V - Encontro com o passado
A galerinha era grande. Formada desde os tempos do colégio e fortalecida nas férias quando se encontravam todo dia: juntos na praia, para o cineminha ou nas festinhas de sábado. No meio dessa turma animada, reinava Bia. Não era a mais bonita. Roberta sim, loura com seus grandes olhos azuis, era linda. No entanto, sempre discriminada pelas garotas, que a julgavam orgulhosa e metida. Mas Bia era diferente. Tinha aquilo que podemos chamar de um encanto especial. Uma luz que não significava somente beleza exterior: era algo que vinha de dentro. Sabia cativar, dando atenção a cada um como se fosse especial e todos adoravam Bia, embora Fernanda fizesse muito sucesso por ser mais extrovertida. As meninas disputavam quem seria a melhor amiga de Bia e os garotos tentavam namorá-la sem sucesso. Bia distante fingia não perceber suas tentativas. Quando pressionada, dizia ao pobre rapaz que gostava muito dele sim, mas só como amigo. Intimamente via defeito em todos. Carlão só tinha tamanho, muito bobão, só falando de futebol. Renato, baixinho, da sua altura, como poderia usar saltos? Albertinho, esse era gordo!!! Alfredo, então! Com aqueles óculos de fundo de garrafa? E Marcos? Bonito sim, mas metido a galã! E assim o tempo passou. Nem um namoradinho siquer. Bia afastava todos parecendo não se importar. Na época da faculdade foi estudar no interior, partindo toda feliz, para realizar seu sonho: ser advogada. Muito choro e promessa de escrever sempre. Computadores, e-mail, ainda não existiam. Com o tempo essa promessa foi esquecida. Agora, formada em Direito tendo, por alguns anos, exercido sua profissão na cidadezinha onde havia estudado, estava de volta. Pensava procurar logo sua turminha, mas… Falta de tempo? Ou coragem de remexer no passado? Dava sempre uma desculpa para adiar o momento.
Ao sair do fórum, certa tarde, ouviu uma vozinha que lhe pareceu familiar chamando: “Bia! Bia!” Voltou-se e deu de cara com Fernanda, gloriosamente grávida. Caíram nos braços uma da outra. Fernanda então arrastou-a para um banco da pracinha a poucos passos de onde estavam.
— Fernanda, você está linda. Quantos meses? Seis?
— Sete! Esse é meu temporão pra fechar. Já tenho dois quase adolescentes! Adivinha com quem me casei! Com Renato.
Bia pensou: Renato? O baixinho? Fernanda com toda aquela altura!
Fernanda riu: — Surpresa? Pois nós nos amamos muito. Ele é o homem de minha vida! Acho que tirei a sorte grande!
— E… os outros? O… O… Carlão… Alberto… Martinha… Roberta… Analu…
— Carlão já está saindo do segundo casamento. Mas nenhuma das duas é da turma. O Alberto está trabalhando na Bahia. Emagreceu! Está um gato! Você não vai reconhecer! Noivo de uma baiana. De férias no Rio. A Marta fez um curso de teatro experimental, qualquer coisa assim… Sei lá. Não sei direito. Quase não aparece mais. Analu, a esquisita, não sei… Mas você deve saber, era a única que se relacionava com ela. Marcos? Depois de adulto fez a sua opção: agora é gay. Roberta continua linda, mas não casou como você. Diz que também fez opção. É psicóloga. O João… Sabe aquela mania de fotografia dele? Tem um estúdio, até faz exposições. Já recebeu prêmios com isso.
— Casado? – Bia perguntou fingindo indiferença.
— Não! Diz que espera por alguém especial. Ainda agora está aí pelo mundo em busca de fotos para sua nova exposição. Chega no sábado e estamos, eu e Renato, programando uma festa surpresa para ele. Toda turma vai aparecer. Quase toda! Conto com você! Vou te dar meu endereço. Remexeu na bolsa a procura de um cartão.
João! João foi o único que nunca tentou namora-la. Ficava assim de longe olhando disfarçadamente. Quando seus olhos por acaso se encontravam, desviava. João mexia com ela. Sempre solitário com sua máquina fotográfica. Nunca namorou ninguém.
Enfim chegou a noite da despedida. Bia já havia dançado com todos. Menos com João. Mas de repente tocou uma música romântica. João se aproximou, como se estivesse apenas esperando por aquele momento e levou-a até o meio do salão. Dançaram muito juntos em silêncio. Como nunca haviam feito. Pela primeira vez, Bia sentia uma emoção diferente. Coração acelerado. O tempo havia parado. Os outros não existiam mais. Apenas os dois e aquela música suave. Ao som do último acorde, ele se afastou. Sem uma palavra. Foi a sua despedida. Sumiu da festa e não foi visto no aeroporto com a turma. Daquele momento mágico, ficou o som da música em seus ouvidos. Como um presente.
Voltou à realidade com a voz de Fernanda que exclamou espantada, consultando o reloginho de pulso:
— Meu Deus nem vi o tempo passar! Renato deve estar preocupado.
Despediram-se com carinho. Fernanda acenou da esquina, gritando:
— Sábado! Conto com você! Não falte, hein!
Ao entrar em casa, Bia correu para se olhar no espelho do banheiro. Há muito não se cuidava como devia. O cabelo, por exemplo, precisando de um corte mais moderno e uma tintura, onde já se viam os primeiros fios brancos. Estava um pouco acima do peso. “Não muito, pensou! Apenas suas linhas estavam mais arredondadas.” Já se desculpando pelas últimas extravagâncias: Chopinho dos fins de semana… Sanduíches e pizzas em vez de saladas menos calóricas. Examinou a pele: necessitava de uns bons creminhos que, muitas vezes, se esquecia de usar no corre - corre da vida. Pensou: “Como estaria o João? Gordo? Careca? Velho? Ainda teria aquele jeito displicente que tanto a encantava? Por que não perguntou à Fernanda? Ainda se lembraria dela? E o que significaria “esperando alguém especial.” Seria ela? Pretensiosa! Pretensiosa! Deve estar falando de um modo geral! Depois de tanto tempo.. Não viaja, Bia!” Meu Deus! Pela primeira vez em sua vida estava com medo. Parecia uma adolescente! Devia ir a esse encontro? Esse encontro com o passado? Com o único homem que fez seu coração bater um dia?
Mas, sábado chegou. Às dez e meia, já estava pronta. Deu uma última olhada no grande espelho do quarto: O corte do cabelo lhe dera um ar jovial. A maquiagem, discreta e cuidadosa, ressaltava o que tinha de mais interessante: seus grandes olhos negros. O vestido novo combinava com o tom de sua pele morena. Sentiu-se mais segura, embora suas mãos tremessem um pouco ao fechar a porta do apartamento.
Como seria esse encontro com o passado? A conclusão de uma história de amor mal resolvida? Ou, afinal, essa noite seria apenas o desfecho de uma louca fantasia congelada no tempo e no espaço?
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23 de novembro de 2008 at 19:10
Soninha,
Tudo ficou meio no ar. Como é que acontece a festa?
Vou procurar no conto seguinte.
Bjo
Deia
[Resposta]