Minha casta é o meu destino – Lu Dias

Por LuDiasBH, 6 de fevereiro de 2009 20:20

 Dalits

Caros Leitores

Em função do número de acessos aos posts, que tratam sobre o assunto das castas e dos dalits e, ainda, em relação ao número de e-mails recebidos, compreendi, que ainda devo mais algumas explicações aos leitores. Para tanto, tenho pesquisado livros, filmes, documentários e sites, pois quero passar todas as informações às pessoas que buscam maiores esclarecimentos. Irei postar, diariamente, uma parte do tema, de modo que o assunto não fique muito longo e enfadonho.

Embora a Índia seja um país em franco desenvolvimento, o sistema de castas é desolador, pois a mentalidade da maioria dos indianos ainda é muito atrasada. Lá, o que importa é a origem de cada pessoa. O que ela fará depois, pouco importa. Não há incentivo à mudança de vida. É a aceitação e submissão total à crença.

“Minha casta é meu destino!”

Família Dalit

Dizem os indianos que “minha casta é o meu destino“, o que é algo muito bom para quem vive no topo da hierarquia, como os Brâmanes. No entanto, quando se está na faixa mais baixa da hierarquia da sociedade de castas, é preciso lutar muito, para conseguir ser tratado dignamente e ter os direitos respeitados, no dia-a-dia. E olhem que os dalits não entram aqui, pois não fazem parte de nenhuma das castas. Nem se discute o destino deles.

Os dalits são originários das grandes migrações etíopes e egípcias para o Vale do Indo, há milhares de anos. Sendo depois vitimados pela chamada Grande Invasão Ariana (dos brancos) em 1.500 a.C., quando foi criado o sistema de castas no país (lembrem-se de que os dalits não pertencem a essa divisão), tomando por base a cor da pele, mas revestido de religiosidade (Hinduísmo, assunto sobre o qual já falamos), para serem espezinhados pelas castas, esmagados pela sociedade indiana.

Embora, tenham cabelos lisos e traços finos, possuem a pele negra. Alguns historiadores dizem que, a maior população negra do mundo, encontra-se na Índia.

O projeto Genoma Humano (análise do DNA na composição dos seres humanos) tem produzido evidências científicas, indicando que a origem genética das castas superiores na Índia é mais européia do que asiática. Ou seja, a Europa tem a sua responsabilidade nessa “mancha de vergonha”, como dizia Gandhi.

Os dalits são muito mais discriminados na Índia e no Nepal, que o negro em qualquer outra parte do planeta. Sendo levados à condição de animais maltratados, mendigando pelas ruas.

Poucas pessoas, no planeta, tem experimentado um nível de abuso e pobreza, como os 300 milhões de dalits ou “intocáveis” da Índia. Eles tem vivido, por 3.000 anos, num ciclo de segregação e desespero, sem possibilidades de mudarem de vida, pois devem morrer como nasceram.

Aceitam o sofrimento como parte da existência, da qual não se pode libertar nesta vida, como reza o Hinduísmo, sob pena de voltar como dalit, na outra encarnação. Tudo lhes é negado: água potável, empregos decentes, o direito à terra, à casa própria, etc. Para eles, dor e sofrimento são parte da vida.

Notícias comprovam que, no Estado de Haryana, cinco jovens Dalits foram linchados por uma multidão, por terem tirado a pele de uma vaca morta, da qual eles tinham legal direito para fazer, sem que a polícia interferisse.

Embora leis contra a discriminação de castas tenham sido aprovadas, a discriminação continua e pouco é feito para processar os acusados.

Fatos pesquisados sobre os dalits:

  • todo dia, 3 mulheres são estupradas;
  • suas crianças são, freqüentemente, forçadas a se sentarem, de costas, nas suas salas de aula, ou ficarem do lado de fora;
  • a cada hora, duas casas são queimadas e duas pessoas assaltadas;
  • a grande maioria das pessoas das castas altas não permite que um dalit prepare-lhe a comida ou fique perto, temendo ficar contagiada pela imundície;
  • são impedidos de entrar nos templos e outros lugares religiosos;
  • 66% são analfabetos e a taxa de mortalidade infantil é de 10%;
  • a maioria deles é proibida de beber da mesma água, que os de castas mais altas.

Líderes, como Ram Raj (líder dalit) tem estado à frente de movimentos, exigindo justiça e libertação da escravidão das castas e da perseguição aos dalits.

Uma longa “Carta dos Direitos Humanos dos Dalits” foi redigida, apelando para a Comunidade Internacional e para a ONU, na esperança de que tais órgãos viessem a pressionar o governo Indiano. Mas, pouco foi feito até agora, pois as garras da cultura tem se revelado mais forte do que a Constituição indiana.

Os líderes cristãos, no mundo inteiro, se comprometeram ajudar esse movimento em massa, apesar dos riscos envolvidos. São mais de 300 milhões de dalits escravizados e sem esperança, debaixo do jugo do hinduísmo.

O casal Rakesh Singh e Chanda Nigam, que batalha contra esse tipo de injustiça, criou uma ONG chamada Safar, para defender os direitos das minorias. Tem denunciado, para o mundo todo, as atrocidades praticadas contra as castas inferiores e contra os dalits.

Um abraço a todos e até amanhã!

 

Bookmark e Compartilhe

Leia também...

Imprimir Imprimir        

Enviar a um amigo





Enviar a um amigo         3.500 views


    


17 comentários para “Minha casta é o meu destino – Lu Dias”

  1. Mário Mendonça disse:

    Querida Lu

    Tu acaba de entrar num assunto pra lá de capcioso; será que vale a pena ???

    A Índia ainda vive num sistema feudal…..

    Boa sorte.

    Abraços.

    lu dias bh respondeu:

    Mário

    Acho que devemos ter a coragem de denunciar todas as mazelas do mundo, sob o perigo de nos tornarmos omissos.
    E quem entrou não fui eu, mas a Globo.
    Acho que o mesmo que falarmos da escravidão infantil, da escravidão negreira, dos curdos, dos prisioneiros de Guântamo…

    A Índia está entre os países de tecnologia de ponta em relação à internet.
    Indianos estão sendo treinados nos EE. UU para fazerem serviços (mais baratos) para as empresas estadunidenses, em seu país.

    E eu não acredito em tabus.

    Beijos,

    lu

  2. GUTIERRITOS disse:

    LU DIAS

    Maravilhosas reportagens.

    Acho que você poderia ter sido uma extraordinária jornalista.

    Quem sabe, agora, no Caminho das Índias, a nossa querida amiga, Marilu, tenha encontrado um dos pontos mais fortes de sua maravilhosa versatilidade.

    Um dia, poetisa romântica. Outro, cronista contundente. Noutra ponta, textos cheios de emotividade e apego ao social.

    E de repente: relatos, como grandes reportagens.

    Lu Dias, não sabia da extensão do drama dos dalits.

    300 milhões de dalits – uma população equivalente a um país, todinho coberto de sofrimento e desesperança.

    Como a humanidade, infelizmente, é sórdida, vil, asquerosa.

    Hoje vou dormir um pouco deprimido, mas confortado em ver que nosso país está tão miscigenado, que árabes andam de braços dados com judeus.

    Boa noite.

    lu dias bh respondeu:

    Gutie

    Este é um tema que sempre chamou a minha atenção.
    Se observar o meu primeiro texto sobre o assunto, verá que indago se a autora
    vai ter coragem de entrar nesse assunto.
    E, para minha surpresa, brilhantemente e corajosamente ela o faz.
    Como sempre a Glória Perez enfrenta cara a cara os problemas atuais.

    Já estou entrando até em contato com a ONG que defende essa gente sofredora.

    Se não tivesse nascido numa família pobre, eu teria sido uma jornalista, pois o mundo da palavra sempre foi o meu forte.
    Você advinhou.
    Ano retrasado denunciei a situação dos dalits no blog do Nassif.

    E diante da sede de conhecimento sobre o assunto, por parte das pessoas que chegam até o blog, resolvi me embrenhar em reportagens sobre a Índia..

    Grande beijo e obrigada pelo carinho.

    lu

  3. Lu,

    Parabéns pelos artigos, são ótimos. Vi referências a eles em seu comentário no meu Blog do Maragao e gostaria de saber se posso linka-los no meu outro blog chamado Link-Me (http://linkme.maragao.com.br). É só referência ao seu artigo com um breve resumo apontando para o seu blog.

    Dê um pulo lá e veja como é super legal.

    Abraços,
    Marcus Aragão

  4. lu dias bh disse:

    Marcus Aragão

    É um prazer recebê-lo em nosso blog.
    Claro que pode.
    É uma grande honra para o nosso blog.
    Agradecemos o seu carinho.
    Obrigada, pela visita.

    Grande beijo,

    lu dias bh

  5. Oi Lu,

    Fico muito contente em poder compartilhar os seus artigos no Link-Me. Como falei é uma referência e espero poder trazer alguns visitantes ao seu blog para poder desfrutar dos ótimos textos.

    Mais uma vez o meu parabéns pelo excelente trabalho.

    Abraços,
    Marcus Aragão

    lu dias bh respondeu:

    Marcus

    Nós é quem temos que lhe agradecer por tamanha generosidade.
    Coisa hoje difícil de encontrar.

    Abraços,

    lu dias

  6. Mr. Zahta disse:

    Você realmente se aprofundou nesse assunto. Parabéns. Estou acompanhndo seus posts sobre a Índia.

  7. lu dias bh disse:

    Mr. Zahta

    Que bom, tê-lo de volta.
    Será sempre um prazer.

    Resolvi, que após a série de artigos, vamos sair com doutorados.
    Os diplomas serão virtuais… risos.

    Grande abraço,

    lu dias

  8. Hila Flávia disse:

    Você é mesmo djan, Lu. Fica intimada a escrever um livro inteiro sobre suas pesquisas e, quem sabe, complementar com uma viagem para ver lá como são as coisas. Estou adorando viajar com você e a Glória Peres. Ela, contando um lado colorido e global. Você, um lado dolorosamente inumano. São viagens necessárias. Obrigada, de todo coração. Estou imprimindo tudo e fazendo uma cartilha para ler para meus netos. Pode escrever mais. Bjs

  9. lu dias bh disse:

    Hila Flávia

    Minha lindinha, é muito importante para mim, saber que gozo do seu agrado.
    E que conto com o seu apoio.
    O crescimento do blog é bom para todos nós, seus colaboradores.

    Tenho pesquisado e muito.
    Já virei Ph.D no assunto… risos.
    Se eu ganhar uma viagem, levo-a junto comigo.

    Obrigada pelo carinho!

    Beijos,

    lu

  10. [...] ainda embasbacados com a descoberta dos dalits, voltam, surpresos, a sua atenção para as castas, uma vez que acreditam numa sociedade liberal, onde muitos podem subir, em termos sociais e [...]

  11. Moacyr Praxedes disse:

    Lu

    Como diz a nossa vizinha:
    - Estou fora dessas maluquices.

    Beijos do
    Moacyr

    lu dias bh respondeu:

    Moacyr

    HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

    De Maluquices já bastam as nossas.
    Beijos

    lu

    

Panorama Theme by Themocracy