Itaipu, carnaval (pelos idos de 85).

Fernandinho, que herdou muitas coisas do padrinho, meu irmão, também era apaixonado por uma fantasia de pierrô. A mãe aqui foi à loja e comprou um lindo, com direito a máscara de tela com boca de ilhós. Ele tinha seus oito para nove anos.
Fomos para a casa de Nando passar o Carnaval. Esta casa, em Itaipu, fica num condomínio onde meu filho adorava estar. Muita amizade e brincadeiras. Até acamparam. Isto numa época segura não tão distante assim. As coisas mudam.
Levamos na bagagem, certamente, a fantasia tão sonhada. Ele não via a hora, para, com o filho da empregada, (o popular Nini Madureira) começar a passar trote nos amigos de lá. Sucesso completo. Os dois pintaram e bordaram. Criança já nasce sabendo impostar voz e imitar palhaço andando e se abanando com leque de papelão.
Cansados voltaram, tiraram as fantasias e socaram-nas numa bolsa de papel antiga, usada em supermercados. Na pressa, uma das máscaras ficou com uma ponta de fora. Ninguém se deu conta.
As visitas foram chegando – casa grande vira clube. Meu primo levou sua filhinha Julia, com seus 2 anos, também para aproveitar a folia. Crianças de um lado, adultos do outro, falando da vida e assistindo à programação pertinente à época. Cada qual no seu quadrado.
Brinca daqui, pula dali, até que eu me destaquei do grupo e qual não foi minha surpresa ao encontrar Júlia num canto, com olhos arregalados a me dizer: ‘ maica’, titia, maica! Meu Deus que seria maica? O quê, lindinha? Do que você está com tanto medo? A maica, dizia ela quase chorando. Foi um Deus nos acuda.
De repente resolvi acompanhar o seu olhar e lá estava a maldita máscara com o rabo de fora. Peguei Júlia no colo para que ela visse que não era nada tão apavorante assim. A alegria de uns muitas vezes causa espanto em outros. E fica registrado. Mais tarde é que a coisa aparece.
Voces podem não acreditar. Mas a Julia, hoje, já está quase médica e ainda se lembra deste acontecido.
A sensação de medo fica gravada em alguma gaveta cerebral, com certeza. Principalmente na primeira infância.
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Essas coisas marcam mesmo. Não apenas os sustos, como fatos inusitados. Lembro do dia em que, almoçando com meus pais na casa de meus avós, peguei um copo de cachaça, por engano, e bebi como se fosse água. Meu pai gostava de uma bebidinha quando o almoço era festivo. Eu, que não bebia nem refrigerante, apenas água, só fui beber algo com álcool depois de adulto. Assim mesmo, só gosto de cerveja, e olhe lá.
Sobre carnaval, ainda me vem à lembrança o cheiro daquelas bolas, feitas com bexigas, que eram batidas no chão, fazendo um barulhão e assustando muita gente. O nome da fantasia, se não me engano, era Clóvis.
Aninha
Que história mais terna.
As crianças são pequenos gravadores.
Com certeza a Júlia fcou apavorada com a “masca”.
E, ainda hoje, lembra-se da história.
Beijos,
lu
ANA LÚCIA
Embora tenha a Júlia tenha assustado, tuas lembranças são ternas.
Crianças são mesmo assim, assustam como aquilo que não compreendem.
Hoje, crescendo diante de tantas imagens, principalmente na TV, quase já não possuem mais este temor, o medo infantil.
Parabéns pelo teu texto.
Oi, Ana
Muita terna a sua história. Ela me lembra a minha infância. Nunca me assustei com máscaras de monstros, eu devolvia uma careta e, certamente, a minha aparência era mais assustadora, mais demolidora.
Nunca gostei dos fantasiados de “Clovis” , eram personagens indecifráveis: nem anjos, nem demônios, nem monstros. Por detrás dessas fantasias, as pessoas sempre aprontavam: no mínimo lançavam um jato de lança perfume.
Abraços
Manoel