Se uma religião não acompanha o seu tempo, não há como abraçar seu povo.
Daí o diferencial entre as classes sociais serem tão alarmantes.
Ontem, acabei de reler o livro “A Distância entre Nós”.
O fim é tão trágico como é a vida dos dalits.
Não deixe de ler.
Peça pela Estante Virtual.
Pagará um 1/3 do valor.
Beijos,
lu