IXX - Clarinha do Irajá

Clarinha tomou seu banho na hora de sempre, vestiu-se com suas roupas caseiras, limpas e discretas. Botou um pouco de colônia, como sempre fazia. Só um pouquinho. Adalberto reclamava se exagerasse. Gostava de batom vermelho, mas Adalberto proibiu de usar. Dizia que ficava vulgar. Olhou-se no espelho e sentiu-se apagada. Saia abaixo dos joelhos, uma blusinha de mangas. Velha. Sentia-se velha. E só tinha vinte e oito anos. Agora pronta, o que fazer? Podia ligar o rádio, mas as músicas que gostava de ouvir, Adalberto reprovava. E ele podia chegar mais cedo. Não! Nunca chegava antes da hora, nem depois, mas tinha medo. Não confiava na empregada, parecendo sempre que a espionava. Gostava de um bom pagode, um forró rasgado, uma música romântica cheia de segundas intenções. Música, ele só aprovava as clássicas. Clarinha odiava. Quando Adalberto a levou a um concerto, dormiu. Ele disse que, com o tempo, ela aprenderia a gostar. Ele ia lhe ensinar a ser fina. Mas, porque gente fina não podia gostar de música alegre? De Zeca Pagodinho… De Roberto Carlos, Fábio Junior… Isso é que era música boa, falando de amor. Depois, ele passou a examinar o que ela lia. Revistas? Só as sérias. Nunca mais pôde saber das fofocas dos artistas da TV. Só trazia revistas com assuntos estranhos, que não compreendia. Para ela se instruir! Pode?

Vida chata! Quando conhecera Adalberto era caixa de um supermercado. Viu logo o interesse dele. Viúvo, vinte anos mais velho, comerciante estabelecido na praça. Tinha uma lojinha no ramo de roupas. Homem culto, diziam. Quando a família soube do candidato, ficou toda excitada. Os pais de Clarinha eram pobres, morando numa casinha de subúrbio alugada. Na primeira vez que foi à casa de Clarinha, Adalberto levou flores para sua mãe. Ela ficou vendida! Só dizia: “Você não pode perder esse homem. Tão fino! Apartamento próprio! O que você quer mais?” Foi literalmente empurrada para o casamento. E já tinham se passado cinco anos! Desde então seu marido procura modificá-la. Logo, censurou o comprimento de suas saias e vestidos. Mulher de respeito não põe as coxas de fora! Pintar o rosto? Pra quê? Você é tão bonita assim ao natural!! Não podia nem mais rir alto, jogando a cabeça para trás, cheia de alegria, como fazia antes. Alegria já não tinha. Cantar? Se começava timidamente a cantarolar qualquer coisa, ele levantava as sobrancelhas como a perguntar o porquê e balançava a cabeça censurando. Clarinha se calava. Não saiam quase nunca, a não ser aos domingos quando iam almoçar na casa dos pais dela, que babavam por aquele genro maravilhoso.

Agora, sentada na sala, olhou à sua volta: tudo sempre igual. Até as almofadas das poltronas. Tudo sempre no mesmo lugar. Sua vida, uma sucessão de dias iguais, lhe parecia um único dia, a continuar, continuar… A empregada fazia todo o serviço, saia às cinco horas. Deixava a janta pronta, só para esquentar. Adalberto chegava pontualmente às seis e meia. Tomava banho e vestia um pijama que parecia ser sempre o mesmo. Sentava-se à mesa pontualmente às sete, esperando pelo jantar. Depois de comer em silêncio, jogava-se na mesma poltrona, abria o jornal que tinha trazido, e lia como se fosse uma obrigação. Às nove consultava solenemente o relógio, que não tirava do pulso, bocejava (sempre o mesmo bocejo!) levantava-se e ia se deitar. Arrastando os chinelos. Tudo sempre igual! Faziam sexo aos sábados. Clarinha nunca engravidara.

Ah! Como estava arrependida de ter se casado! Como era feliz antes, com sua vidinha modesta, mas livre. Quando era ela mesma, a Clarinha do Irajá, que ria alto, dançava pagode aos sábados, cantava na roda de samba, namorava sem compromisso… Não a Maria Clara, como Adalberto fazia questão de a chamar. Nem a “Dona Maria Clara”, da empregada. Proibida de tudo que era bom. Não! Estava cansada! Cansada! Cansada!

Súbito, tomou uma decisão. Seis horas! Só tinha meia hora! Levantou e foi até o quarto. Arrumou uma pequena valise com as roupas de solteira que estavam escondidas no fundo do armário. Vestiu a mini saia que realçava suas pernas, batom vermelho na boca, e soltou os cabelos. (Usava-os agora sempre presos).

Sim! A Clarinha do Irajá estava de volta! Procurou dinheiro na gaveta. “Se precisar de dinheiro, deixei na gaveta!,” dizia Adalberto. Menos do que pensava. Pão duro! Mas, tinha que dar! Desceu até à calçada, não sem antes jogar a chave da porta na caixa do correio. Para onde iria? Aonde o dinheiro desse. Bem longe, bem longe… Por um momento ficou indecisa. Tudo bem! Resolveria no caminho da rodoviária!

Respirou fundo. Jogou a cabeça para trás e riu alto. Um rapaz que passava disse uma gracinha. Tornou a rir. Sim! Era a Clarinha do Irajá que renascia!

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3 comentários para “IXX - Clarinha do Irajá”

  1. Haydée Colussi disse: Reply to this comment

    Soninha

    Que figura linda e viçosa essa Clarinha do Irajá. Parece uma aragem fresca e perfumada entrando pelos recantos mofados da casa desse Adalberto tão velho, sem graça feito um maracujá seco que não vê nada além de seu umbigo. Clarinha é uma personagem de quem já tinha ouvido falar por Paulo Afonso em um de seus comentários.
    Você vai retomá-la?
    Tomara que sim pois ela é o próprio grito de liberdade trancado na garganta e que agora parece ter saído!
    Lindo, muito, lindo mesmo esse texto primoroso que você tão bem sabe engendrar.
    Parabéns
    Beijo
    Deia

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  2. Haydée Colussi disse: Reply to this comment

    Soninha,
    Acho que errei de nome pois acredito que ela é do Encantado a garota de quem Paulo Afonso fala.
    Desculpa o mau jeito.
    É essa vida de horários curtos que eu arrumei prá mim. Não costumo ser desatenta, mas ler seu texto foi tão bom que extrapolei.
    Um beijo contrito
    Deia

    [Resposta]

  3. Ana Lucia Timotheo da Costa disse: Reply to this comment

    Soninha,
    Genial! Bom saber que ainda existe uma Clarinha capaz de romper com a monotonia deste tipo de vida a dois. Brigou para resgatar-se. Beijão. Ana

    [Resposta]

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