XVIII - Nas mãos de sua escudeira
— Desculpe Lídia. Eu sei o quanto você é ocupada. Sua clínica…
— A clínica não é nada! Sabe a Taís? Me deixou uma missão quase impossível: curar uma bipolar, amiga dela, enquanto está na Europa. Um caso muito difícil!
— A Taís? A assistente do Dr. Rogério Pontes?
— A amiga dela está me dando um trabalho! Mas você, hein, Ana Paula! Quer dizer que foi a feira dos paraíbas!
— Fui só pra matar meu desejo! Mas, Lídia… Nem te conto! Encontrei um nordestino arretado de gostoso… Como eles dizem. Bom de forró e bom de cama. Meio rústico, mas era assim que eu queria! Pegada forte de cabra da peste! Há muito tempo não tinha um sexo tão bom! Precisava disso!
— Aninha!!! Cada vez você me surpreende mais!
— Tudo estava saindo como planejei. Mas quando cheguei em casa, olhei pra o meu apartamento, ali da rua mesmo, vi as luzes da sala todas acesas! Fiquei sem ação! Rosa Maria? Renato, meu marido? Pensa bem: eu, às três horas da manhã, chegando vestida de Rosa Maria!!! Quase morri!!!
— Quem era? Quem era? Fala! Quem morre agora sou eu!
— Subi com a cara que Deus me deu! Encontrei a coisinha no meio da sala, dizendo-se assustada com minha ausência, mas com aquela cara de sonsa, de “aí hein, dona Ana Paula!”. Sobre o meu vestido, isto é, o vestido dela, nem uma palavra. De minha parte, não dei explicação nenhuma. Ela me olhou de cima em baixo e foi para o quarto. Em total silêncio! Aí, eu pensei: Amanhã veremos o que a tal vai me aprontar! Não deu outra! A coisinha está me chantageando! Na maior cara de pau! Estou literalmente nas mãos dela! Usa meus vestidos, meus perfumes franceses… Pegou uma garrafa de whisky importado do meu marido, e levou para o negão dela. Estou com medo que peça meu cartão de crédito! Dinheiro ela me pede todo dia! Ou melhor: exige!
— Ana Paula!!!
— Sai à hora que quer… Não faz mais nada… Só não pega o meu carro importado, porque não sabe dirigir, senão… Agora você que é … Psicóloga… Psiquiatra… Sei lá, me diz: o que vou fazer com ela? Quando tento reagir, ela insinua que vai contar para o Renato, quando ele voltar.
— Aninha! Põe ela pra fora! Joga na rua! Mas, antes pague tudo o que tem direito por lei, senão é uma dor de cabeça! Essa gente sempre ganha na justiça do trabalho! Tudo bem certinho! Documentado e assinado! Depois mande embora!
— Com tudo isso, fiquei sem minha escudeira, como eu brincava.
— Por isso não! No meu prédio tem uma excelente. Amiga da minha. A patroa vai para São Paulo e ela diz que está estudando, e não quer acompanhar. Nada! Tem namorado aqui! Se chama Cida e é de toda confiança! A minha garante! Ah! Não se esqueça também, de revistar as coisas que ela levar! E confira suas jóias!
— As jóias eu já coloquei no banco. E aqueles meus vestidos de grife… Aqueles!!! Levei para o brechó que freqüento, para serem vendidos. Compro outros. Imagine se vou vestir depois de terem sido usados pela coisinha!
— Põe ela na rua, amiga! Já devia ter feito isso!
— E se ela procurar o Renato e contar?
— É sua palavra contra a dela! Meu conselho é: paga tudo, faça ela assinar recibo e depois, pé na bunda dela!
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