XXVII - Vida e morte
Maria das Dores veio da Paraíba para trabalhar no Rio de Janeiro, com a cara e a coragem. Mulata clara de ancas largas, seios fartos, uma cabeleira negra a cair pelas costas, lábios carnudos e sorriso fácil: mais parecia uma figura saída de uma das telas de Di Cavalcanti. Tinha então dezenove anos. Trazia dinheiro quase nenhum, na sacola apenas uma muda e roupa. Nada mais. Chegou à rodoviária sem saber para onde se dirigir. Pergunta de cá e de lá, resolveu tomar um ônibus para Botafogo, porque gostou do nome. Saltou numa rua que lhe pareceu simpática. Parou diante de um edifício onde um senhor grisalho lia jornal sentado num banquinho. Lembrou de seu pai falecido. Sentiu os olhos se encherem de lágrimas, a essa lembrança. O senhor, parecendo adivinhar, levantou os olhos do jornal, sorriu para ela que, então, sorriu de volta. Aproximou-se, e despachada como era, entabulou conversa: vinha do norte para trabalhar. Podia o senhor lhe informar se alguém precisava de faxineira? Podia confiar! Havia tanta verdade nos olhos dela! Como é seu nome? Ela: Maria das Dores, mas todo mundo me chama Das Dores, sim senhor! Contou, então, para o atento zelador a dificuldade em que vivia lá na sua terra. Da morte da mãe, sua única parenta e, de como tinha resolvido vir tentar a vida no Rio. Aqui, também tá difícil, filha! Mas vou te ajudar! E assim fez.
Conseguiu uma faxina ali mesmo, no seu edifício, onde conheceu Dalva, empregada no prédio que foi logo oferecendo pousada em seu barraco. “De pobre! Se não se importar!…” “ Me importar? Precisa ver onde eu morava! Mas só se eu te pagar aluguel.” Das Dores sentiu ter feito o melhor vindo para o Sudeste. E Dalva adotou Das Dores como irmã mais nova. Apresentou a cidade, o samba e Claudionor, seu sobrinho: um negro bonito que tocava repique na Bateria da Escola. Foi paixão fulminante de ambas as partes. Não mais se desgrudaram. Apaixonou-se, também, de cara pelo samba da Agremiação, onde Dalva era passista e ensaiava todo Sábado. Queria aprender a sambar. “Me mostra como é?” Logo Dalva sentiu que ela tinha jeito, muito jeito! “Se continuar assim, te apresento para o chefe da minha ala. Quem sabe te aceita como passista no próximo carnaval? Tem tempo! Ainda estamos em maio!” Das Dores se esforçava. Era, então, o que mais queria: desfilar na Escola da Dalva e do Claudionor, como dizia. Já se via na Escola, vestida com a roupa de sua ala, aplaudida pelo povo, e Claudionor, todo orgulhoso dela! Ia ser a melhor das passistas! Um dia, ainda seria a Rainha da Bateria! Aceita na ala, foi tirar as medidas. “Não se preocupe! É discreta! Mostra nada, não! Saiote, bustier, sapatilhas e adereço de cabeça!” “Mas, o que é adereço? Um chapéu?” Pagava o carnê, todo mês, direitinho. Assim ficava mais suave.
Na véspera do carnaval, Das Dores foi buscar a fantasia. Experimentou na costureira para fazer ajustes, mas nem precisou. Estava linda! Saiote azul, curtinho. (Ficou meio encabulada!) Que nada, sua boba! Tu tem pernas lindas! Burtier rebordado de lantejoulas brilhantes, e na cabeça… “Ha! Isso é um adereço?” Plumas e paetês recobriam um chapeuzinho engraçado. Sapatilhas também rebordadas. Emocionada, colocou tudo dentro de uma sacola e rumou para o barraco. Ia tão feliz, subindo o morro, se sentindo rainha. Não levava na mão só a fantasia de pano ordinário, embrulhada em papel vagabundo e amarrada em barbante grosseiro. Não! Levava todo o sonho sonhado desde que conheceu sua Escola adorada e o seu Claudionor.
Na subida do morro o que pode seu sonho encontrar? Uma bala perdida?
Das Dores caindo… O embrulho querido rolando a escada, na vala se perdendo, todo sujo de lama. Das Dores morrendo de bala no peito? Desfile marcado pro dia seguinte! Das Dores enterrada com a fantasia! Bandeira da Escola cobrindo seu corpo… Dalva chorando, com lista na mão. E do Claudionor, quem sabe? Sumido do morro, tão grande é a dor! Mas, quem vai tocar tão forte o repique, com tanta alegria, com tanta paixão?
O que pode o destino mudar de repente, na subida do morro? Uma bala perdida?
Vai nessa, Das Dores, feliz, distraída, subindo a escada. Subindo, subindo… O seu coração cantando com gosto o samba da Escola. Sonhando, sonhando… Vai nessa, menina!
Vai nessa, Das Dores, mulata faceira, ancas largas e soltas, treinadas no samba, cabelos ao vento, e sorriso fácil em boca bonita; que nos ensaios da Escola a todos encanta com sua alegria. Que, quando se joga no samba rasgado, e a ele se lança de corpo e de alma, espalha a paixão que sente no peito. Então, toda aflita, procura com os olhos o seu Claudionor, seu porto seguro, agora perdido no meio da Escola, tocando repique com mão poderosa. Mão que, amorosa, lhe acaricia em noites de amor.
Vai nessa, Das Dores! Vai nessa, mulher! Viver o seu sonho. Cumprir seu destino. De sonho e realidade. Alegria e dor. Vida e morte.
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