X - Saia justa

— Não, Marcela! Não! Eu não posso fazer isso que você está pedindo! Seria uma traição! Investigar seu marido?

— Traição? Traição é a dele! Tenho certeza! Só quero saber quem é a piranha. Só isso!

— Não! Não! Sou amiga de vocês dois, que diabo! Sua amiga de infância! Madrinha do seu casamento…

— Falou bem. Minha amiga de infância! Minha irmã! Preciso que faça isso por mim! Não custa nada, Gilda! Você arranja uma desculpa e procura Olavo. Você é muito boa nisso! E ele é advogado! Diga que precisa de uma informação… Orientação…

— Bem. E daí? Depois eu pergunto: Olavo, você está traindo a Marcela? É isso?

— Claro que não assim. Sei como você envolve as pessoas, como é sedutora quando quer. Hein?

— De mais a mais, eu não sou investigadora. Sou corretora, lembra? Não sei fazer isso, Marcela!

A cena se passa numa confeitaria de Copacabana. Marcela, casada há cinco anos com Olavo, agora desconfiando de sua fidelidade, pensou em recorrer à sua grande amiga Gilda. Tenta, em vão, convencê-la a ajudar. Gilda resiste à idéia.

— Mas, não vai custar nada! Você pergunta assim como por acaso: como vai a Marcela? Não a vejo tem algum tempo. E é verdade. Você agora quase não aparece! Muito trabalho é? Esqueceu da amiga?

Sim. Era verdade. Gilda, que, no início do casamento de Marcela, freqüentava seu apartamento quase toda semana, agora estava evitando essa aproximação com o casal. Motivo: Olavo, um galinha afamado, a estava assediando. No princípio, apenas com insinuações aqui e ali, brincadeiras inocentes na presença de Marcela. “Gilda cada dia mais linda, não é Marcela?” Algumas vezes, um toque de mão, como por acaso… Um olhar de sedução, quando Marcela se ausentava… Depois, começou a procurá-la por telefone, querendo um encontro, confessando-se apaixonado. Por último, passou a esperá-la na porta do escritório, com obstinada persistência, oferecendo carona que era sempre recusada.

— Tem alguém, eu sei. Quero saber quem é!

— Você deve estar enganada! Pense bem. Todo casamento é assim! No início, é aquele fogo! Eu sei por que já fui casada. Mas depois, com o tempo…

— Não! Tem alguém! Agora, quando a gente transa, parece que é por necessidade, não por desejo. Deixar de me procurar ele não deixa, porque ele é assim… Como dizer? Fogoso! Precisa! Mas parece que faz pensando em outra mulher! A gente sabe, a gente sente, não é? Ausente… Distante… Sempre distraído… Sem paciência com o Betinho… Sinais! Muitos sinais!

O coração de Gilda batia forte. Aquela desconfiança da Marcela era preocupante. Tentava se controlar.

— Já pensei em contratar um investigador…

— Não!!! - sua voz soou agressiva e alta. Pessoas em volta olharam com espanto.

— É! Você tem razão! Preciso agir com calma.

Gilda pensou: “se o investigador acompanhar Olavo… O carro sempre à porta do meu escritório… E fotografar… O que Marcela pensará? Olavo tem sido persistente, teimoso, querendo forçar um romance que eu não desejo iniciar. Estragar uma amizade tão bonita! Em pouco tempo ele se cansa, e eu perco minha amiga.”

— Só em você eu tenho confiança! Só você pode me ajudar!

“Meu Deus, que situação! Que saia justa!” Gilda olhou para sua amiga com ternura: “Quanta inocência! Não!!! Jamais teria coragem de… Mas, que era tentador, lá isso era! Difícil resistir! Olavo: bonitão! Corpo definido pela malhação, e aqueles olhos… Bastaria um aceno e… Não!!! Esquece Gilda!!! Esquece!!!! Ta doida é???”

— Promete que, pelo menos vai pensar no caso, han?

— Vou pensar. Pensar muito! Isso eu prometo!

Pediram a conta. Cada uma pagou a sua parte, como sempre faziam e se despediram na calçada.

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