XIII - No Jardim Botânico
Alice sentia tanta paz nesse lugarzinho recentemente descoberto que sempre voltava a ele para repousar sua cabeça. Jardim Botânico! Essa exuberância da natureza em meio à cidade barulhenta fazia-lhe muito bem. Como se a própria vida, dia a dia, se renovasse para ela. O cheiro, os pássaros, as flores… As crianças brincando… Sentava num banco e meditava. Preferia ficar sozinha com seus pensamentos. Naquela manhã, porém, uma mulher sentou-se ao seu lado e, por algum tempo, respeitosamente guardou silêncio. Mas de repente, assim como se falasse para si mesma, deixou escapar baixinho:
— Que lindo dia! Parece que nunca vi um outro igual!
Alice estremeceu. Lembrou logo de seu estranho e querido amigo Dom, que foi tão importante naqueles dias difíceis do Natal. Olhou-a então, disfarçadamente: era uma mulher de seus cinqüenta e poucos anos, bem vestida, mas discreta. Não pode deixar de comentar:
— Você me lembrou um querido amigo que também falava assim. Para ele todos os dias eram especiais.
— E não são? Aprendi a pensar dessa forma! Depois de um encontro comigo mesma. Ou melhor, de um encontro com a morte.
Alice estremeceu mais uma vez. O que era isso? Ela também? Sentiu uma espécie de medo. Seria um anjo como Dom para sempre lhe lembrar essa verdade? Que direito tinha de se queixar? De estar assim tão deprimida? O tempo passava e o fantasma do câncer estava cada dia mais distante.
— Ela me rondou também! A morte! Câncer! Mas tenho driblado a danada já faz algum tempo. Tive um anjo especial que me ajudou.
— Deus sempre manda um anjo. Mas é preciso prestar atenção.
— O anjo também pode vir disfarçado em música, não pode? Uma vez tocou sax para mim. E foi tão lindo!
— O meu se chama Bel, é de carne e osso, tem vinte e poucos anos e me tirou do mar. Tentava morrer num gesto impensado, louco.
— O meu nunca me disse o seu nome. Eu lhe batizei de Dom. Me esperava na praça e me divertia com seus conselhos estranhos. Dizia-se rico, embora não falasse disso com orgulho. Apenas deixava escapar. Não era mendigo. Parecia mais um maluco urbano engraçado. Foi muito importante nos meus dias difíceis. Pensei também em me matar, mas não tive a sua coragem.
— Meu anjo Bel me chamou de covarde por fazer isso.
— É. Pode ser. Você é casada? Como se chama?
— Helena. Não sou mais casada. Meu ex marido se casou com a medicina. Cientista. Na Europa, atualmente. Me pediu divórcio por e-mail. No princípio até pensei que fosse por causa da secretária. Mas, não! Minha rival sempre foi a medicina. Agora, estou tentando refazer a minha vida. Como Bel me aconselhou, voltei para a faculdade que abandonei ao me casar. Medicina também. Sempre foi meu sonho. Não é engraçado? Mas, diferente do meu marido, escolhi neurocirurgia. Amo isso!
— Quanto a mim, ainda não encontrei meu caminho, como você. Sabe, estou meio perdida. Sempre fui dona de casa, criei meus filhos, agora adultos e independentes. Vim de Belo Horizonte pra me tratar e fiquei. Meu marido, tão logo soube do meu câncer, caiu fora, me dizendo, com a maior frieza, não estar preparado para conviver com uma mutilada!
— Que barra hein! Reparou que temos muita coisa em comum?
— Você falou em Deus. Acredita em Deus? Os médicos às vezes são ateus. Materialistas. Acredita em Deus?
— Creio numa energia. Uma força superior que rege tudo. Deus? Mais um nome, apenas. Veja bem. Acha possível tudo isso ter aparecido assim, do nada, espontaneamente? – dizendo isso, abriu os braços como a envolver toda a natureza ao redor.
— Claro que não! Eu creio em Deus!
— Eu acredito que todos nós viemos ao mundo com uma missão. Mas quem nos deu essa missão? Quem? Deus?
E, mais uma vez, Alice e Helena fizeram silêncio diante do profundo e misterioso sentido da vida.
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