XXI - Novamente Manuela

Manuela e Gláucia trabalhavam no mesmo banco. Ficaram muito amigas de cara. Com o passar do tempo, confidentes mesmo. Gláucia, uma simples secretária; Manuela, subgerente, mas nem parecia ser, tal a sua simplicidade. Isso conquistou a amiga. Costumavam lanchar juntas. Um dia Manuela confessou estar vivendo um grande drama familiar: seu marido, exercendo um cargo importante onde trabalhava, por conseguinte, ganhando alto salário, tinha sido despedido. Contenção de despesas. Gláucia passou a acompanhar, então, o problema daquela amiga. Todo dia Paulo, (esse era seu nome), saia para procurar novo emprego, mas não estava fácil. Acostumado ao seu padrão de vida, não queria aceitar qualquer coisa.

— Então? Conseguiu emprego? – Gláucia perguntava ansiosa.

— Até agora, só promessas. Tem deixado currículo por todo lado. Mas… Dá pena ver ele chegar. Chega um trapo!

Um mês… Dois… Seis meses… O tempo passava e sempre a mesma notícia. Apesar do empenho de Paulo, só promessa.

— Encontrei Paulo tão desanimado! Pior. Está bebendo muito! Sai de casa só, pela manhã. Depois, ele vem almoçar e passa a tarde toda no sofá bebendo.

—Tenha paciência, amiga! Quem sabe, de uma hora pra outra…

Certa manhã, Gláucia encontrou Manuela com os olhos vermelhos. Pensou: esteve chorando. Na hora do lanche, a amiga se abriu:

— Paulo está ficando diferente comigo. Ele era tão amoroso! Alegre, engraçado. Agora, só me agredindo com ironias. Parece ter ciúme do meu emprego. Já pensou se fossemos os dois a ficar desempregados? Não se conforma de me ver sustentando a casa. Sei que deve ser difícil para um homem ver sua mulher pagando todas as contas. O dinheiro que recebeu da firma deve estar no fim. Custa aceitar a minha ajuda nesse momento?

Passaram-se alguns dias. Gláucia, discreta, evitava tocar no assunto Paulo com sua amiga. Mas, certa tarde Manuela desabafou:

— Não sei o que Paulo anda fazendo. Espero que não seja bobagem. De uns dias para cá, tem chegado em casa depois de mim. Perguntei se arranjou emprego. Disse que não. Assim secamente, e encerrou o papo. Chega sempre à mesma hora. Depois de mim. Procurando emprego? Perguntei. E ele me respondeu: Pra que? Não acho nada mesmo!

Então, o que estará fazendo? Ai, ai! Não estou gostando nada disso!

Mas, dias depois Manuela descobriu: Paulo estava fazendo um curso de congelados.

— Dos males o menor! Pensei tanta coisa! Até que fosse mulher! Mas, ele sempre gostou de mexer com comidinhas. Ontem cheguei em casa e encontrei um freezer imenso em nossa cozinha. Mais um? Recipientes para congelamento por toda parte. Diz que vai fazer comida congelada para vender. Acho que não vai dar em nada, mas ele está tão entusiasmado! Dei força!

Passaram-se algumas semanas. O movimento do trabalho as afastou um pouco. Até que, uma tarde ao se cruzarem, Gláucia perguntou:

— Como vai o Paulo com seus congelados?

— Eu não disse? Quase não vende nada! Voltou a beber muito! E o que é pior: na cama… Você sabe… Falhou. Ficou arrasado. Agora tem me evitado. Finge dormir. Eu lhe disse que isso é comum acontecer com estresse, mas nada adiantou. Não sei o que fazer para ajudar!

Gláucia de férias. Um mês nas praias do nordeste. Procurou esquecer dos seus problemas, e dos problemas de sua amiga Manuela, até que retornou.

— Hei!! E aí?

Manuela deu um lindo sorriso e piscou, como sempre fazia quando tudo ia bem.

Gláucia respirou aliviada:

— Novamente a Manuela que conheço! Então… Os congelados…

— Congelados que nada, menina. Está faturando muito com as quentinhas que vende pros paraíbas das obras!

— O quê???

— Descobriu que perto de casa tem muita construção e que os operários precisavam de se alimentar. Começou a fornecer marmita. Comida forte: macarrão, arroz, feijão, carne assada, farofa… Comida que todo operário gosta. Mas tudo bem feitinho. A propaganda boca a boca funcionou tão bem, que quase não dá conta dos pedidos. Até já contratou um ajudante e um moto boy para entregar. Tudo quentinho bem na hora do almoço. Ele diz, todo orgulhoso, que tem que ter qualidade. Falou que isso é só o começo. Está pensando em abrir uma portinha, um pequeno restaurante, pra começar. Já começou a procurar! Comida caseira! Comida dá dinheiro. Todo mundo precisa comer, não é?

— E… aquilo…

— Nunca mais aconteceu. Melhor que na lua de mel! Perdi minha cozinha, que está um caos. Bem, pelo menos por enquanto. Mas recuperei meu marido!

— Também vivi um probleminha com um vizinho, garota! Um cara muito espaçoso! Mas, agora está tudo resolvido. Só estou devendo um saco de ração pro meu salvador.

— Não entendi nada!

— Te conto na hora do nosso lanche.

Mais tarde, na lanchonete, entre a torta de maçã e o cafezinho, Gláucia contou o pequeno drama que viveu com o “Senhor Sorriso”, como havia apelidado seu vizinho espaçoso.

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