I - Pesadelo ou o quê?
Acordou com uma sensação muito estranha. Parecia que estivera em algum lugar, mas não sabia onde. Estava vestida com roupas de sair: nunca dormia assim! Um gosto de guarda-chuva na boca e a cabeça pesando como chumbo. Tentou se virar na cama: tinha cama bem larga que lhe permitia rolar a vontade. Mas, alguma coisa a impedia de se mexer. Surpresa olhou para o lado direito. Alguém dormindo em sua cama! Um homem em sua cama! Inteiramente nu! Meu Deus! Assustada tentou se recostar, firmando nos cotovelos, para ver o rosto dele. Inútil! Estava virado para o outro lado o que impedia de lhe contemplar a face. Mas, mas essa não era a sua cama!!! Sentou, ainda tonta. Olhou em torno. Esse, sem dúvida, também não era o seu quarto!!! Tentou se lembrar o que tinha acontecido: inútil. A mente parecia vazia. Levantou-se cambaleando, procurando o banheiro. Uma porta entreaberta deixava ver o vaso sanitário. Um banheiro, que não era, certamente, o seu. Olhou-se no espelho: tinha confete nos cabelos, o batom todo borrado, um brinco esquisito na orelha esquerda… Era Reveillon? Não, não era ainda! Estamos em setembro, tenho certeza! Lavou o rosto, e tentou dar uma aparência melhor ao seu visual. Ajeitou os cabelos com um pente meio quebrado que achou na pia. Voltou ao quarto, procurando os sapatos. Não achou. O tal homem roncava como um porco. Saiu do quarto cheia de receio. Onde estava? Era, sem dúvida, um desses pesadelos que a gente tem e não pode acordar. Na sala, algumas pessoas dormiam sobre o tapete, um homem no sofá sem a camisa… Todos desconhecidos, aparentando mais de trinta. Copos e garrafas por todo lado. Pontas de cigarros, também. Uma cueca pendurada no lustre. Tentou se controlar do pânico que começava a sentir. Calma! Tudo isso deve ter uma explicação! Passos vindos do corredor: um homem surgiu na sala com um copo da mão.
— Veroca! Enfim alguém acordou! O “seu gostoso,” como está?
— Não sou Veroca e não tenho a mínima idéia de quem é o “seu gostoso”.
— “Seu gostoso” – dizendo isso apontava o dedo indicador para ela, acentuando a palavra “gostoso”
— Você apresentou ele assim: “ Esse é o meu gostoso!”
— Você deve estar me confundindo. Não ia nunca apresentar alguém assim: Meu gostoso! Eu não sou Veroca! Me chamo Marina! E não tenho “gostoso” nenhum!
— Depois que ele fez aquele strip tease total e caiu duro no meio da sala, levamos para o quarto. Você não viu? Chiii! Veroca, você estava ruim mesmo! Não lembra nem do show do seu gostoso? O ponto alto da noite! Veroca, ontem, hein? Aquele fank foi demais!!! Dança bem, garota!!!
— Não sei do que você está falando! Conversa de doido! De quem é esse apartamento?
— Se não é o seu, só pode ser da Irene!
— Quem é Irene?
— Irene, sua amigona! Lembra? Você dizia: minha amigona Irene! E caiam no samba! Mas, depois de todas que você bebeu… Refrescando sua memória: Irene é aquela de blusa vermelha, dormindo no chão.
— Com MINHA BLUSA? Agora, já estava gritando totalmente descontrolada. Respirou fundo, pensando: “Calma! Calma”. Era um pesadelo e ia acordar! Percebeu, então, estar vestindo uma camisa social masculina. Como? Por quê? De quem? Sua blusa em uma desconhecida! E aquele homem nu lá no quarto… Strip tease?
— Por favor, me diz como cheguei aqui, onde estou e quem são vocês?
— Bem. Por parte: só conheço a Irene, amiga de graaaandes farras! Os outros são seus amigos. Não conheço e nem sei quantos. Dormindo no outro quarto. Não tenho certeza, mas acho que estamos em São Conrado, ou Barra… Não sei. Ainda assim, sou o que ficou melhor. Chegamos no seu carro, isso eu me lembro! Belo carro! Importado! Dirige bem, garota! Com tudo o que bebeu… O guarda queria nos parar, mas você foi mais esperta e…
— MEU CARRO!!!!! Não dirijo faz anos e não tenho carro nenhum! Deus! Isso não estava acontecendo! E aquele negócio de “bebeu todas?” Não bebia nunca!
— Você veio dirigindo do “Bico Doce” até aqui! Você, seu gostoso, eu e a Irene no seu carro. Nos outros carros… Não sei.
— “Bico doce” o que é isso?
— Veroca!!! Que porre, hem, amiga! “Bico doce”, aquele barzinho na Lapa, lembra? Roda de samba! Mas, você é boa mesmo é no fank, gata! Que pandeiro! Que ritmo, gata!
Agora, estava em pânico! Ela, num bar da Lapa, bebendo, roda de samba, com uma turma da pesada… Desconhecida… Agora num apartamento em algum lugar, para onde veio dirigindo um carro importado de alguém… E de porre? Nunca tinha ficado de porre! Não podia ser verdade! Não era ela! Não! Não era! Estava tendo um baita pesadelo!
— Veroca! Você não está bem! Quer um antiácido? Quer vomitar?
Queria é acabar logo com tudo isso! Voltou ao quarto à procura dos sapatos e da bolsa. Entrou de novo no banheiro: uma mulher que tomava banho, abriu a porta do box e espiou:
— Há! É você Veroca! Me alcança a toalha? Marina lhe entregou a toalha sem protestar. Veroca! Veroca! Com alívio, encontrou sua bolsa pendurada no porta - toalha. Conferiu: documentos, carteira, chaves… Tudo lá! Graças a Deus! No celular, um recado aflito de sua irmã, Cris: “Marina! Onde você está? Seu celular cai sempre na caixa postal! Procuramos você na sua casa, mas o porteiro não te vê desde ontem pela manhã. Estamos todos preocupados. Você ficou de trazer o bolo da Bel. Por favor, me liga!”
Sim! Disso se lembrava: ia fazer um bolo para Bel, sua afilhada, mas faltavam ovos e saiu para comprar. Mas… e depois? O que aconteceu depois? A cabeça vazia de todo. Voltou à sala. No corredor, achou um par de sandálias de alguém: calçou, agradecendo a Deus ter servido no seu pé. O tal homem junto à janela ainda bebia, distraído.
— Veroca! Estive pensando, quando a turma toda acordar, a gente podia… Veroca!!! Aonde você vai? Você não esta em condição de dirigir! Veroca!!!! Vero…
Desceu correndo pelas escadas. Na rua, reconheceu o bairro: Leblon! Morava em Vila Isabel! Tomou, aliviada, o primeiro táxi que apareceu. Em casa, telefonou para Cris se justificando: tinha tomado um remédio muito forte e apagara. Agora já era domingo, cinco horas da tarde. O que fizera desde a manhã de sábado? Talvez nunca viesse a saber. Depois de um banho demorado, se meteu entre os lençóis, pensando:
“Não conto essa história nem pro meu analista! Senão, me internam!”
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29 de outubro de 2008 at 4:32
Sonia
Peguei este texto do teu livro prá ler ali na aba da página e quase morri de rir.
Genial. Extremamente bem escrito. A gente tentar se colocar na pele da Marina /Verônica é simplesmente delicioso. De Vila Isabel prá Lapa, nom Bico Doce, passando por uma dormida no Leblon com direito a parceiro pelado troca de roupa e por aí vai sem saber o que aconteceu é espetacular. Os outros, o fank e por aí vai e então a solução do remédio muito forte. Era a única saída mesmo. G E N I A L !!!
Muito bom mesmo.
Adorei. É maravilhoso esse primeiro texto. Vou ver se a gente pode ler os outros.
Sou muito nova de Internet e não sei bem como estas coisas funcionam.
O livro está à venda? Onde?
Parabéns, maravilhoso!!!
Haydée
[Resposta]