Mulher feliz (conclusão) – Terezinha Pereira
A mulher se levanta, dá uma volta ao redor da varanda, olha o céu carregado. Enxuga algumas lágrimas na barra as saia e senta-se novamente. Continua a se ver no passado. “O empregado ajeitou a charrete e foram rápido para a cidade, sem contar como havia ocorrido o acidente. Ficamos aflitos. As crianças já tinham capacidade de compreender a gravidade do ocorrido. Juntaram-se a mim e ficamos, toda a noite, em vigília. Os homens na cidade e nós aqui sem saber nada a respeito do João e sem poder ajudar em nada. A mulher do empregado juntou-se a nós com suas crianças. Rezamos muito. Só recebemos notícia do João na noite seguinte. Não havia resistido. Apesar da nossa pouca conversa, havia muito diálogo entre nós. Uma ligação muito forte. Não gosto de me lembrar dos primeiros dias que passamos sem ele. As crianças chorosas. Até a pequenina parecia sentir a falta do pai. Eu tentava chorar apenas à noite, quando todos dormiam, para amenizar um pouco o clima. Andava por esta varanda, como uma tonta. Olhava a horta onde o mato crescia à vontade. Via as galinhas soltas no quintal. Mal cuidava das crianças. Não encontrava coragem para trabalhar. Para olhar as coisas do João, o gado, a colheita. Acho que sentia uma raiva enorme de ele ter morrido. Tudo no sítio ia acontecendo à revelia. Quando completou três meses que o João havia ido, é que senti que eu não havia morrido junto com ele. Havia os quatro filhos para criar. Para comer. Para viver. Passei uma noite inteira num choro só. Levantei-me pela manhã, lavei o rosto na água morna da bacia. Passei um pente nos cabelos. Sentia-me desgrenhada. Olhei as crianças que ainda dormiam. A Míriam já havia mamado e dormia de novo. Fui até a casa da estrada e chamei o Inácio. Ele veio até aqui em casa . Fizemos um cálculo das provisões. Da comida que havia no celeiro. Do gado que havia no pasto, dos porcos, das galinhas. Somente naquele dia olhei de novo a horta, a qual já havia sido bem cuidada pelo Inácio. Quando as crianças se levantaram, olharam-me com um jeito de que haviam percebido alguma diferença no meu comportamento. Foram para a cozinha. Sozinhas, tomaram o café. O Mário foi ver a pequenina que se remexia no berço. Quando o Inácio saiu é que falaram comigo. Então, disse a eles que precisávamos programar a nossa vida. Que não tínhamos mais o pai. Mas que éramos cinco. Cinco pessoas saudáveis… E a vida continuou. Só Deus sabe a falta que o João nos fez. Só Deus sabe o tamanho do vazio que ficou dentro de mim. Um vazio que existe até hoje. Os meninos continuaram colhendo ovos no mato, achando galinha choca perdida e bezerro agarrado no cipó; arrancando matinho da horta; lavando louça no rego; carregando água para encher as bilhas e latões. Iam à escola também. Perto da casa da estrada havia uma escola. Uma professora vinha duas vezes por semana e juntava todas as crianças numa sala e ensinava a ler , a escrever, a fazer contas. A horta foi ficando viçosa. As plantações proporcionavam boas colheitas. Os animais também produziam boa renda. A vida tomou um bom rumo. Um rumo, talvez, diferente daquele para o qual o João nos guiava. Mas, continuamos. Como uma família alegre e unida.”
A avó continua olhando a chuva. Continua remexendo em suas lembranças. Dá uma olhada para o quintal ao ouvir o piado de um pintinho. Cobre a cabeça com um pano e corre até lá para socorrer o aflito. Aproveita e passa na cozinha. Tira o feijão do fogo. Ajeita as achas no fogão. Volta de novo para a varanda. Aquela chuva toda dá-lhe uma vontade danada de pensar no passado, nos filhos, nos netos. “O tempo passou rápido. Vez por outra um defluxo, um arranhão, uma estrepada no pé, uma picada de inseto. Catapora, coqueluche, sarampo também sofreram. O Mário fez quinze anos e partiu para a cidade. Queria continuar os estudos. Algum tempo depois, saíram a Lúcia e a Neide. Estudaram. Formaram-se. Casaram-se. Nasceram os netos. A Míriam ficou mais tempo morando no sítio. Já havia uma linha regular de ônibus para a cidade que passava perto daqui. Ela freqüentou o colégio sem precisar de se mudar daqui. Hoje, este tempo chuvoso me faz pensar que estou sozinha. Que tive um marido, um homem bom, alegre e companheiro. Que tenho quatro filhos , pessoas independentes, satisfeitas, de bem com a vida. Que estou viva. Que moro nesta casa com uma varanda ao redor, que me permite ver a chuva cair, sentindo um cheiro gostoso que vem das plantações e do mato. Sem fazer nada, às vezes, a não ser deixar a vida acontecer; fluir. Torcendo para que a roupa seque rapidamente, para não ficar com cheiro de mofo. Não mais como na época das crianças pequenas, que precisava secar as roupas no calor do fogão porque era pouca e fazia falta.”
A avó se levanta e começa de novo a falar sozinha. E a pensar na volta de lua dali a três dias, quando a chuva deverá passar.
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Terezinha, eu sei que mulher dá conta do repuxo. Mas você bem que podia ter deixado João vivo e que eles envelhecessem juntos, trabalhando e labutando e que ambos pudessem se sentar na varanda e viver a ventura de ter netos. Belo e comovente conto, mas você me deixou triste. Se pelo tivesse arrumado outro nome para o que se foi. Se pelo menos isto tivesse acontecido, não teria me feito chorar. Bjs lacrimosos.
Hila,
Pena que tenha dado o nome de João ao personagem.
Mas, você que escreve, dá conta de controlar um personagem?
E se ele tinha o costume de ir pra lida da roça sem botinas?
Você sabe que tanto João, José, Joaquim, Maicon ou outro qualquer são cabeçudos. Nunca escutam alerta da mulher!
Beijos,
TT
TEREZINHA
Esse drama que nos narrou tão bem e deliciosamente é o cotidiano de muitas familias no Brasil, onde a mulher, após a perda de seu marido, passa a chefiar e se responsabiizar integralmente pela casa, com todos os deveres, tanto os dela, somados agora com os de seu marido.
Ela – diante dos seus filhos – passa a ser o único sustentáculo e esperança de se chegar a algum futuro.
Mulheres como essas que você descreveu revelam que somente o trabalho, a fé, o amor e muita dedicação pode levar a um final feliz, mesmo com a tristeza que a acompanhou pelo resto da vida.
Parabéns.
Terezinha respondeu:
junho 21st, 2009 at 14:41
@GUTIERRITOS,
Muito obrigada pelo comentário.
E você ainda tem que pensar que o mundo está assim de viúvas de marido vivo, que se agarram à vida, a seus filhos, a seu trabalho como esta Mulher feliz…
TT
Lindo conto, Terezinha: a mulher da história foi forte, como muitas (se não todas) têm de ser para continuar a viver, trabalhar, criar seus filhos e até ser feliz.
A perda de um companheiro é um dos maiores estresses que alguém pode sofrer, mas apesar do clichê, a vida continua sim. Por piores que sejam os problemas que nos afligem, a vida continua e temos de viver um dia depois do outro e fazer o melhor que pudermos.
Grande abraço!
Terezinha respondeu:
junho 21st, 2009 at 14:38
@Cristine,
Muito obrigada Cristina.
A força da mulher é mesmo de grande importância neste mundo. Precisamos fazer uso dela, sempre, para que o mundo seja melhor.
Beijos,
TT
TT
A conclusão da história foi belíssima.
Outra coisa não poderia sair dessa cabecinha criativa.
Muito boa, mesmo.
Beijos,
lu
Terezinha respondeu:
junho 21st, 2009 at 14:35
@Lu Dias BH,
Obrigada Lu. é a história de uma mulher feliz. Como grande parte das mulheres de hoje. Pelo menos, por aqui.
Na Índia, não sei.
Beijos,
TT
Terezinha,
Lindíssimo esse relato e com uma descrição tão pura que é possível entrar na história e vivê-la intensamente. Triste é sentir a angústia dessa mulher naqueles três meses de luto, que tiveram que acabar porque a sobrevivência era necessária. A dela e dos filhos.
Beijo!
Terezinha respondeu:
junho 21st, 2009 at 22:25
@Jovimari,
Muito obrigada por haver entrado na minha história.
É. O luto precisa mesmo ser vivido intensamente para que a esperança se renove.
Abraços,
TT
TT querida,
Você já reparou que mulher é bicho forte? Ela se abate mas toma as rédeas para si. Belo final. Bjo. Ana
Terezinha respondeu:
junho 21st, 2009 at 22:25
@Ana Lucia Timotheo da Costa,
Obrigada pelo leitura.
A maioria daas mulheres é mesmo bicho forte.
Beijos,
TT