XVI - Sem saída

Ana Paula, socialite do primeiro escalão, marido rico, já casados há dez anos, freqüentando a mesma roda, resumindo: vida tediosa. Um dia, quando o marido estava em suas inúmeras “viagens de negócio”, resolveu fazer algo diferente: conhecer o mundo do povão, isto é, saber como o dito povo se divertia.

Planejou tudo: na tarde de sábado, deu folga para Rosa Maria, sua fiel escudeira. Como precisava de uma roupinha modesta (só tinha de grife), pegou uma de Rosa Maria, (tinham o mesmo corpo). Era um pouco mais alta, na verdade, mas felizmente tinha boas pernas, graças à malhação da academia. Ficou curtinha, mas caiu bem. Uma blusinha branca… (não se arriscou sair de mini blusa). Para apaziguar sua consciência, deixou uma nota de cem na mesinha do quarto. Pouca maquiagem.

Às dez e meia saiu pelo elevador de serviço e tomou um táxi, deixando o carro importado na garagem. Feira de São Cristóvão!

De início, ficou sem saber o que fazer. Zanzou entre as barracas, comeu um acarajé com refrigerante… Comprou uma bijuteria vagabunda para incrementar o visual… Então, se aproximou do grupo que, em torno de um conjunto regional, ouvia e dançava o tal “forró”. Alguém tocou seu braço; se virou e um homem (nordestino, sem dúvida!) fez sinal para ela e, sem esperar resposta arrastou para o improvisado salão. O homem dançava bem, apertando Ana Paula junto ao seu corpo, como acontece com o bom forró.

A música parou. “Qual sua graça?” “Hein?” “Qual seu nome?” Ana Paula riu do termo que desconhecia. “Rosa Maria” - respondeu, pensando: uso a roupa e o nome. Procurou adivinhar: o dele deve ser Severino ou Raimundo. Não era. “Me chamo Osvaldo.”

Andaram juntos por entre as barracas, Osvaldo até não era de se jogar fora: Bons dentes, nem gordo nem magro… “Vamos pra outro lugar?” Ana Paula já sabia qual era esse outro lugar. Não respondeu e ele, interpretando seu silêncio como um sim, pegou-a pela mão e a conduziu para fora do pavilhão. Apontou para um táxi estacionado: “É meu! Sou taxista! Quer conhecer meu cafofo?” Ana Paula pensou: Por que não? Rodaram por um certo tempo. Seu quarto ficava em um velho sobrado do Estácio. Osvaldo conduziu-a por uma escada estreita até um minúsculo quarto. “Menor que meu closet”, pensou. Mas, era limpinho: colcha de chenille cobrindo a cama de solteiro, uma mesinha e uma cadeira. Junto à porta, um velho armário. Só.

Fizeram sexo sem muitas preliminares. Osvaldo era desses homens rústicos, mas carinhoso. “Telefone? Não posso! Patroa não gosta!” Osvaldo rabiscou o dele num pedaço de papel. “Me põe num táxi? Não precisa me levar! Moro longe, São João de Meriti!” Ah! Rosa Maia, se você soubesse! “Tem dinheiro? Ah! Recebeu hoje? Se não, te empresto!” No táxi, ficou tentada a guardar o telefone dele. Não! Era perigoso. Jogou fora pela janela.

Saltou do táxi na porta de seu edifício. Três horas da manhã. Rua deserta, felizmente. Como de costume, seu olhar subiu até as janelas do seu apartamento. A sala estava acesa! Acesa!!!! Não, não tinha deixado acesa!!! Tinha certeza!!! Meu Deus, quem seria? O marido tinha voltado antes? Ou Rosa Maria? Que fazer? Assim vestida com a roupa dela! Por alguns instantes ficou parada, segurando o portão. Coração batendo forte.

Depois, corajosamente, se encaminhou para o elevador. O social!

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