XXIV - Gente pra caramba

Chovia há dias sem parar. Quase nove horas. Lúcia olhava pela janela, vendo a cortina de água que caia e enchia a sarjeta. Viúva, com filhos criados e independentes morando em outra cidade; agora sozinha, vivia de uma pequena pensão em seu pequeno apartamento. Edifício modesto de três andares e seis unidades. Vida regrada. Nisso, o telefone tocou.

— Dona Lúcia! Sou eu, Shirley!

Shirley àquela hora? (Pronunciava assim: Shirlêy - oxítona mesmo! “Minha mãe sempre me chamou assim: Shirlêy!” Ela dizia ao se apresentar.)

Era Shirlêy, como queria ser chamada sua faxineira.

— Sabe… A chuva… Entrou no meu barraco! Tudo debaixo da água. Nós não pôde fazer nada! Estamos na rua com a roupa do corpo. A gente pode ficar aí até a chuva passar? Alô!

Lúcia pensou rápido. Três pessoas: Shirley, o marido e o Zezinho, de quatro anos. Bem, arruma-se um jeito.

— Claro, Shirley! Sem problema! Podem vir!

Campainha da porta. Lúcia abre e encontra umas doze pessoas aglomeradas e assustadas diante dela. À frente Shirley e o marido com o filho no colo. Lúcia não pôde disfarçar o seu espanto. Por alguns instantes, atônita, não soube o que dizer, nem mesmo o que pensar.

— Sabe o que é, Dona Lúcia. Eles também não têm onde ficar. Quem tinha parente… Eles não têm ninguém. E são como minha família.

Foi apontando e fazendo as apresentações:

— Maria da Penha e Osvaldo são meus compadres. Batizei o Carlinhos. Vizinhos de porta, a casa deles tá cheia d’água que nem a nossa. Podia deixar eles na enchente? Podia?

Lúcia olhou: casal com cinco crianças de várias idades. Shirley continuou:

— Dona Quirina, coitada! Já com setenta anos… E seus dois netos. O barraco deles está pra cair! Falta pouco! Pobrezinha!

Dona Quirina, mulata clara, cabelos brancos saindo por baixo de um lenço encardido, amparada por um rapaz de seus dezoito ou vinte anos, sorriu docemente para Lúcia. Ao lado, outro rapaz, mais escuro, olhava para o chão, meio constrangido.

— Essa aqui, é Elisângela: ta morando comigo desde que a mãe botou ela na rua, causa da barriga.

Diante de Lúcia uma quase menina. Não teria mais que treze anos, grávida de uns seis ou sete meses.

—Tudo gente boa, gente de bem, viu? Se não fosse, não trazia. Dá pra entrar?

Sem saber o que dizer, Lúcia se afastou e Shirley foi introduzindo seu grupo pela sala. Foi então que reparou: estavam todos molhados. Meu Deus! O que podia fazer por toda aquela gente! Assim, de imediato, precisavam se enxugar e trocar de roupas sob pena de ficarem doentes.

— Shirley, apanha umas toalhas no armário do banheiro. Estão todos molhados! Vou ver se arranjo umas roupas…

Mas, pra toda aquela gente… De criança e de homem, não tinha.

Meu Deus! Precisava fazer alguma coisa, mas o que? Sozinha… Procurar os vizinhos? Não conhecia quase ninguém naquele edifício, morava de pouco. Além do mais, era muito tímida, pra bater nas portas de estranhos.

“Bem, mas é uma emergência. Vão compreender” - pensou.

Armando-se de toda a sua coragem, gritou:

— Shirley, volto já!

“Primeiro, no apartamento 101. Minha vizinha de porta. Já conheço de encontrá-la quando vou à padaria, pela manhã ou quando a vejo no corredor. Parece gente boa. Seu nome, como é mesmo? Já me disse! Ah! Patrícia!”

Explicou o caso em poucas palavras.

— Sim, tenho algumas roupas velhas que já ia dar. A senhora vai subindo que vou pegar e já lhe acompanho.

Dos cinco apartamentos, dois estavam fechados. Os demais prontamente se dispuseram a colaborar. No 202, um casal de idosos tinha até roupas dos netos; com boa vontade poderiam servir nas crianças. No 302 morava um senhor sozinho, que nunca falava com ninguém. Hesitaram em bater. Será que deviam? Se entreolharam, uma dando coragem pra outra. Mas, após ouvir em silêncio a história dos flagelados da chuva, ele entrou retornando com uma sacola de roupas e, espanto, desceu com elas. No caminho disse chamar-se Augusto. Em poucos minutos todos estavam no apartamento de Lúcia com bolsas de roupas.

Lúcia que conhecia um ou outro, mas só de vista, ficou emocionada. Havia tanta vontade de ajudar… Em todos havia uma expressão de solidariedade, de calor humano. De extrema boa vontade diante do acontecido.

Então um dos meninos cochichou alguma coisa no ouvido da mãe.

— Fica quieto, garoto! Já tá bom demais! Sossega!

— Mas eu tô com fome!

— Já disse pra ficar quieto!

Escutando a queixa do garoto, Lúcia se deu conta de que todos deveriam estar sem comer há horas.

— Vocês estão com fome, não é?

— Bem… - gaguejou Elisângela. Se a senhora me arranjar um cafezinho… Tô com tonteira! Tamos sem almoço, só com o café da manhã!

Dona Amélia, a senhora do 202, foi logo sugerindo:

— Dona Lúcia, que tal a gente fazer uma sopa? Eu tenho uns legumes e um pedaço de carne. Num instante fica pronta! Enquanto isso, vão mudar essa roupa molhada pra não ficarem doentes. Procurem nas sacolas.

— Acho que tenho uns pacotes de macarrão no armário! Mas, pra esperar, vou fazer um café forte com pão e biscoitos. Não é muita coisa, só pra esperar.

Fizeram a tal sopa e os hóspedes comeram com muito gosto. Estavam famintos! Tudo resolvido? E como abrigar tanta gente, aquela noite?

Patrícia foi logo dizendo:

— Posso alojar os compadres.

Lúcia pensou: - Menos sete pessoas. Nada mal!

Dona Amélia, após consultar seu marido, se prontificou a ficar aquela noite com Dona Quirina e Elisângela.

Até o senhor Augusto se apresentou para ficar com os dois rapazes, netos de Dona Quirina, com quem já conversava sobre futebol na maior animação.

Enfim, só restou mesmo a família de Shirley. Separou um cantinho no quarto de empregada, entulhado de cacarecos. Colocou um colchonete. Por hoje…

Shirley, da porta do minúsculo quarto, olhou ternamente para sua patroa:

— Sabe Dona Lúcia, a senhora é muito legal! É gente pra caramba!

Lúcia sorriu. Olhou mais uma vez pela janela. A chuva tinha passado e algumas estrelas brilhavam no céu. Uma brisa fresca soprava gostosa. Duas horas da manhã. Havia uma pequena comunidade sob sua responsabilidade e não sabia, por hora, o que fazer. Mas, tinha conhecido pessoas maravilhosas, seus vizinhos. Não! Não estava mais sozinha. Fechou a janela e foi se deitar. Veria o que fazer amanhã!

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