IV - Dois destinos, dois caminhos
- Lídia! Sou eu de novo! Então, como nós combinamos, você fica responsável pela Silvia. Bela herança companheira! Como você me aconselhou, deixo a Silvia em suas mãos. Um grande desafio para uma psiquiatra, não? Daria uma bela tese! Meu avião parte às nove. Mais uma vez, obrigada! Quando puder, te dou notícias. Não te digo pra onde vou. Você vai, mesmo, saber pelos jornais. Mas veja bem: a Silvia não pode descobrir! Conto com você! Beijos! Valeu, amiga! Desligou. Um certo remorso roia seu coração. “Não! Não! - pensou - Fiz o que pude por ela! Fiz mais do que seria humanamente possível fazer. Sempre fiz! Agora, depois do que ela me aprontou, não dá mais!”
Carregava Silvia como uma cruz, por todos aqueles anos, desde o colégio. Primeiro, Silvia e suas trapalhadas escolares. Depois seus casos de amor complicados. Só se interessava por quem não prestava. Taís resolvendo tudo para ela: as pequenas e grandes encrencas em que sempre se metia. Era rotina buscá-la em delegacia porque dirigia em alta velocidade ou esquecia os documentos em casa. Pagar suas contas, seus cartões de crédito, para ela não cair no SPC; eternamente desempregada, porque não aturava o chefe, ou não obedecia a horários, ou faltava ou…
Entre Silvia e Taís havia muito mais que uma amizade: cumplicidade. Mas eram tão diferentes! Taís, responsável e ponderada, médica ginecologista conhecida por sua competência, agora assistente de um médico famoso por suas pesquisas no campo da genética. Silvia, bipolar, não concluíra o segundo grau, se submetendo a subempregos, nos quais não permanecia por mais de uns poucos dias.
- Taís! Preciso de você! Estou mal, amiga! Levei o fora do Geraldo! Vem pra cá? Estou no fim! Só você pode me ajudar!
-Silvia! Silvia! Geraldo de novo! Amiga, ele não presta! Sai fora! Estou estudando, você sabe, preciso estudar muito. Já são onze horas! Amanhã tenho que trabalhar muito cedo!
- Ta bem. Então, vou pra sua casa. Não posso ficar sozinha. Estou deprimida. Se não fosse você…
Conselhos, não adiantavam. Noites perdidas conversando com ela. Jurava não procurar mais o traste. Melhor: quando Geraldo tentasse voltar, ela não o aceitaria mais. Porém, era ele telefonar, saía correndo ao seu encontro, cheia de esperança - ele jurou que tinha mudado! Agora seria diferente! Tinha deixado as drogas! Era outro homem! - Sentiu em sua voz!
Felizmente Silvia não caíra nessa das drogas. Mas Taís tinha medo que isso pudesse acontecer! Ainda não tinha chegado a isso, felizmente! Mas veio aquela noite. Foi a gota d’água. Taís tinha ido a uma festinha de comemoração ao prêmio recebido por seu chefe. Ao voltar, encontrou Silvia deitada na soleira de sua porta. Pálida como um cadáver, quase desfalecida. - Me ajuda, amiga? Fiz uma besteira!
- O QUÊ? Tenho até medo de perguntar!
- Fiz um aborto! Me garantiram que não tinha perigo. Mas estou mal. Acho que vou morrer. Me ajuda?
Taís pensou: ela, ginecologista assistente de um médico famoso que está recebendo prêmio, entrevistas em todos os jornais… Agora convidado a dar palestras no exterior… Tinha até chamado para lhe acompanhar. Ficara de dar resposta. Meu Deus! O que vou fazer? Levar Silvia para um hospital? Logo veriam tratar-se de um aborto. A imprensa publicando: “Dra.Taís, assistente de doutor Rogério Pontes, traz ao hospital amiga que fez aborto!” Comentariam por baixo dos panos: seria eu a responsável? Ao menos ficaria a dúvida. A carreira pela qual tanto lutara indo por água abaixo. Meu nome…. Meu emprego… Meu futuro… Mas… e Silvia? Abandoná-la à própria sorte? Só tinha ela! Família do interior. Sua cabeça rodava. Levou a amiga para dentro. Ali é que não podia ficar: chamaria atenção dos vizinhos. Calma! Calma! - pensou - Quem poderia ajudar? Lídia! Sim! Amiga de ambas, ela conhecia bem o “meu problema”.
Com efeito, Lídia com a cabeça mais fresca, levou Silvia para o hospital de um amigo, num subúrbio distante. Lá ficou até se restabelecer. Depois foi transferida para uma clínica psiquiátrica onde faria um tratamento de desequilíbrio emocional, sob a responsabilidade de Lídia.
Taís, depois dos últimos acontecimentos, tomou a decisão mais difícil de sua vida: seguiria na equipe! Chegara à conclusão de que aquela amizade estava fazendo mal às duas. Sua super proteção tinha impedido Silvia de crescer, de amadurecer, de ser responsável por sua vida. Taís, sempre resolvendo seus problemas, a mãezona. Mas ela, Taís, também perdera muita coisa por causa de Silvia: amores, amigos e amigas… Passeios que deixara de ir, cursos que perdera para dar assistência à “pobrezinha”… Noites de estudo que não fizera para lhe paparicar…
Lídia, muitas vezes tinha tentado mostrar isso que agora, só agora, conseguia compreender. Precisava partir! Para o bem de ambas! Longe talvez… Talvez por longos anos… O tempo diria.
Apagou a agenda do celular e deu ao filho do zelador. Vida nova! Um dia talvez voltasse, talvez não. Quem sabe do futuro?
Imprimir











23 de novembro de 2008 at 18:56
Soninha,
Não sei quase nada de psicologia a não ser o que percebi fazendo anos de terapia.
Honestamente acredito que, se não dominamos as técnicas necessárias para o tratamento de um dado distúrbio como no caso de Taís, só ajudamos pessoas com os mesmos problemas que no fundo temos. Caso contrário como identificá-los?Ainda bem que Sílvia é do ramo.
Para que alguém fuja de um problema que se lhe apresenta, acho que está prestes a se perder dentro dele. São só opiniões minhas. Não sei se procedem.
Penso que talvez Taís também seja bipolar. Posso até estar cometendo um sacrilégio ao dizer isto mas quem não arrisca não aprende.
Quanto ao texto acho você ótima ao escrever. Fácil de ler e precisa. O que quer que tente, sempre funciona lindamente.
Um beijo
Deia
[Resposta]