XV - Encontros em Paris

Taís sentou-se em uma das mesinhas que ficava na calçada, diante do “Les deux palais”, um simpático barzinho de Paris. Pediu uma caneca de vinho para esquentar. O inverno na Europa estava prometendo. A tarde caía já bastante fria. Suspirou, pensando: “Nisso, Paris é bom: pede-se uma bebida e fica-se a tarde toda sem ninguém incomodar. Muito menos o garçom.”

Aquela era a primeira tarde livre, desde que veio para a Europa como assistente-secretária do Dr. Rogério Pontes. O Mestre não dava trégua, pensou. (Chamava o seu chefe, assim. Coisa que o aborrecia um pouco.) Sorvia seu vinho espumante em pequenos goles quando uma figura feminina chamou sua atenção. Havia qualquer coisa de familiar no seu andar. Parecia distraída, atravessando a rua em diagonal e, sem perceber, deu uma topada no pé de uma cadeira mal colocada próxima à mesa onde Taís estava. De imediato, quase por instinto, soltou baixinho um palavrão bem brasileiro, que Taís deduziu pelo movimento dos lábios. Não se contendo, riu com vontade.

— Me desculpe! Não pude segurar! Brasileira? – perguntou.

— Só mesmo eu! Em Paris, reconhecida por um palavrão!

— Me faz companhia? – Taís apontou uma cadeira ao seu lado. Marta aceitou com gosto: o barzinho estava repleto e, nessa noite, precisava muito de alguém e de uma bebida bem forte. Seu corpo e sua alma gritavam por Edu.

— Estudando ou trabalhando? – perguntou.

— Trabalhando e muito! Taís Andrade, assistente do Dr. Rogério Pontes! Hoje de folga, só pra variar! – respondeu estendendo a mão, com um sorriso.

— Dr. Rogério? O grande cientista? Sei quem é! Procuro ler tudo que os jornais daqui publicam sobre o Brasil e os brasileiros. Saudades! Sabe como é!

— E você? O que faz aqui?

— Pós-graduação de francês, na Sorbonne. Fez sinal para o garçom e pediu também uma caneca de vinho.

— Deixou alguém no Brasil? Desculpe a indiscrição! Não precisa responder. A gente encontra um brasileiro aqui, e já pensa que é amigo de infância!

— Digamos que encerrei minha vida amorosa antes de partir! E você?

— Casada com minha profissão! - respondeu Taís.

— E isso basta?

— Claro que não! Mas, alguém tem que se sacrificar em prol do progresso da ciência, não? Foi minha opção! Renunciei ao resto! - Consultou seu relógio de pulso e exclamou:- Meu Deus! Preciso ir! O mestre deve estar maluco atrás de mim!

Escreveu o seu telefone num pedaço de papel e entregou à Marta, sua nova amiga e conterrânea: — Quando quiser, é só telefonar! Não sei se terei tempo. Mas me daria muito prazer! Pode ter certeza!

Marta ficou novamente sozinha e, nessa noite, em especial, sentia uma imensa falta do Edu. Levantou-se para sair e, sem querer, esbarrou num rapaz que também teve a mesma idéia.

— Pardon, mademoiselle!

— Não foi nada! Embora Marta dominasse muito bem o francês, distraidamente tinha falado em português.

— Brasileira? Sou italiano, mas namorei uma brasileira e aprendi sua língua! O tal italiano se expressava muito bem, embora com ligeiro sotaque, o que lhe dava certo charme. Tratava-se de um homem alto e magro, barba por fazer e óculos de grau. Uns trinta e poucos anos. Parecia um desses intelectuais que circulam pelas ruas da Europa.

— Fui ao Brasil no ano passado. Rio de Janeiro! Muito bonita!

Marta não respondeu. Deu alguns passos já se afastando. O tal rapaz seguiu atrás, insistindo na conversa:

— Posso lhe acompanhar? Me chamo Enrico e estudo música! Sax tenor!

Marta não sabia se queria ou não queria companhia. Naquela tarde, ouvira a música do Edu inúmeras vezes, e a dor da saudade só tinha aumentado. Aceitou, porém, a presença daquele italiano só para ter alguém ao seu lado. Por certo tempo, caminharam em silêncio. De repente, Enrico parou e disse:

— Moro aqui. Quer subir? Senão nos despedimos!

Marta aceitou com um aceno de cabeça. Subiram por uma escada de caracol até o segundo andar. O quarto estava na mais completa bagunça com livros e partituras por toda parte. Enrico pegou seu sax, em silêncio; sentou no chão e começou a tocar. A música, dolente e triste, fez com que ela ficasse ainda pior. Sem conter mais a saudade, deixou que as lágrimas, em silêncio, lhe rolassem pelas faces. Parando de tocar seu instrumento, Enrico acolheu-a em seus braços sem perguntas, onde Marta se aninhou, como criança. Então, o italiano carinhosamente levou-a para a cama. O sexo foi bom, intenso e forte, mas sem a ternura e a emoção que havia quando era com Edu. Na escuridão do quarto, Enrico dormiu pesado sobre seu corpo, a cabeça apoiada no seu ombro. E Marta, insone, chorava o seu Edu, tão longe e tão presente no seu corpo e na sua alma enquanto, instintivamente acariciava o dorso nu daquele estranho.

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