XX - Clarinha e seu novo destino
A rodoviária estava bem cheia. Clarinha se deu conta que era sexta-feira, sete horas da noite, e muitas pessoas aproveitavam para viajar. Procurou um assento para descansar e resolver seu destino. Ainda não sabia o que fazer da sua atual liberdade. Além do mais, o dinheiro era pouco. Adalberto era mesmo mão de vaca! Estava tão absorta em seus pensamentos que levou um susto quando ouviu a voz do homem ao seu lado, se dirigindo a ela:
— Oi! Tá indo pra onde?
— O quê?
— Desculpe se te assustei!
— Não faz mal! Tava distraída. Ainda não sei!
— Ora! Tá na rodoviária e não sabe pra onde vai?
— É que estou fugindo!
— Não é da polícia, é?
Clarinha jogou a cabeça para trás como era seu costume e deu uma risada gostosa:
— Tenho cara de bandida?
— Me desculpe de novo. Você já reparou que, nesse tempinho, já te pedi desculpas duas vezes? Só tô dando fora, não é?
Clarinha tornou a rir. Divertido esse cara! Gostava de gente que fazia ela rir. Adalberto nunca fazia. Sério demais.
— Tô fugindo do meu marido! Larguei ele. Não agüentei!
— Ele não te batia, não é?
— Isso não! Me tratava muito bem. Feito rainha, como ele dizia. Vida de rainha deve ser muito chata!
— Então… Por que…
— Queria me mudar! Fazer de mim a “senhora Maria Clara”. Só me chamava de Maria Clara. Não sou Maria Clara, sou a Clarinha do Irajá! Me conheceu assim: gostando de samba… de forró… de mini saia… de batom vermelho… Não pode! Não pode! Não pode! Queria me transformar numa dama, ele dizia. Mas eu acho que isso de ser dama é muito chato! Não pode isso, não pode aquilo… Enchi de parecer o que não sou.
Clarinha ficou surpresa com ela própria. Tinha sido um desabafo, há muito entalado em sua garganta. Calou de repente, meio constrangida.
— Ainda não nos apresentamos direito. Você é a Clarinha do Irajá, eu já sei. Eu me chamo Osvaldo e sou taxista. Ou melhor, era taxista. Estou voltando pra minha terra, no interior da Bahia. Quer seguir comigo? Gostei do seu jeito!
— Você não é casado, é?
— Se fosse não te convidava. Na Bahia ainda tenho pai e mãe… Um bando de irmãos… Gente simples. Acho que você vai gostar, pelo que senti. E o meu pessoal vai gostar de você, tenho certeza.
— E aqui! Não ficou ninguém?
— Ninguém! Um dia, ou melhor, uma noite, até encontrei alguém: Rosa Maria. Você conhece a Feira de São Cristóvão? Foi lá!
— Conheci há muito tempo. Quando era solteira! Fui uma vez, com uns amigos. Adalberto, você já sabe…
— Não conhece mais! Está que é uma beleza! Mas como ia te dizendo, conheci uma tal de Rosa Maria, na feira, dançando forró. Gostei dela! Ficou com o meu telefone, mas nunca me procurou!
— Mas você não…
— Não deixou endereço nem telefone. Disse que a patroa não gostava. Ainda existe escravidão no Brasil. Perdi contato.
Mas como ia dizendo. Quer viajar comigo pra Bahia? Já que está sem direção…
— Gostaria muito mas acho que meu dinheiro não dá!
— Guarda seu dinheirinho pra viagem! Vendi meu táxi! Depois você me paga!
— Sendo assim… Acho que vou aceitar. Adeus, Adalberto! Até nunca mais.
Clarinha jogou a cabeça pra trás e riu alto. Osvaldo também riu. Vida nova!
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22 de novembro de 2008 at 14:57
Soninha,
Ainda bem.
Li o texto todo esperando que não desse certo e amei ela ter encontrado uma vida nova, uma boa saída junto aos seus iguais. Gente como Clarinha precisa de liberdde. O velho marido tentou fazer com ela uma coisa impossível. Acho que pessoas lindas e livres assim se não fugirem elas morrem.
Um beijo
Adoro teu texto solto e leve.
Deia
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