XXII - Boa vizinhança

Quando cheguei, a porta do apartamento em frente estava aberta e muitas caixas bloqueavam o elevador. Logo apareceu o novo inquilino do 406: morenaço, com um sorriso de parar o trânsito, como diria minha mãe. Desculpou-se pelo transtorno. Aproveitou para pedir, logo de cara, um “pequeno favor”: deixar seu “sofazinho” no meu apartamento até saber onde colocá-lo. Sorri meio nervosa quando vi o tamanho do “tal sofazinho”: enorme! Ele tomou o sorriso como sim e foi logo introduzindo o mesmo, junto com os carregadores, para dentro de minha minúscula sala. E ali ficou por semanas! Depois, todo dia pedia alguma coisa: podia ceder uma xícara de açúcar? Duas colheres de café? Não sabia aonde tinha colocado o abridor de lata! Podia emprestar o seu? Não devolveu mais! E o telefone? Podia dar uma ligadinha? (Hei! Não tinha celular?) Não é DDD, é? (Era! Felizmente “só” DDD! Mas, bem demorado! E parecia ser pra mulher!) Ficar com o passarinho aquele fim de semana que ia viajar? Sujou toda minha sala com alpiste que eu tive que comprar com meu dinheiro, porque ele tinha se esquecido de deixar comigo. Mas, como dizer não àquele sorrisão? Podia, se não desse trabalho, botar minha roupa na “sua” máquina, enquanto a minha não está ligada? Ainda não tive tempo de ficar em casa pra receber o instalador! (Meu sabão, minha luz…) E sorria! O poder daquele sorriso! Mas aquilo já começava a incomodar! E muito!

A coisa toda culminou naquele fim de semana em que o “belo sorriso” me pediu o “grande favor” de ficar em casa pra receber o instalador da sua máquina de lavar. Ele ia viajar na sexta-feira e o cara só podia vir no sábado: tinha um compromisso de trabalho, sabe como é! Da minha janela eu vi quem era o tal compromisso: uma loura tipo manequim! Ah!!! Vou dar um basta nisso!!! Se vou!!! Pensei, pensei…

Na semana seguinte pedi emprestado o cachorrinho de uma amiga que estava deixando ela maluca, latindo sem parar e roendo todos os seus sapatos. Sem falar do cocô e do xixi! Levei até a porta do meu vizinho e, quando ele abriu, pedi o “favorzinho” de ficar com o bichinho naquele fim de semana: ele não incomodava nada!!! E, antes que ele esboçasse qualquer reação, desci correndo pelas escadas porque o “cãozinho” já estava começando a latir. Na segunda-feira fui buscar o meu salvador. Entregou o animalzinho sem uma palavra, e desapareceu de minha vida.

O “senhor sorriso” tem sido visto entrando no 403!

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