XIV - Um amor complicado
Marta fechou a mala sentou-se para escrever a carta. A derradeira carta, tão difícil! Pessoalmente seria impossível. Tão complicada aquela despedida! Não sabia bem como começar: “Meu amor?”. Não! “Meu querido” Sim! Sim! “Meu querido!” Então, vamos! Coragem! pensou.
” Meu querido,
Quando você ler esta carta, já estarei a caminho de Paris. Você sempre soube que esse dia chegaria, não é? Pois então, ele chagou. Preciso partir. Estou partindo, não porque deixei de te amar. Te amo ainda como no primeiro dia. Não! Te amo mais! Você se lembra?”
Parou de escrever e ficou pensando… O destino faz coisas! Conheceram-se na rodoviária, casualmente. Ela indo para sua casa na praia e ele, para onde ele ia? Até hoje não sabia. Não perguntou. Edu sentou ao seu lado e provocou o papo. Papo doido de quem quer passar tempo, enquanto espera. Marta tentou cortar a conversa, ele insistia, sorriso escancarado no rosto. Parecia tão garoto, com sua camiseta, jeans e tênis… Uniforme de todo adolescente.
“Deixa adivinhar: professora? Não? Sabe inglês? Francês também? Legal! Sou fraco em inglês! Preciso de umas aulas. Você podia?”
Quando percebeu, estava dando seu telefone. Como recusar àquele sorriso?
“Jamais esquecerei esse dia. E os dias que se seguiram. Seu telefonema logo na segunda-feira. As aulas que você me pediu, e nunca foram dadas. Nosso primeiro encontro na lanchonete, o sorvete que tomamos, o que conversamos… Tudo está guardado em minha memória e no meu coração, para sempre. Talvez você me esqueça, tão jovem! Desculpe, sei que você não gosta de tocar nesse assunto.”
Coisa doida foram aqueles primeiros dias. Sob um pretexto qualquer, ela disse logo sua idade: trinta e quatro! Ele, vinte e três. Parecia menos, Marta nunca confirmou. Não voltaram ao assunto até o lance do primeiro beijo, no segundo encontro. Edu olhou firme no fundo dos seus olhos, e perguntou: Faz diferença pra você? E sorriu. Ela deu de ombros, já totalmente conquistada por aquele sorriso.
“Desde os primeiros dias do nosso (parou de escrever e ficou pensando: nosso… o que? Caso? Não! Ficava muito superficial! Relacionamento? Também não! Nosso… Nosso… o que?) Riscou “do nosso”. Desde os primeiros dias, nós dois já sabíamos que esse momento ia chegar. Falei que estava só esperando ser chamada. Mas você, meu querido, irá sempre no meu coração. De você, levo sua alegria, sua louca juventude, a pressa de viver cada momento com tanta intensidade. Sua disponibilidade. Sua total irresponsabilidade diante da vida, e isso, de certo modo, foi muito bom. Eu era muito previsível, muito certinha, ponderada demais! Com você vivi os mais lindos dias de minha vida.”
Tardes inesquecíveis no apartamento de Marta. Evitava a praia, por motivos óbvios. Jamais poderia competir com as gatinhas, tudo em cima, praticamente nuas, que povoam as praias. Apesar de Marta também ter um corpo de fazer inveja às garotinhas, não queria comparação. No entanto, como diz o poeta: “Seus corpos se entendiam, suas almas não. Havia, sem dúvida, um distanciamento de idéias, trazido pela diferença de idades, impossível de transpor. Gostos, vivências… Edu, com seu rock da pesada, ela amando MPB, Chico e Caetano, Djavan… Ele querendo freqüentar música eletrônica, ela querendo mais barzinhos calmos e boa conversa. Ele, ainda na faculdade de Sociologia, ela, esperando ser chamada para um curso de após graduação no exterior. Suas conversas mais sérias, na maioria das vezes, ficava difícil de manter. Sartre? Quem é? Mas, seus corpos se entendiam muito bem.
“Deixo com você as sutilezas na hora do amor, que eu lhe ensinei. Porque pequenos gestos de carinho toda mulher ama receber. A falta de pressa no beijo e no sexo foi comigo que você aprendeu. E você aprendeu tudo direitinho. Foi bom aluno. Hoje te deixo com uma bagagem maior e melhor, tenho certeza. Desculpe a imodéstia, mas te fiz melhor! E você também me fez melhor. Nossa música, escolhida por nós dois, fica pra você: o CD está dentro de sua mochila sobre a cama. Comprei um outro igual para levar, e quando a saudade me doer demais vou ouvi-la. Centenas de vezes, eu sei. Porque ela é toda você. Não te disse que era importante ter a nossa música? Suas coisas, que estavam espalhadas pelo apartamento, já coloquei dentro de sua mochila. Levo o livro de Camus que te emprestei e você nunca leu.”
Edu não se mudou de vez para o apartamento de Marta, mas trouxe umas tantas “coisas para marcar território”, como dizia. Escova de dentes, toalha de banho, o vídeo game que adorava, sua guitarra, para infernizar os vizinhos… Algumas roupas, dois pares de tênis … Continuava, oficialmente, morando com a família, embora quase nunca fosse lá. A mãe reclamava pelo celular, ele dava uma desculpa. Marta ponderava: devia ir em casa, sua mãe fica preocupada! Edu tinha ciúmes dela! Fechava a cara quando algum colega telefonava para seu celular: queria saber o assunto, ficava atento à conversa.
“Não estou te despejando, mas emprestei o apartamento para uma amiga enquanto estiver fora. Ela chega na próxima semana. A chave você enfia por baixo da porta, quando sair. Minha amiga já tem uma cópia. Está difícil encerrar esta carta, meu querido! Você não sabe quanto! Beijos, beijos, beijos, Marta”.
Colocou-a em um envelope, escrevendo por fora simplesmente “Edu”. Prendeu-a na porta da geladeira, pensando: Procura logo uma latinha de cerveja!.
Deu uma última olhadela pela sala, chamou o porteiro pelo interfone para ajudar com as malas e saiu silenciosamente do apartamento. Do apartamento e da vida do seu amor. Do seu estranho, complicado e louco amor.
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