VI - A esquisita da turma

Dirigindo seu carro a caminho da festa, Bia foi pensando nos seus velhos amigos. Lembrou de Ana Luísa, com saudades. Onde estaria ela? Ana Luísa, isto é, Analu, era conhecida pela turma assim: “Analu, a esquisita”. Quase não falava com ninguém. Aos doze anos era a mais alta da turma, tinha pernas e braços muito longos e finos, o que fazia projetar os ombros para frente ao caminhar, sempre de cabeça baixa. Suas feições, um pouco grosseiras para uma menina, mostravam um rosto meio quadrado, boca grande de lábios grossos, emoldurado por cabelos crespos e rebeldes. Filha única de mãe viúva, Analu vivia, então, de casa para o colégio, isolada das demais companheiras. Na sala de aula, sempre parecia ausente e quando era chamada, os professores tinham de repetir várias vezes a mesma pergunta e, então, os coleguinhas caiam na risada, deixando-a toda corada. Nunca era convidada para uma festinha nos fins de semana e, quando havia trabalho de grupos, ficava difícil achar um onde pudesse encaixá-la.

Certa manhã, no caminho do colégio, Analu percebeu que estava sendo insistentemente observada por um homem. Sempre que tal fato acontecia, ficava em pânico. Dessa vez, porém, não se tratava de um garoto: era um homem já maduro, bem vestido, parecendo analisá-la em detalhes. Como por instinto, bruscamente, deu sinal e saltou do ônibus, embora faltassem dois pontos ainda, partindo em desabalada pela rua. No dia seguinte lá estava ele dentro do seu ônibus. Dessa vez acompanhado por uma mulher. Com a cabeça fez um sinal para sua companheira indicando a presença da menina e ambos pareciam comentar coisas sobre ela. De novo? A presença da mulher, de certa maneira, a tranqüilizou. Não, não era paquera. Deu sinal para saltar e o casal também. Tentaram uma aproximação, mas Analu se misturou às colegas e entrou correndo no colégio. À saída, lá estava o casal. Caminhou apressada para o ponto e eles também. Ao descer, eles também desceram. Não tinha mais dúvida: estava sendo seguida. Mas, por quê? O que queriam com ela? Dessa vez apenas a seguiam, sem tentar uma abordagem. Entrou em casa e foi para o quarto. Da janela viu o casal se afastar.

Dois dias depois a campainha tocou e, quando Analu atendeu, lá estavam eles. O senhor retirou um cartão do bolso e então fez as apresentações: eram de uma agência de modelos e queriam falar com os pais dela. Com certa apreensão Vilma, sua mãe, deixou que entrassem. O que queriam com sua menina? Como haviam dito, estavam procurando modelos adolescentes. A garota tinha futuro! Seria uma linda modelo! Tinha um rosto diferente, exótico, e um corpo que, se bem trabalhado… Vilma resistia. Não! Analu era muito menina ainda! Tinha que estudar… Modelo? Além do mais, Analu era muito tímida! Nunca seria uma modelo! Imagina!!! Analu nada dizia. Parecia ausente, mesmo assustada. Mas o casal continuava insistindo. Ela só faria um teste. Se ela quiser… Você quer? Dizia a mãe. Analu fez que sim com a cabeça. Mas só se eu for junto! E se ela for aprovada, eu tenho que acompanhá-la sempre até sua maioridade. Que isso faça parte do contrato! Vilma era escolada. Resumindo: tudo aceito, Analu fez o teste e então desabrochou, se transformando numa linda modelo. A estrelinha da agência!

Depois disso deixou o colégio, recebendo aulas particulares. Anos mais tarde Bia tentou localizá-la pela Internet. Seria mesmo modelo? Estaria no Brasil, ainda? Sem ter sucesso, recorreu, então, às antigas colegas

Eis algumas respostas que recebeu por e-mail:

1) Analu, a esquisita? Parece que tentou modelo, imagina! Mas, não conseguiu.Tudo que sei, é que se casou com um rapaz do interior de Goiás. Está enorme de gorda e com uma penca de filhos.

2) Analu? Você não sabe? Dizem que morreu de anorexia tentando chegar ao corpo de modelo. Pobrezinha. Era tão desengonçada, não? Que judiação!

3) Menina de sorte, essa esquisita! Foi pra Europa e caiu no gosto de um nobre europeu. Casou e hoje é Mrs. Ana Luísa de… Tem um sobrenome complicado. Esses estrangeiros têm um gosto tão estranho, não é?

Bia recebeu muitas outras indicações sobre o destino de Analu. Mas nunca conseguiu localizá-la, realmente.

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Um comentário para “VI - A esquisita da turma”

  1. Haydée Colussi disse: Reply to this comment

    Soninha,
    Agora entendi. Vou lendo e encontrando ou reencontrando as pessoas nos textos seguintes.
    Estou adorando. Genial.
    É incrível.
    A inveja mata!!!
    Bjs
    Deia

    [Resposta]

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