Luz e a procura da felicidade – Cap. 12 – Sonia Quartin

Por Sonia Quartin, 16 de agosto de 2009 19:26

CAPÍTULO XII

A missa foi assistida apenas pelos três amigos e as beatas que participam de quase todos os cultos da Igreja. À saída, Nancy rapidamente se despediu, dizendo:

- Desculpe, mas tenho uma paciente em trabalho de parto. Está por horas!

- Gatinha ou cadelinha?

- Uma linda poodle. Seu primeiro parto e precisa de muitos cuidados! Mas, vamos combinar um novo encontro de nós três? Luz telefona pra gente combinar!

Já se aproximava do meio dia e Gustavo sugeriu a amiga um almoço onde poderiam conversar melhor. Convite aceito com agrado; Analuz queria saber tudo de Angélica e dele também.

No restaurante, foi perguntando sem rodeios:

- Então, me conta tudo. Como foi isso? Meu Deus! Ela ainda era tão nova! Quarenta e dois ou três? Muito sua amiga, no colégio, não era? Todos pensavam que vocês tinham um namorico…

- Não rolava… Não podia rolar! Nunca tive atração por mulher. Angélica era minha namorada de fachada.

Analuz olhou seu amigo com surpresa, meio sem querer entender.

- Mas… então… Você… Você é… – Não concluiu.

- Sim! Sou gay! Admirada?

- Na turma ninguém sabia, não é? Nem, ao menos, desconfiavam… Você não… Isto é… – Omitiu o que ia dizer. Seu amigo não tinha os trejeitos dos gays: aquela forma de ser tão evidente na maioria.

Analuz examinou seu amigo com mais atenção. Não, não tinha mesmo! Hoje, como ontem, nada indicava tratar-se de um homossexual. Sempre fora educado e alegre. Gostava de dançar e, nisso, era o melhor de todos. As meninas adoravam quando ele as convidava. Mas sua parceira favorita era Angélica. Todos pensavam que se namoravam: estavam sempre juntos, abraçavam-se e beijavam-se com frequencia, mas nunca na boca. Sempre fora muito elegante, vestindo-se com roupas de boa procedência e tênis de marca. Nesse dia, usava um palitó esporte de bom corte sobre uma elegante camisa de seda, sem gravata: tudo muito fino e de bom gosto, como sempre.

- De início, nem eu mesmo sabia. Só percebia que as garotas não me interessavam da forma que meus colegas diziam sentir. Na verdade, não me interessava também por nenhum dos garotos da turma. Eu os via como meus irmãos, companheiros de farra, parceiros de zoada… Só quando conheci o Heitor… Ele tinha vinte e sete anos, eu dezessete para dezoito. No último ano do colégio. Encontrei-o numa galeria de arte e nunca mais nos separamos. Até hoje estamos juntos. Ele me completa. Em todos os pontos: minha alma gêmea! – Pausa. Gustavo havia falado de um só fôlego. Parou para respirar e observar o impacto que suas palavras tinham produzido na sua querida amiga. Analuz escutava em silêncio, olhando atentamente dentro dos seus olhos. Não parecia chocada, apenas surpresa. Então, continuou. – Quando meu pai descobriu, não sei como, se trancou comigo no escritório e perguntou, sem preâmbulos: “Você virou viado? Porque filho meu não pode ser viado. Ou você arranja uma mulher, ou vai embora dessa casa. Você escolhe!” Sabe? Foi assim como se ele tivesse me dado um tapa na cara! Mandou escolher entre minha família, que eu adorava, e a pessoa que me fazia feliz, me completava! Depois daquele dia, em todas as oportunidades, me pressionava. Um dia, não aguentei: resolvi sair de casa e ir morar com Heitor. Até hoje o meu pai não me perdoou.

Gustavo se calou e Analuz, em silêncio, segurou suas mãos por cima da mesa.

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