O olhar da menina era doce. Só as crianças sabem fitar a gente assim. Seu cabelo, castanho, sedoso. Ficava amarrado no alto com umas florezinhas, mas deixava cair umas pontas de franja na testa. Pequeno rosto, cheio, de bochechas rosadas. O queixo tão marcante que, só por ele, se daria mais idade à dona. Ela se debruçava sobre um cachorrinho bicolor gostosamente aninhado em seus braços e nas suas saias volumosas. O vestido espalhava-se em volta, escondendo pernas e pés que deviam estar cobertos com meias e cetim. E trazer laços, talvez. Como fundo, um canto de jardim apenas esboçado, porque o importante eram as figuras da menina e do cão com seus olhares de mel. Mais que acolhedores eram convidativos aqueles olhares.
A cena em tons de sépia decorava um pequeno baú sempre a postos na estante. Uma vida inteira eu passara por ele sem lhe dar maior atenção. Naquele dia, em meio às buscas de um passado, atendi ao convite da menina que não crescera, como eu, e continuava ali, de franjinha e faces carnudas, com flores, cachorro e cetim. Abri a tampa bojuda e olhei, desta vez com olhos de ver. Ali estavam maços de cartas, de diferentes épocas, recebidas por minha mãe. Surpreendi-me ao manusear, também, cartas dela a Lucinda, amiga e confidente de muitos anos. Estas encontrei dentro de um mesmo envelope sobre o qual a caligrafia de mamãe me explicava: Devolvidas por Maria Clara após a morte de Lucinda.
Imediatamente acomodei-me e ao baú na mesa da sala, debaixo de boa luz e ao lado de um bule de chá. E me debrucei sobre o material, a intuição me indicando o caminho por entre datas e nomes. Não vou deter-me aqui sobre as recordações e também as descobertas que o meu olhar maduro me deixou entrever naquelas cartas. Nelas encontrei minha mãe jovem, construindo-se, maravilhando-se, desafiando a vida. Elas me trouxeram a mocinha que se tornou mulher por motivo de amor, um amor tão absoluto que lhe deu força interior para enfrentar os padrões sociais e a moral da época. A noite avançou, virou madrugada e a manhã ainda me encontrou ali, tentando organizar pensamentos e emoções, como se isso fosse possível. Como não era, limitei-me a separar três cartas fundamentais: uma de minha mãe, falando das circunstâncias inusitadas de seu amor e dizendo de sua gravidez, para Lucinda; a segunda, do homem que hoje sei com certeza que foi meu pai, em linda linguagem poética falando do seu amor mas, contraditoriamente, despedindo-se de minha mãe para sempre; e uma última, bem mais recente, em que Lucinda, já em idade avançada, conta ter recebido a visita de meu pai, arrependido pelo abandono, e desejando reparar os anos de indiferença a mim antes de morrer. Lucinda, como intermediária, ainda insistia para que minha mãe deixasse o orgulho de lado e abrisse uma porta para tal reparação.
Nesse ponto Eduarda pára e relê o texto. Encontra coerência e algum estilo na narrativa. Esta exigência é quase um cacoete de fiel amante da boa leitura e da escrita cuidadosa. Sorri para si mesma, compreendendo-se melhor, agora que sabe que o pai era poeta. A procura de beleza e harmonia, até nas mais simples comunicações por e-mail, então, é hereditária. Pela primeira vez ela se percebe visceralmente conectada com o mundo. Sentindo que pode fechar a mensagem, prossegue.
Ficou evidente para mim que tal porta não se abriu naquela ocasião e que meu pai sobreviveu à Lucinda e à minha mãe. Na impossibilidade de se aproximar e de nos agraciar com alguma compensação diretamente, serviu-se para tanto da carta-testamento em poder de V. Sas. para fazê-lo depois de morto. Compreendendo as dúvidas que devem pairar sobre o julgamento de meus irmãos - seus clientes- junto a esta as três cartas mencionadas para exame grafológico.
Com o mesmo objetivo, informo estar à disposição para o exame de DNA que me parece oportuno.
Finalmente, afianço-lhes que Maria Clara Guerreiro é pessoa idônea e pode testemunhar sobre a visita de meu pai à sua mãe Lucinda, fato narrado em uma das cartas.
Assim sendo, nada mais tenho a acrescentar de momento e passo a aguardar informação sobre os desdobramentos do assunto.
Atenciosamente,
Eduarda torna a reler. É mesmo perfeccionista, o pai teria gostado de conhecê-la.
Sente-se aliviada após tantos anos de dúvidas, perguntas respondidas com meias-palavras e grande carência afetiva. Satisfeita com o texto, ela finalmente põe cabeçalho e introdução à correspondência, itens que sempre deixa para o final (outro cacoete).
Ao Escritório de Advocacia Baroni & Associados
A/C Dr. Fernando Baroni
Prezado Sr.
Conforme solicitado e indicado por V. Sa., realizei uma busca nos pertences de minha falecida mãe, no intuito de localizar referências esclarecedoras de minha filiação. Certa de haver encontrado evidências relevantes, passo a relatá-las, contando com sua condescendência se me estendo, pois é a minha intimidade que se revela, mexida desde um passado que eu mesma não conhecia. Assim, deixe que dele eu me aproxime com a suavidade necessária para assuntos dessa natureza.
Eis como cheguei aos fatos…
*
O advogado se impacienta com a dificuldade do rapaz que o olha do outro lado da mesa do escritório, com as folhas das cartas na mão.
— Entendeu agora? , diz apressadamente, diante do ar ainda confuso do estagiário de Direito.
Mais uns segundos e afinal a ficha cai.
— Cara!, não era mais fácil ela só dizer ” ele era mesmo meu pai, olha aí as provas e a testemunha que eu tenho e vamos pro exame de DNA”?
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