XI - Um som na noite

Alice estava com dor de cabeça, tomou um analgésico e se deitou mais cedo. Acordou pontualmente às dez e meia. Alguma coisa a tinha despertado e, por um momento, não soube definir o que era. Prestando mais atenção, percebeu que era um solo de saxofone, doce e baixinho, enchendo a noite de beleza. Não era disco, não, era ao vivo mesmo! Alguém estudava sax pela noite!

Quando errava uma nota, a pessoa (músico, claro!) repetia o trecho uma, duas três vezes até acertar. Em alguns momentos, voltava e tocava a melodia desde o início, e era quando Alice gostava mais. A sua dor de cabeça passou como por encanto e ali, deitada, parecia que o músico tocava somente para ela. Ficou escutando… escutando… Da sua cama olhava o céu cheio de estrelas e aquela melodia envolvendo tudo numa atmosfera de sonhos… Adormeceu.

Na manhã seguinte, pensou ter mesmo sonhado tudo aquilo. Parecia tão irreal! É… deve ter sido um sonho! Mas não era! Na noite seguinte, estava vendo TV quando o som do sax recomeçou. Olhou o relógio: eram dez e meia! Não, não era sonho! Desligou a TV e foi para o quarto de onde podia ouvir melhor. A mesma melodia sendo estudada. Ah! Ele conseguiu tocar esse trecho! Ontem ele teve tanta dificuldade! Novamente se deitou e ficou ouvindo, ouvindo até adormecer. Mas, no dia seguinte estava curiosa em saber quem era o músico que estudava. Perguntou ao zelador. Ele não tinha ouvido nada! Música? Sax? O que é sax, dona? Bem. Não estava ficando maluca! Ou estava? Na outra noite, nem ligou a TV: foi logo para o quarto às dez e vinte cinco. Pronto: dez e meia e o som começou! Olhou pela janela procurando ouvir melhor de onde vinha o som. Não pode localizar. Ora parecia da direita, ora de cima, ora da esquerda… Procurou que apartamento estava com luz acesa. Nada! Olhou todas as janelas da vizinhança. Nada. E assim se passaram várias noites. O som do sax já fazia parte de sua vida. Ficava à espera e, pontualmente, às dez e meia começava. Cada vez ele tocava melhor: com uma obstinada perseverança, a melodia ia se definindo pela noite. E Alice, coração aos pulos, sonhava com o músico: como seria ele? Moreno? Claro? Negro? Moço? Já amava aquele som doce vindo de mãos tão habilidosas. Mas que preenchia suas noites de sonhos, de beleza. E quantas noites tinham se passado? Perdera a conta. Foi então que não ouviu mais seu sax. Ficou desesperada. Às dez e meia, esperou em vão o toque mágico que embalava seus sonhos. E esperou mais uma noite. Nada. Outra e outra… As noites, agora eram vazias e tristes. Nunca mais o seu amado tocou sax para ela. Só para ela!

Uma semana depois fechou a janela e trancou seu coração.

Agora para sempre.

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