Na Praça da Matriz – Hila Flávia

Por Hila Flávia, 7 de fevereiro de 2009 17:06

A hora de dormir era marcada pela compassada batida do relógio. Mas como dormir com o coração batendo a mais de 150 por minuto? Hortênsia tinha certeza disso: mais de 150 batidas por minuto. As batidas eram muito diferentes. Colocou uma das mãos no pulso e sentiu. Era um coração acelerado. E, para dizer a verdade, confessou baixinho até para si mesma, muito acelerado também porque o que pensava… o que pensava…

Abriu bem os olhos para enxergar seus sonhos. Eram tão bonitos que era uma pena não vê-los. E se viu. Linda e leve como uma pluma, descendo as escadas de uma casa tão bonita! Achava até que era um castelo. Um vestido lilás, de tule, com mais de dez saias coloridas por baixo, tomara que caia, com uma flor nos cabelos grandes e anelados. Quando andava, suas saias acompanhavam docemente suas descidas nos degraus. E aí o viu, lá em baixo. Magro, nem tão bonito assim, charmoso, de roupa preta de gala. Foi descendo até chegar a tocar uma de suas mãos. Levemente, Nessa hora, a orquestra tocou. E Fred e ela saíram dançando. Ah, Meu Deus, dancing in the dark, mas parecia tudo claro, passos maravilhosos onde se aproximavam e se afastavam. A mão dele rodeava sua cintura, uma cinturinha, por sinal. E ela sorria, e ele sorria, um chão espelhado os refletia. Estava tão bom que ela piscou os olhos. E Fred sumiu. Evolou-se. Então ela olhou o teto, fechou os olhos e pensou até dormir. Tudo isso se passou entre uma batida e outra do relógio da matriz. Como ele era lento! Não tinha reparado nisso. Entre uma batida e outra Fred aparecera e sumira. Mas não ficou de olhos fechados, arregalou-os bem e viu o Rick. Como fumava, gente! Iria acabar com um câncer no pulmão! Ele olhou para ela de tal jeito que Deus me livre. E, para complicar a situação, pediu ao Sam que tocasse aquela música. Ele a amava demais, ela sabia. Amava loucamente. E o diabo do Sam tocou. Again. Tocou again. Rick sabia que que ela não poderia abandonar o marido e a causa. Mas sabia também do amor dela. Situação difícil. As time goes by tocando e ela fechou os olhos para ouvir. Sempre escutava melhor de olhos fechados. E, pronto. O Rick e Sam bye, bye. O relógio bateu. Como era o som do relógio? DOM… DOM…DOM… ou TÃO…TÃO…TÃO… Era era musical e não sabia traduzir o som. Enquanto pensava nisso, eis que, não mais que de repente, descia as escadas do cais batendo umas palmas ritmadas, tipo moonglow, sabe, cada passo uma palma charmosa assim meio de lado da mão. E o Holden lá, olhando, aquele vagabundo. Ela estava tão bonita, cabelo arrumadinho, nariz perfeito. Não iria dar certo, ela sabia. Mas aquele música, aquele seu dia estava fadado a uma loucura das bravas. Acabou de descer as escadas e, antes de entrar na barca, caiu na bobagem de piscar de emoção. Pronto. Lá,lá,lá,lá lá, estava feito o estrago. Enxergou o teto. Assim não podia ser. Se pelo menos fosse mais tarde. Mas onze horas só… Ainda faltavam oito eslaides. Toda noite era a mesma coisa. Uma câmara de tortura aquela sua cama. Não podia ficar acordada, esperando uma hora da manhã, pois hora de dormir era hora de dormir. Onde já se viu dormir depois da meia-noite? No outro dia! Não tinha condição. Não tinha base, diziam. Outra batida, outra vez voava seu acelerado coração. Voava nada, ardia, pois que ela era Natalie, enrolada num roupão branco. Educação rígida a sua, não conseguia fazer valer sua vontade, seu clamor. Como canta a Marrom: que sufoco! Era melhor piscar, antes que a internassem num hospício. DOM… ou seria TÃO… Relógio danado de mole. Aproveitou para abrir os olhos e se ver com Adam, naquela charrete, no campo florido, coitada, ainda sem saber que teria de alimentar, lavar e passar para ele e seus seis marmanjos irmãos, todos brigões e famintos. Mas não se amedrontou. Ela cantou tão bonito, e ele também. Não se importaria de trabalhar. Era magrinha mas forte, estava acostumada ao batente. Encostou no largo ombro do marido e fechou os olhos. Pronto. Charrete derrete de olhos fechados. E, entre uma batida e outra, veio o Robert na África a lhe falar de amor. Ô belezura de homem! Veio o Ricelli, aquele Tião fura-greve, sem black-tie, numa precisão danada de seu corpo. Ela também, lúcida e enamorada, naquele quartinho emprestado. I need you para ele também. Ou want, sei lá. Mesmo em filme brasileiro, a precisão era em inglês. Não tinha jeito. Afinal… DOM… Quem chega é o Gregory, capitão de navio mais respeitador nem havia. Mas a olhava que nem tocasse. Pecava do mesmo jeito, pois não está escrito que desejo só basta? Bom… Sentiu, de olhos abertos, toda a sensualidade do Dimas, aquela araponga errante da novela. Ela esperaria que ele se ajeitasse com aquele maldito pai que não o reconhecia. Sem ele é que não ficaria, lá isso não. TÃO… Para que foi fechar os olhos mesmo na hora do beijo dele, beijo forte. Quem mandou piscar? Deve ter ido o querido Dimas para a beira do rio, e com frio, coitadinho. Bate depressa, relógio, senão me ardo. Que maldade esse relógio molóide em cidade pequena. Até pensou: vou ganhar na loto e implantar um computador na igreja, para o sino bater sem dar tempo de ninguém pensar. Vocês verão, todos vocês, seus árabes do deserto, com esse sheik de branco na frente , de pele tostada do calor e das tempestades de areia. Pensam que só porque ele a colocou na garupa do cavalo que vai ser fácil? Não vai não! Não sou daquelas inglesas que caem nas malhas desses sheiks de oásis, mesmo sendo o Jeff. Mas, quando viu a cara dele, piscou. Ela é mesmo uma infeliz piscadora. Ou eu , nem sei como explicar. Ela ou eu? Porque não deixou para piscar depois de entrar naquela tenda forrada de seda? Relógio miserável. A culpa é dele! A culpa é dele, que bate onze horas, hora, ora, de ir dormir.

Ela é mulher obediente, nem fala, para não incomodar aquele que dorme ao seu lado. Dorme é delicadeza de expressão. Mas, coitado, ele trabalha tanto! E sai toda noite para jogar umas cartinhas com os amigos e beber umas e outras no bar. Quando chega em casa não quer mesmo conversa. Está exausto. Já conversou que chegasse. De vez em quando cumpre seu dever de marido. O vigário já explicou: homem é assim mesmo. Mulher é diferente. Quando contou para ele que sonhava de olhos abertos, não acreditou. Para ele, vigário. Porque para ele, marido, ela não fala coisa sua não. Ele não se interessa nada por coisa nenhuma que ela fala. Também, um assunto tão bobo!

É melhor mesmo dormir. Amanhã se levanta cedinho. Labuta pesada. Fechou bem os olhos da cara, fechou os olhos do coração.
Dormiu como uma lady. Só arfou um pouco lá pela madrugada, com aquele capeta do Mellors povoando seus sonhos, em Charterlay.

Trem danado de sem jeito!

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6 comentários para “Na Praça da Matriz – Hila Flávia”

  1. lu dias bh disse:

    Hila

    Você construiu uma personagem linda.
    Sem falar que o nome Hortência é maravilhoso.
    Gosto desse seu jeito dengoso de escrever, que vai nos seduzindo até o final.

    Eu também sonho de olhos abertos.
    É tão gostoso!
    Acho que os homens também fazem isso.
    Eles é que não contam.

    E desejo só não basta!
    Mas, na impossibilidade, basta… risos.

    Beijos,

    lu

    Hila Flávia respondeu:

    Eu não sonho acordada não, Lu. Faço planos e normalmente os executo. Mas sei de muitas Hortênsias que são sonhadoras por demais. Beijoca acordada.

  2. GUTIERRITOS disse:

    HILA

    Parabéns pelo seu texto.

    Aqui em casa eu não deixo a Cidinha sonhando.

    Nem piscando.

    E o vigário então, passamos longe.

    Agora, fiquei curioso: mulher sonha tanto assim ?

    Hila Flávia respondeu:

    Eu, pelo menos, Gutierritos, durmo que nem uma pedra. Sonho só dormindo mesmo. Mas a Hortênsia, coitada, acho que tinha o sono leve e morava perto do sino da Matriz, né? Ô dó!

  3. Terezinha disse:

    Hila,
    Conto cinematográfico!

    Hortência sonha. Uma batida de relógio. Primeiro Fred que não está dançando no escuro. Ele está Singing in the Rain. Fred some…Outra batida de relógio. Surge o Rick. Como fuma. Ilse? E o Sam obedece a ordem de Rick. O relógio. As time goes by. Dom… dom… dom…

    Holden. Western? Tão… tão…tão…

    Não encontrei natalei enrolada num roupão branco em nenhuma tela. Natalie, enrolada num roupão branco, esta não encontrei em nenhuma cena. O canto da Marrom. “De tudo o que eu gosto! DOM… ou seria TÃO… Relógio que não anda.
    O Adam mais os seis irmãos e as sete noivas. Robert Redford Out of África with Hortência??????? Gregory, o capitão dos mares. A pele tostada. E surge Ricelli, bem cuidado pela Bruna.Dim dom…dim dom… Tom…tom…tom…
    Não vai não! Não sou daquelas inglesas que caem nas malhas desses sheiks de oásis, mesmo sendo o Jeff o romance com Mellors. Faltou Cecília, a sonhadora rosa púrpura do Cairo. Vai sonhar tanto assim numa sessão de cinema…

    Ó trem danado de bão! Do,…do,…dom…dom…dom

    Hila Flávia respondeu:

    Vamos por parte, como Jack: A Natalie é a do Clamor do Sexo, do Elia Kazan, um dos filmes que mais me marcaram na minha vida. Há pouco o revi, com o mesmo impacto adolescente. O Ricelli, Tião Fura-Greve é o do Eles não usam black-tie, do Leon Hirshman( será que é assim?) e a afoita mocinha era a Bete Mendes. Fiklme bom demais da conta. Eternamente bom e pertinente. O Jeff é o Chanders, defundo, que ficava lindo de Sheik num cavalo branco correndo nas areias do deserto. Tempos bons sem fundamentalistas. Aquele Cecília me irritou um pouco. Gostei muito dela não. Tela é tela e sonho é sonho. È como dizia Lúcio Flávio, o agoniado e agônico passageiro: Polícia é polícia e bandido é bandido. Isto foi antes de misturarem as coisas. O Robert esta Out em África mesmo. O ruim do filme é que levei a Isabel minha caçula comigo e, embasbada com a belezura do rapaz, ouvi dela o seguinte comentário: quem é aquele velho, mãe? O Dimas é da Novela Sinhá Moça. E vamos em frente que atrás vem gente. Misturando os comentários: você quer ir conosco para a Índia?

    

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