XXIII - Um grande mal entendido

Caiu feito uma bomba. Cláudia, querendo usar o telefone, tirou o fone do aparelho sem se dar conta que Otávio estava falando na extensão. Voz de mulher cobrava um dinheiro que não tinha sido depositado. “Você prometeu pra hoje, eu tenho minhas despesas!” Otávio se desculpava em voz baixa e trêmula. “Meu Deus! Otávio tinha um caso.

Sentou-se à beira da cama, pálida e sem ação. Nunca havia desconfiado. Marido exemplar, pai dedicado de três filhos, agora já adultos e independentes. Ou quase! Recolocou o fone com cuidado e começou a pensar. Como podia ser isso? Seu marido tinha um horário regular, saindo de casa para o banco, onde trabalhava, sempre a mesma hora e chegando em casa sem atraso. Bem, tinha o almoço que fazia na cidade. Mais prático, dizia. Será? E quem seria ela? Uma colega de trabalho? Tentou se lembrar das moças que trabalhavam com seu marido. Rita? Não! Muito feia! Velhota! Bem, Otávio tinha bom gosto! Havia ainda aquela, como se chamava mesmo? Muito oferecida… Não! A voz não parecia ser dela. Era Gláucia! Sim! Quem sabe? Bonita! Um dia, indo procurar seu marido no banco, até comentou com ele. Mulherão! Que idiota! Chamou a atenção dele! Na certa era ela, sim! Linda! Sempre perfumada…

Examinou com cuidado seu rosto no espelho da penteadeira. Tinha se deixado muito, nos últimos tempos! Só pensando na casa, no marido e nos filhos que, apesar de adultos, solicitavam seus favores a toda hora. Tinha se esquecido de que ela também era gente. Agora sentia-se velha e feia. Estava acima do peso. Precisava dar um jeito nos cabelos e as unhas, há muito não fazia. Otávio era homem bem apessoado: Cabelos grisalhos, bom corpo (uma barriguinha insipiente), mas com um sorriso simpático e acolhedor. A cabeça doía, com mil pensamentos a atormentando. O que fazer? Armar um barraco e escancarar de vez? Não! Precisava se segurar por hoje e, de cabeça fria…

Amanhã vou procurar Daise. Certamente terá uma solução. Daise, sua melhor amiga, era prática nesse assunto. Quando todos pensavam que se casaria com Francisco, seu namorado de infância, conheceu Dario e, após um noivado relâmpago se casou com toda pompa e circunstância. Excelente partido! Amava Francisco sim, disse com toda sinceridade. Mas, o que ele podia lhe oferecer além de amor e uma cabana? Isso mesmo! Procuraria Daise. Despiu-se e se deitou antes que Otávio entrasse no quarto.

Otávio chegou em casa após mais um dia de trabalho. Havia uma semana que sua vida tinha virado de cabeça para baixo. Tudo começou naquela noite, quando sua antiga cliente lhe telefonou nervosa: a pensão do ex-marido tinha sido depositada em outra conta. Foi um reboliço no banco. Felizmente acharam o erro. Mas, a partir dessa data, e não sabia por quê sua mulher tinha mudado da água para o vinho. Ou vice versa. Quando acordava ela já tinha saído. Para onde, não sabia. À noite, só chegava depois dele. A casa, uma bagunça. Comida, não fazia mais. Todos agora tinham que se virar com pizzas e sanduíches. Quando pedia uma explicação, ela falava em meias palavras que estava cansada de ser escrava… Que tinha que se cuidar. Na verdade, elas estava se cuidando, sim! E como! O cartão de crédito já tinha estourado. A conta bancária, nem se fala! Roupa nova, todo santo dia. Cortou o cabelo e tingiu. Loura, agora! Onde você foi? Perguntava. “Fazendo hidroginástica! Não posso?” Silêncio! Se tentava uma aproximação na cama, ela se encolhia toda, como se tivesse nojo. “Estou cansada!” E se virava para o outro lado. “É, começou a pensar, ela tem alguém! Mas, quem? Será que aquele antigo namorado… Me lembro que ela comentou, de leve, tê-lo encontrado alguns dias atrás. Deve ser ele sim! Quando a conheci, tinham terminado o namoro e Cláudia estava bem apaixonada.” Uma semana! E cada dia se afastavam mais. Estaria doente? Não! Nunca a vira tão bonita, desde quando a conheceu, embora houvesse uma tristeza em seus olhos que não sabia definir.

Então veio aquela noite. Cláudia voltou para casa mais cedo. Estava meio cansada de bater pernas no shopping, entrar em cinemas, caminhar a esmo pela praia, tudo para parecer que estava com alguém. Entrou em casa com o telefone tocando: “Cláudia! Aqui é Roberto, colega do Otávio! Estamos todos preocupados com ele. Está tão triste! Desde aquele dia que o dinheiro da cliente dele foi extraviado. Ela parece outro! Está doente?” Aos poucos foi compreendendo. “Meu Deus! Então, não havia mulher alguma! Que grande mal entendido!”

Quando Otávio chegou, tinha um jantar especial esperando por ele, sua mulher lindamente vestida e perfumada, a casa em ordem… E Cláudia de braços abertos diante da porta.

Otávio até quis perguntar, mais uma vez, o que tinha se passado com ela. Mas… Não! Achou melhor botar uma pedra sobre o assunto.

Nessa noite, iniciaram uma segunda lua de mel. Consta que Cláudia está grávida!

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