IX - O dia da Colombo
— Então, estou curada, doutor?
Alice fez a pergunta prendendo a respiração. Boca seca. Ninguém para segurar sua mão naquele momento tão difícil. A vida de Alice tinha virado de cabeça para baixo desde o dia que descobrira um nódulo em seu seio esquerdo. Diagnóstico: câncer. Depois disso foram só perdas. Uma atrás da outra: parte do seio, amputada em uma cirurgia de emergência, quase todo o cabelo, devido à quimioterapia, e mais de vinte quilos, coisa que, pensando bem, não foi nada mal. Estava bem acima do peso ideal. Até seu casamento de vinte e seis anos, foi para o espaço, tão logo Roberto, seu marido, soube que ela iria retirar parte do seio. Dizendo não estar preparado para conviver com uma mulher aleijada, fez as malas e se mandou. Sem explicações. Então Alice, apesar de ter dois filhos formados e independentes, resolveu encarar aquele momento sozinha. Foi uma opção sua. Morando em Belo Horizonte, embarcou para o Rio de Janeiro, dizendo que iria repousar em um spa. Reuniu toda sua coragem e internou-se numa clínica de um famoso especialista. Os dias que se seguiram foram longos e difíceis: um pesadelo. Sozinha no quarto do hospital, sem ninguém para trocar uma idéia, procurava fazer um balanço de toda a sua vida. Casara por amor? Já não tinha essa certeza. Muito nova conheceu Roberto, seu primeiro namorado e seu único homem. Casou virgem, como a maioria das mocinhas fazia naquele tempo. Mãe muito jovem de dois meninos, em intervalo de pouco mais de um ano, não teve tempo para analisar aquilo que chamam amor. Vivia entre fraldas e mamadeiras, os afazeres de casa, e seus deveres como esposa. Sem se questionar. Foi mãe dedicada, como muitas o são, renunciando a tanta coisa pelos meninos… Agora, nem um telefonema! Quando Alice ligava, aceitavam as desculpas pela demora no tal spa sem muitas perguntas. E mais de um ano já se passara.
Agora parte do seio retirada tinha sido restaurada por enxerto, os cabelos estavam nascendo não tão fortes e bonitos, mas cabelos. O marido sumira de vez, e isso ela até gostava. Porque, depois de tantos anos de casada, conheceu de verdade quem era aquele homem insensível com quem dormira tantos anos. A quimioterapia tinha sido um outro momento complicado: enjôos, vômitos… Mas, passou também.
Para a última consulta médica, havia comprado uma roupa nova: todas estavam sobrando no seu corpo. Olhou-se no espelho e sentiu-se bem, quase bonita. Os cabelos curtinhos davam-lhe um ar de menina. Pela primeira vez em muitos anos pensou em si, não como a senhora do dentista Roberto Campos, nem como a mãe de João e Daniel, mas como Alice, somente Alice.
— Então, doutor! Curada?
— Por hora, sim. Mas como eu lhe disse, precisa de acompanhamento, revisões periódicas, a senhora sabe.
— Não vou morrer? - Acabara de dizer isso e percebeu a bobagem que tinha falado.
— Bem. Morrer, todos nós vamos, não é? Mas posso assegurar que a senhora teve uma segunda chance. Não encontramos metástases.
Na rua, as palavras do doutor não saiam de sua cabeça. A vida, Deus, o destino, seja lá o nome que as pessoas queiram dar, estava lhe dando uma nova oportunidade. E ela não ia desperdiçá-la, com certeza. De início resolveu ficar de vez no Rio, onde apesar de tudo, estava renascendo, por dentro e por fora. Sentia que começava a ser uma nova mulher, mais segura de si, e seria nessa terra tão linda que passaria os últimos dias, meses ou anos, (quem sabe?) de sua vida. Nessa segunda chance aproveitaria todas as oportunidades, dando valor a cada conquista, saboreando cada instante, como só as crianças fazem. Tinha uma lista de pequenas coisas que nunca chegou a realizar. Agora era o momento. O seu momento. O que faria em primeiro lugar?
Todas as vezes que viera ao Rio imaginava-se lanchando na Confeitaria Colombo. Naquele ambiente tão requintado e elegante. Desejo simples, bobo, que nunca chegara a realizar. Não! Nada mais podia ser adiado. Hoje era o dia da Colombo!
Amanhã… Pensaria amanhã!
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