XII - As rabanadas de amor
Conheceu aquele estranho homem numa tarde de Dezembro, quando toda a cidade estava aluminada para o Natal, mas o seu coração guardava luto. Longe da família, depois de tudo o que tinha sofrido Alice agora estava mais sozinha ainda. Com quem passaria a noite de Natal? Quase sem perceber sentou-se no banco da pracinha em frente ao seu edifício, a cabeça atordoada, sem saber ordenar seus próprios pensamentos, quando alguém falou:
- Não fique triste! Ninguém merece a sua dor! Sente! Nunca vi uma tarde bonita como a de hoje! E você?
Levou um susto. Parecia que alguém tinha lido seus próprios pensamentos. Olhou em direção daquela voz. Ao seu lado, um homem de meia idade, cabelos longos e grisalhos, alto e magro, barba rala no queixo, sorria para ela. Vestia terno escuro, embora limpo e já fora de moda. Estranhamente, não lhe inspirou medo algum. Tinha olhos de bondade. O homem falou novamente:
- Não guarde tristeza. A vida é tão bonita! Ninguém merece a sua dor!
Percebeu então que estava chorando. Lágrimas silenciosas molhavam seu rosto. Secou-as com vergonha de se expor assim em público e fez menção de se levantar. O homem segurou seu braço com carinho, perguntando:
- Conhece a Suíça? Tenho um castelo na Suíça!
Mais um maluco urbano, pensou. Ele continuou:
- Tenho também um apartamento em Nova York e uma quinta em Portugal. Mas quase não vou lá. Negócios me prendem no Rio!
Resolveu dar corda ao maluco, e perguntou:
- Que tipo de negócio o senhor tem?
- Cargo de confiança. De grande responsabilidade!
- Trabalha onde?
Não respondeu. Apenas, como se desse continuação ao seu pensamento anterior, concluiu:
- Tenho também um haras em Teresópolis. Quer conhecer?
Sentia-se um tanto incomodada com aquele personagem: Dom Quixote de Cervantes, sem armadura, pensou.
De novo, ele pareceu ler seus pensamentos:
- Pode me chamar do nome que quiser. Menos Dom Quixote! Grande demais. Somente de Dom. É sempre bom ser um dom! Gostei! Você… Eu vou chamar você de Flor. Flor é bonito também. Amigos?
Alice sorriu e estendeu sua mão. Dom lhe sorriu de volta. Foi esse o primeiro encontro de muitos naquelas tardes quentes de Dezembro. Quase sempre às sextas-feiras, ao cair da noite.
Acostumou-se, então, a vê-lo sentado naquele mesmo banco de jardim. Quando não o encontrava por alguns dias, ficava incomodada. Ele era um personagem muito especial. Sim. Um verdadeiro personagem de literatura. Saído de um romance antigo. Nunca aceitava nada: comida, dinheiro, roupa… Não que andasse mal vestido como os demais habitantes de rua, nem muito menos sujo. Não! Estava sempre com roupas limpas, mas antigas. Terno preto, camisa de colarinho duro, colete! Usava colete! No verão do Rio de Janeiro, usava colete! E não parecia sentir calor. Um dia ela ofereceu um par de sapatos ainda novos de seu marido. Não aceitou: “Desculpe, mas só uso sapatos italianos!” Com efeito, seus sapatos, embora já gastos, pareciam de boa qualidade.
A cada encontro, Alice mais se encantava com Dom e suas tiradas filosóficas, nem sempre oportunas, porém leves e otimistas. Reconhecia no primeiro olhar, se estava muito triste e, mesmo sem querer, ela se abria com o novo amigo esperando seus conselhos malucos, que logo vinham, fazendo-a rir e sentir melhor.Sem dizer claramente, ele lhe mostrava o ridículo de suas preocupações financeiras e de suas tristezas. Após ouvir com muita atenção seus desabafos, encontrava sempre soluções inesperadas e absurdas. Quem precisa de analista quando tem um conselheiro maluco a sua disposição?
- Quem te aborreceu? Teu chefe? Não? Não tem chefe? Se for, manda ele a merda! Chuta a bunda dele! Faz qualquer coisa assim! Escancara seus segredos! Mas tem que ser uma coisa grande! Eles sempre têm grandes segredos! E no meio de todo mundo, senão, não tem graça! Depois se demite, Flor! A vida é muito curta! Não precisa aturar! Então é dinheiro! Dinheiro! Dinheiro! Ele mata a alegria de viver! Quer morar comigo? É só dizer! Mando meu carro te buscar! Fazia então um longo silêncio. Parecia meditar com os olhos fechados. Depois, olhando para o céu, concluía, como sempre: “Hoje a tarde está tão bonita, não? Sente! Nunca vi uma tarde assim! E você?”
Sempre dizia isso, e lá se ia, quem sabe pra onde. O dia que vivia era sempre “o mais bonito.” A noite, “a mais especial!”
Véspera de Natal. Alice fez rabanadas, apesar de toda a trabalheira. Comeria só, na solidão do seu apartamento. Lembrou-se, então, de seu amigo Dom. Olhou pela janela. Sim, lá estava ele no mesmo banco da praça, como a esperá-la. Colocou as mais bonitas num prato especial, cobriu com um guardanapo: seria o seu modesto presente. Quem sabe cearia com ela?
– Pra mim? Adoro rabanadas! Rabanadas não podem ser feitas de qualquer maneira. Senão, fica horrível! Mas, as suas terão sabor de carinho! Rabanadas de amor! Obrigado, Flor!
Comeu com a gulodice de uma criança. Elogiando a cada mordida com: “hum… Hum…” Estalando a língua.
- Vem cear comigo! Estou tão sozinha!
- Bem que eu queria, minha Flor, mas tenho compromissos muito importantes!
- Hoje? Véspera de Natal?
-Justamente hoje, por ser Véspera de Natal!
Sorriu e afagou seu rosto, como só se faz a um amigo muito amado.
Depois lhe deu um longo abraço que lhe pareceu uma despedida. Olhou bem no fundo de seus olhos e concluiu:
- A vida é muito bela, minha Flor. E é tão breve! Precisa saber aproveitá-la. Sente essa noite! Nunca vi uma noite assim, e você?
Levantou e saiu, suavemente, se perdendo na escuridão. No fundo de seu coração, Alice percebeu que seria aquele o último encontro com o seu querido e estranho amigo. Sentiu um aperto no peito. Voltou para o seu apartamento, comeu as rabanadas com duas taças de vinho. Depois, sentindo muito sono, dormiu ali mesmo no sofá.
No dia seguinte, junto à porta, num lindo vaso de porcelana, encontrou uma esplêndida orquídea branca e, em um pedaço de papel, apenas:
“Sente, minha Flor, como o dia está bonito! Nunca vi um outro igual. E você?”
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