VII - Bonita demais

Roberta nasceu linda! Desde a maternidade foi admirada por sua graça e beleza. Seus lindos cachinhos dourados e seus olhinhos azuis, parecendo duas contas, fizeram sucesso entre enfermeiras e médicos. Assim cresceu terceira filha, única mulher, em família de classe média alta, mimada por todos. Na escola, sempre se destacava, não só por sua beleza, mas também pela inteligência e vivacidade. Várias vezes foi escolhida Rainha da Primavera nas festinhas escolares. Até chegar à adolescência era o centro das atenções entre as coleguinhas. Ditava moda nas festinhas de aniversário: Roberta estava usando vestido assim, cabelo penteado daquela forma, e todas passavam a imitar. Tudo nela ficava especial.

Isso até chegar aos treze anos. Meio gordinha que fora, deu então uma espichada. Cresceu e emagraceu. Mais linda ficou. Aí passou a ser invejada pelas meninas da turma que se afastaram dela. Festinhas eram realizadas na surdina, em segredo, aos cochichos. Ninguém a queria por perto, com medo da concorrência. Ficava sabendo depois. Expansiva que era até então, passou a se isolar do grupinho, magoada com essa atitude. Suas mais íntimas amigas já tinham seus namoradinhos. Ela não! Por quê? Parecia que os rapazes tinham medo dela! E tinham mesmo! Bonita demais! Nenhum ousava se aproximar. Ficavam de longe, admirando, assim como se ela fosse uma artista de cinema ou de televisão. Roberta refugiou-se nos estudos. Além da escola, inglês e alemão. No clube que freqüentava foi convidada a participar de um concurso de beleza. Não aceitou. Precisava desfilar? Não! Não tinha coragem! Não gostava de se exibir!

Faculdade! Chegou á hora de se definir. Que profissão escolher? Psicologia? Medicina? Direito? Veterinária? Psicologia, sim! Entrou num cursinho e conheceu Guilherme! Guilherme era o mais brilhante da turma. Sobressaia com perguntas inteligentes e pertinentes. Queria sempre saber mais. Não era bonito, mas o que importava? Parecia de família humilde. Ela conhecia bem roupas de grife, tênis de marca. Guilherme, embora estivesse sempre com camisas limpas e bem passadas, via-se que eram roupas compradas em lojas populares. Trabalhava em meio expediente, chegando às vezes atrasado às aulas. Mas, psicologia era sua vocação e a ela se dedicava. Roberta tentava se aproximar, arranjando desculpas para estar sempre por perto. Guilherme, solícito, atendia seus pedidos, mas não passava disso. E Roberta sonhava totalmente apaixonada. Um dia, quem sabe ele ainda reparava.

Véspera do vestibular. Aulas extras. Saída tumultuada. Uma garota atravessando a rua e gritando para o seu Guilherme que retribui acenando. Abraços e beijos apaixonados. Roberta cai das nuvens. Ele tem namorada! Tão feinha! Roberta que sempre ganhou tudo o que quis: brinquedos importados, roupas e jóias caras, até um carro de luxo ao fazer dezoito anos. Mas agora, seu objeto de desejo parecia perdido, impossível de alcançar.

Que adiantava ser tão bonita, como todos diziam? Que adiantava ter tudo que tinha, se o homem que amava nem sabia do seu amor. Não sabia? Será? E todos os esforços que fazia para se aproximar dele? Os livros que pedia emprestado e nem lia, as explicações de assuntos que já sabia, o cisco que simulou ter no olho e quase o beijou, assim tão perto… Tanta coisa tinha feito! Ele sempre distante! Apaixonado, não por ela, mas por aquela menina sem graça. Viu nos olhos dele, quando se beijaram ali, no meio da rua.

Percebeu, então, que estava chorando silenciosamente. Lágrimas descendo pelo seu rosto e embaçando sua visão. O casal já tinha desaparecido sem ela perceber. Lentamente caminhou sem destino, perdida, um gosto amargo de fracasso na boca. Não era mais a princesinha. Era sim uma mulher sofrendo sua primeira desilusão de amor. Como todas as mortais, um dia.

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Um comentário para “VII - Bonita demais”

  1. Haydée Colussi disse: Reply to this comment

    Soninha,
    Essa garota me lembra a música do Chico - As meninas.
    Música em que ele fala das possíveis dores das meninas e sempre pede: As minhas não!
    A dor vem quer sejamos lindas, feias ou mais ou menos assim como a felicidade e o gozo. As dores da vida que nos dão consistência mais dura à pele da alma e o contrabalanço da felicidade para torná-la mais flexível.
    É assim mesmo.
    Teu texto, amiga é uma coisa!!!
    Um beijo
    Deia

    [Resposta]

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