Na gaveta da memória – Sonia Quartin
Acordei com uma música antiga tocando no rádio que havia esquecido ligado. Ela estranhamente me reportou para uma dimensão esquecida em minha memória: tinha, então, meus treze ou quatorze anos e estava no nosso sítio. Parecia tão verdadeiro esse momento que quase pude ouvir a voz de meu avô, dizendo:
- Dona Eunice, vá buscar o violão!
Formalizava o pedido sempre dessa forma: com jeito de quem dava uma ordem. Era do seu feitio e minha tia Eunice obedecia, como era costume de todos fazerem.
Caia a tarde, quase noite, o lanche já tinha terminado. As primeiras estrelas apareciam no céu. Seria uma daquelas noites lindas de primavera. O cheiro de mato nos envolvia e começava aquele barulho indefinido dos pequenos insetos do jardim. Os pirilampos acendiam suas luzinhas verdes e tudo parecia mágico e belo.
Na varanda as pessoas começavam a ocupar seus lugares: uns em cadeiras, outros nas redes, ou mesmo nos degraus da escada e nos batentes das portas; em torno da tia Eunice, formava-se a platéia, atraídos pelos primeiros acordes do seu violão, dedilhado por mãos ainda frias e não muito experientes. Mas… o que importava?
Assim, iam saindo valsinhas antigas, fados chorados e tristes, sambinhas brejeiros…
Algumas cançonetas cantadas por ela mesma, num fio de voz, outras que faziam parte do repertório de cada um de nós e que só nós podíamos cantar.
- América! Deixa essa cozinha! – era vovô chamando mamãe.- Vem cantar aquela que eu gosto! Como é mesmo? Cicatrizes! Essa mesma!
E minha mãe aparecia na varanda ainda enxugando um prato e cantava a valsa de sempre com a provação de todos.
- Sonia! Célia! Agora vocês! Saudosa maloca! – E nós não nos fazíamos de rogada.
Cada um sugeria a sua preferida. Algumas vezes, cantávamos em coro, outras apenas batíamos palmas, acompanhando o ritmo com entusiasmo. Havia momentos em que todos se calavam e ouviam com atenção uma canção mais romântica, um bolero mais sentimental. Tia Eunice conduzia a audição.
Lá pelas tantas minha avó pedia, na sua simplicidade:
- Toca a “peneira”! – e todos cantavam a sua predileta:
“ Tava na peneira, Tava peneirando…”
Meu tio ficava encarregado dos fados que cantava com todo o sentimento, trêmulos de voz. Vez por outra, a memória falhava e sua mulher, tia Eunice, sempre atenta corria em seu socorro. E a coisa ia saindo:
“ Não sei, não sabe ninguém,
Porque canto o fado, nesse tom magoado…”
E lá pelas tantas, sempre alguém sugeria a música do Nelson Gonçalves que minha tia odiava,
só para mexer com ela. E ela sempre se recusava a acompanhar dizendo:
_ Essa eu não toco! “Acostume-se à derrota??? A vitória não pertence ao infeliz???” Não!!! Essa eu não toco!!!!! É muito deprimente!!!!!
Todos riam muito dessa implicância dela e, só para temperar a audição fingíamos adorar aquela canção.
A noite avançava, mas quando o vento frio trazido do mar e os pernilongos começavam a incomodar, era hora de, cada um, procurar o seu quarto. Fim de noite.
No rádio a música também já tinha terminado. E, como sempre, guardei meu passado na gaveta da memória.
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Soninha querida,
Muitas vezes sou acometida destas lembranças. Aí ‘dano’ de cantar o dia inteiro a mesma música. Recordar é mesmo viver, concorda?? Bjo. Ana
SÕNIA
Um das coisas mais belas da vida é recordar a música, principalmente em episódios que participamos.
Esse texto traz-nos essa mensagem e nos leva a devaneios voltados aos bons tempos.
Obrigado por proporcionarmos a oportunidade de pensar um pouco nesta saudade maravilhosa.
Cantar é bom demais. E cada música carrega consigo tanta informação, não é? Fez parte daquele momento de nossa vida, aconteceu que a ouvi naquele dia tal, dancei esta com fulano, e assim por diante. Música é coisa divina.