VIII - Esperando o seu amor

O telefone tocou quando já tinha tomado seu tranqüilizante e ia se deitar. Marina atendeu meio sonolenta. Desde aquele estranho episódio no Leblon, acordando entre uma turma de malucos, dormia mal e toda noite tinha pesadelos. Ele no aparelho celular. Mania de se apegar a porcaria! Quer dizer, não com referência a ela. Mas o celular jurássico, pipocando… Custou a entender.

— Ah! Chegando aqui em meia hora?

“Meu Deus! Tinha que tomar uma ducha para despertar. Usar aquele perfume que deixa ele louquinho! Lavar a cabeça… Ah! Já sabia o que fazer: Lavar a cabeça e deixar os cabelos molhados: sexy, muito sexy… Meia hora! Que mania os homens têm de não dar tempo pra nós! Meia hora! Meia hora! Bem, agora vinte e cinco minutos. Preciso é ficar calma! O que fazer primeiro?”

Atordoada, acendeu o gás, e enquanto esperava a água esquentar, escovou os dentes, se despiu…

“Nossa! Tirar o empadão do frízer e colocar no microondas.”

Foi nua pra cozinha. Aproveitou e colocou aquele vinho especial na geladeira. Voltou correndo ao banheiro não sem antes olhar a hora: “já passaram quinze minutos!” Tomou uma ducha às pressas, se enxugou, usou aquele hidratante carésimo, se perfumou! Vestiu o roupão novo bem quentinho. Ia surpreender ele, vestida assim. De roupão sobre a pele: nada por baixo!

“A mesa! Tenho que por a mesa! Por que não comprei flores quando fui ao mercado? Velas? Não! Será um exagero.”

Tirou a louça especial do armário, lavou e enxugou. Arrumou a mesa em segundos, com aquela toalha que ganhara de sua mãe. Ficou exausta. Sentou pra descansar um pouco. Ufa! Voltou ao banheiro, se penteou, e se olhou no espelho. É! Estava sexy! Modéstia à parte, não parecia ter a idade que tinha! E ele gostava dela assim, sem maquiagem. Sorriu pro espelho. Voltou à sala e se sentou pensando: “quando ele chegar, deixo o interfone tocar três vezes pra não parecer que estou ansiosa.”

Olhou o relógio da parede: “cinqüenta minutos! Atrasado, como sempre!” Tentou se distrair, arrumando as revistas sobre a mesinha de centro.

— Ah! A música!

Colocou o CD que tinha aquela música especial, só deles: “Quando ele chegar, é só ligar”.Olhou o relógio de novo: “uma hora e dez minutos!”

Suspirou e pensou: “Relaxa… Relaxa…”

O telefone tocando - Alô! –

Sua própria voz soava ansiosa, tensa. Ele dizia o quê?

— Hein? O carro enguiçou? O quê? Esperando reboque? Tá bem, amor! E amanhã? Ah!… Se der?
“Essa mania de se apegar a porcaria! Esse carro sempre deixando ele na mão! Arre!!! Devia matar ele!!!! E bem devagarinho!!! Homens, homens…” Tirou o roupão e pendurou no cabide. Vestiu aquele pijaminha velho e tão confortável. Só de pirraça, abriu o vinho, acendeu a TV e dormiu no sofá.

IX - O dia da Colombo

— Então, estou curada, doutor?

Alice fez a pergunta prendendo a respiração. Boca seca. Ninguém para segurar sua mão naquele momento tão difícil. A vida de Alice tinha virado de cabeça para baixo desde o dia que descobrira um nódulo em seu seio esquerdo. Diagnóstico: câncer. Depois disso foram só perdas. Uma atrás da outra: parte do seio, amputada em uma cirurgia de emergência, quase todo o cabelo, devido à quimioterapia, e mais de vinte quilos, coisa que, pensando bem, não foi nada mal. Estava bem acima do peso ideal. Até seu casamento de vinte e seis anos, foi para o espaço, tão logo Roberto, seu marido, soube que ela iria retirar parte do seio. Dizendo não estar preparado para conviver com uma mulher aleijada, fez as malas e se mandou. Sem explicações. Então Alice, apesar de ter dois filhos formados e independentes, resolveu encarar aquele momento sozinha. Foi uma opção sua. Morando em Belo Horizonte, embarcou para o Rio de Janeiro, dizendo que iria repousar em um spa. Reuniu toda sua coragem e internou-se numa clínica de um famoso especialista. Os dias que se seguiram foram longos e difíceis: um pesadelo. Sozinha no quarto do hospital, sem ninguém para trocar uma idéia, procurava fazer um balanço de toda a sua vida. Casara por amor? Já não tinha essa certeza. Muito nova conheceu Roberto, seu primeiro namorado e seu único homem. Casou virgem, como a maioria das mocinhas fazia naquele tempo. Mãe muito jovem de dois meninos, em intervalo de pouco mais de um ano, não teve tempo para analisar aquilo que chamam amor. Vivia entre fraldas e mamadeiras, os afazeres de casa, e seus deveres como esposa. Sem se questionar. Foi mãe dedicada, como muitas o são, renunciando a tanta coisa pelos meninos… Agora, nem um telefonema! Quando Alice ligava, aceitavam as desculpas pela demora no tal spa sem muitas perguntas. E mais de um ano já se passara.

Agora parte do seio retirada tinha sido restaurada por enxerto, os cabelos estavam nascendo não tão fortes e bonitos, mas cabelos. O marido sumira de vez, e isso ela até gostava. Porque, depois de tantos anos de casada, conheceu de verdade quem era aquele homem insensível com quem dormira tantos anos. A quimioterapia tinha sido um outro momento complicado: enjôos, vômitos… Mas, passou também.

Para a última consulta médica, havia comprado uma roupa nova: todas estavam sobrando no seu corpo. Olhou-se no espelho e sentiu-se bem, quase bonita. Os cabelos curtinhos davam-lhe um ar de menina. Pela primeira vez em muitos anos pensou em si, não como a senhora do dentista Roberto Campos, nem como a mãe de João e Daniel, mas como Alice, somente Alice.

— Então, doutor! Curada?

— Por hora, sim. Mas como eu lhe disse, precisa de acompanhamento, revisões periódicas, a senhora sabe.

— Não vou morrer? - Acabara de dizer isso e percebeu a bobagem que tinha falado.

— Bem. Morrer, todos nós vamos, não é? Mas posso assegurar que a senhora teve uma segunda chance. Não encontramos metástases.

Na rua, as palavras do doutor não saiam de sua cabeça. A vida, Deus, o destino, seja lá o nome que as pessoas queiram dar, estava lhe dando uma nova oportunidade. E ela não ia desperdiçá-la, com certeza. De início resolveu ficar de vez no Rio, onde apesar de tudo, estava renascendo, por dentro e por fora. Sentia que começava a ser uma nova mulher, mais segura de si, e seria nessa terra tão linda que passaria os últimos dias, meses ou anos, (quem sabe?) de sua vida. Nessa segunda chance aproveitaria todas as oportunidades, dando valor a cada conquista, saboreando cada instante, como só as crianças fazem. Tinha uma lista de pequenas coisas que nunca chegou a realizar. Agora era o momento. O seu momento. O que faria em primeiro lugar?

Todas as vezes que viera ao Rio imaginava-se lanchando na Confeitaria Colombo. Naquele ambiente tão requintado e elegante. Desejo simples, bobo, que nunca chegara a realizar. Não! Nada mais podia ser adiado. Hoje era o dia da Colombo!

Amanhã… Pensaria amanhã!

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2 comentários para “VIII - Esperando o seu amor”

  1. Aldir Therezinha disse: Reply to this comment

    Os contos da Sonia são bem elaborados, gostosos de se ler. Foi bom
    ela ter reunido alguns deles em um livro, com as estórias em seqüência.
    Parabéns e torço para que ela continue nos brindando com as suas
    “mulheres”.
    Aldir Therezinha

    [Resposta]

  2. Haydée Colussi disse: Reply to this comment

    Soninha.
    Realmente tuas mulheres são todas de verdade. Elas nos trazem sentimentos que todas nós já vivemos a não ser no caso da Marina acordando só sabe Deus onde ou no salvamento na praia que também nunca me aconteceu. As outras até agora têm os mesmos medos e as mesmas inseguranças que nós. Será que todas não deveriam se chamar Sonia? Porém posso estar enganada.
    Venho lendo e gostando cada vez mais.
    Saboreio os incidentes e fico tomando partido. Ora apoiando ora discordando das atitudes mas gostando muito sempre.
    Beijo
    Deia

    [Resposta]

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