XXV - O sonho de Márcia

Aposentada! Pronto! Há muito sonhava com esse momento. Márcia tinha sido professora primária e depois funcionária pública. Agora, com sessenta e um anos, estava aposentada! Dedicara toda a sua vida ao trabalho, já que nunca tinha se casado. Nesse momento, seu sonho estava prestes a se realizar: uma casinha no interior e lá viver da aposentadoria. Agora só queria tranqüilidade! Vida mansa, como dizia. Até já conhecia a cidade ideal: calma, pacata e simpática, mas com certos recursos: um bom hospital, comerciozinho jeitoso… Pessoas hospitaleiras e amáveis. Lá tinha passado suas últimas férias com seu grupinho de amigas: Letícia, divorciada, Arlete e Beth, ambas viúvas com as quais viajava. Amou a cidade. O dinheiro economizado toda a sua vida daria, certamente, para comprar uma casinha. E assim fez.

Encontrou uma casa muito boa e espaçosa. Grande até demais, já que na cidade era difícil aparecer alguém interessado em adquirir algum imóvel. Dois grandes salões, três quartos… Um jardim cheio de flores que a encantou de saída. O preço foi muito bom. Fechou negócio e providenciou a mudança.

E foi aquela trabalheira! Tanta coisa se junta sem saber pra que! As amigas ajudaram, embora sob protesto. Letícia não se conformava: “Você tá é doida! Morar na roça!” Arlete não dizia nada, mas olhava para a Letícia com cara de quem aprovava suas palavras. Beth lamentando a distância: “E nossos passeios, nossas praias… as excursões… Você vai fazer falta! E não venda seu apartamento daqui! Você vai voltar!” Mas nada demoveu Márcia do seu propósito. Estava decidida! E assim fez.

De início tudo era novidade. A arrumação, os primeiros contatos com os moradores, conhecer melhor a cidade, o seu pequeno comércio, o clube, Igreja aos domingos… Sentiu, então que precisava de uma empregada. A casa agora era grande, não o minúsculo apartamento onde morara. A vizinha lhe apresentou uma candidata, irmã de sua funcionária. Pareceu na medida: boa aparência, as melhores referências. Salário combinado (no interior a oferta de mão de obra é grande, não exigem muito!). Tudo certo! Mas, analfabeta!!! “Sua irmã?…” “Também, sim senhora! O colégio era longe de onde a gente morava,” desculpou-se. Assim, aos poucos, foi descobrindo que havia muita gente analfabeta na cidade. Alguns até diziam que não, envergonhados, mas eram sim! Apenas sabiam rabiscar o nome, nada mais. Aquilo começou a incomodá-la, a mexer com ela. Professora que era, viver em uma cidade com um índice de analfabetos tão elevado! Por outro lado, aquela vidinha parada já estava mesmo incomodando. E se… A casa, grande demais, com duas salas praticamente vazias… E se… Será que ia dar certo? Uma escolinha para alfabetizar adultos! Custou a encarar a idéia que não saía de sua cabeça. Mas, a partir do momento que aceitou essa pequena loucura, resolveu sondar sua ajudante: “A senhora vai ensinar a gente! Queria sim! Minha irmã também, posso garantir!” Elaborou então um método todo seu, bem fácil. Providenciou o material (naturalmente gratuito!). E assim foi. No primeiro dia, duas alunas: sua empregada e a irmã. Na noite seguinte, já eram seis, graças à propaganda boca a boca de suas alunas. Uma semana depois, as cadeiras não foram suficientes. Sala cheia. Alguns, tímidos ainda, olhando da porta, com receio de entrar. Esperando convite que sempre vinha de dentro. Márcia precisou segurar a emoção. Todos com tanta vontade de aprender…

Naquela noite, após a aula Márcia se olhou no espelho do quarto: apesar do cansaço, havia um brilho nos seus olhos e seu rosto resplandecia. Sentiu-se tão bonita! Tão importante! Como não podia dormir, sentou-se e escreveu uma carta para cada amiga contando sua alegria, seu entusiasmo por aquela sua nova “turminha de pés descalços”, como chamou. E dos planos futuros que vinham surgindo agora em sua cabeça. Uma horta comunitária para os alunos (o quintal era bem espaçoso!) Nas aulas daria noções de higiene, (falar da dengue), meu Deus, tanta coisa precisava ser dita! Tanta coisa para ensinar! E aquela mocinha já de barriga! Pré-Natal?

Na manhã seguinte colocou as cartas no correio. Já havia até se esquecido que as enviara, envolvida com sua escolinha, freqüência cada vez maior, quando certa manhã foi acordada pela empregada chamando:

“Dona Márcia, Dona Márcia, diz que são suas amigas! Tão na sala!”

Realmente as três na sala, cheias de saudades e de sorrisos. “Queremos conhecer sua escolinha!”

Alguns dias depois estavam todas envolvidas com a tal “escolinha”. Letícia quis logo ensinar alguma coisa ligada à moda, maquiagem, um pouco de “etiqueta” como dizia toda orgulhosa. Arlete assumiu a horta comunitária, higiene e culinária: “o valor dos alimentos”, como dizia. E era boa nisso! Beth ajudava Márcia a monitorar e preparar as aulas. Aos sábados começaram a fazer “tardes dançantes” entre os alunos. E as idéias não acabavam. Meses se passaram.

Ninguém falava em ir embora. Já estão pensando em ficar de vez.

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