II - Difícil decisão

Faltavam cinco dias para o casamento. As amigas até já tinham promovido o “chá de panelas”. Só faltou a dinda Marina com o bolo. Só cinco dias! Isabel estava em pânico! Marcelo sempre fora um homem apaixonado, mas equilibrado. Desde os primeiros dias de namoro, tinha falado que não estava passando tempo: queria casar! Isabel estranhou a pressa. Esmola demais…

Não estava apaixonada por Marcelo. Não! Tinha se apaixonado por Gilberto, aos quinze anos e foi arrasador. Ele só queria uma aventura e nada mais. Oito anos mais velho, a tratava como uma criança mimada. Achando interessante a relação com alguém assim, virgem ainda. Conheceram-se na festa de quinze anos de uma amiguinha. Ele, do interior, mas escolado, parente da aniversariante, estudando no Rio. Ficou louca de paixão. Com Gilberto conheceu o sexo e os motéis, deixando em seu diário de adolescente, páginas e páginas de confissões de amor eterno, envolvidas em corações contendo “Gilberto,” “Gilberto”… No auge da paixão, ele foi embora sem despedidas. Onde morava, o porteiro só informou ter viajado para sua terra. Não! Não sabia se voltaria. Escreveu várias carta cheias de saudades, exigindo explicação. Passaram-se semanas. Nada de notícias. Pensou, então, em se matar! Gilberto leria pelo jornal a sua morte e se mataria, também, de remorso. Não teve coragem: sua juventude falou mais alto. Dias trancada no quarto, em lágrimas. Estudos esquecidos… Ano escolar perdido… Mas, veio o verão, o calor, os dias de sol, a turminha chamando para a praia… Rasgou o diário e voltou a viver. Gilberto ficou no passado. Bem guardadinho em seu coração.

Apareceram, então, as paquerinhas, começadas e terminadas nas praias ou nas festinhas. Todas sem importância. Todas esquecidas no dia seguinte. Pensava em Gilberto, quando voltasse queria estar descompromissada. Assim, não deixava o caso ficar mais sério, nem se permitia amar de novo. Ele, um dia voltaria!

Dedicou-se ao pré-vestibular com afinco. Passou a freqüentar a biblioteca pública durante as tardes. Conheceu então Augusto, que encontrava sempre lá, envolvido em livros antigos. Ficou encantada! Era um intelectual! Sabia tudo! Ensinava para ela os pontos mais complicados com uma facilidade extrema, e um sorriso no rosto que a derretia. Profundo conhecedor de filosofia. Foi um amor platônico. Augusto jamais soube que Isabel morria por ele. Na saída procurava sempre Augusto com o pretexto de uma explicação. Solícito, ele nunca negava. Um dia Augusto também sumiu da biblioteca e Isabel perdeu seu amor platônico, jurando não mais amar.

Alguns anos se passaram. Na verdade, Isabel procurou esquecer seus dois amores e se dedicar aos estudos. Mas, de vez em quando, seus pensamentos voltavam, ora para Gilberto, ora para Augusto. Com Gilberto, conhecera o sexo, o toque de pele, a paixão. Com Augusto, o amor platônico feito de olhares, de pequenos cuidados. Então, balançava a cabeça tentando afastar os pensamentos. Não queria mais “perder tempo com homens”, como dizia.

Mas, quando estava terminando a faculdade, conheceu Marcelo: irmão de uma nova amiga. Ele ficou encantado! Marcelo era engenheiro civil, com escritório já montado e clientela certa. Namoro relâmpago, noivado e data do casamento marcada. Tudo rápido, como um filme ou uma novela. Incentivado pela amiga, irmã do noivo e, claro, por sua mãe.

Agora faltavam cinco dias! Isabel cheia de dúvidas! Será que amava Marcelo? Tirou o vestido de noiva que estava experimentando e saiu para a rua deixando a modista falando sozinha. Tinha que andar! Precisava por as idéias em ordem.

Entrou numa igreja quase sem perceber. Um jovem padre, ainda em paramentos da missa, rezava ajoelhado no primeiro banco. Alguma coisa parecia familiar. Augusto! Augusto? Era ele? Sim! Augusto agora era padre! Conversaram em voz baixa ali na penumbra daquela igreja. Sim! Quando se conheceram ele já estava seguro de sua vocação! Desde menino, sempre quis ser padre! Cursava o Seminário! Estudava Teologia na biblioteca. Só uma vez vacilara. Dizendo isso, olhou para Isabel e sorriu. Foi uma prova! Concluiu. Despediram-se em silêncio, respeitosamente.

Na rua, ainda tonta, Isabel esbarrou em alguém. - Bel! É você Bel? – Só os muito íntimos a tratavam assim- Não está me reconhecendo? Gilberto! Você é a mesma! Não! Está mais bonita! Quanto tempo!

Não! Não podia reconhecer aquele homem que estava em sua frente: gordo, suado, roupas surradas… Não parecia ser o homem que ela pensava ter amado! Só a voz e o sorriso eram os mesmos. Tinha casado. Quatro filhos. Representante de um laboratório, visitando a praça. Gilberto a abraçou com intimidade, beijando-a na face. Entregou seu cartão, dizendo: “Quando quiser vai conhecer a minha terra. Joana adora receber visitas! Vai casar? Então, se quiser passar a lua de mel”…

No caminho da praia, sentiu o cheiro forte de maresia penetrando em suas narinas. Um vento leve desarrumou seus cabelos. O seu passado tinha lhe feito uma visita. Não sabia se queria se casar, mas estava liberta! Tinha ainda cinco dias para resolver. Tirou os sapatos e mergulhou no mar.

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2 comentários para “II - Difícil decisão”

  1. Haydée Colussi disse: Reply to this comment

    Sônia
    Essa continualção

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  2. Haydée Colussi disse: Reply to this comment

    Sonia
    Desculpa, esbarrei no enviar antes de comentar.
    Essa continuação também, Marina, Bel e os rapazes, adorei.
    Ótimas soluções para os finais dos contos.
    Parabéns
    Muito gostoso teu texto
    Um Beijo.
    Vou continuar lendo.
    Haydée

    [Resposta]

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