O cenário dos transplantes no Brasil (parte 3) – Cristine Martin

Por Cristine Martin, 2 de julho de 2009 10:14

Na terceira parte de uma série de 4 artigos, publicados no Alma Carioca e no Rato de Biblioteca, vamos ver como está o cenário dos transplantes no Brasil.

O programa de transplantes no Brasil se destaca pelo crescimento no número de transplantes realizados nos últimos anos e pelo investimento público na especialização das suas equipes com conseqüente aumento do número de equipes habilitadas. O Sistema Único de Saúde (SUS) financia cerca de 86% dos transplantes realizados no Brasil e também subsidia todos os medicamentos imunossupressores para todos os pacientes. E não é pouco; um transplante de fígado custa R$ 50 mil; o transplante de rim com doador vivo sai por quase R$ 15 mil, enquanto que com doador cadáver custa R$ 19 mil. O transplante de córnea, o mais barato, sai por R$ 700,00, enquanto o mais caro, o de medula óssea, custa mais de R$ 66.000,00. A maioria dos planos de saúde não cobre esse tipo de tratamento.

O custo da não realização de transplantes também é alto; além do custo humano, das milhares de pessoas que morrem sem ter a chance de fazer o transplante, o Estado brasileiro consome mais de R$ 1,3 bilhão por ano com diálises e hemodiálises, que poderiam ser suspensas em caso de transplante. Sem falar do sofrimento físico e emocional dos pacientes na fila de espera.

Não existem grandes obstáculos à doação de órgãos no Brasil, visto que todo o processo está regulamentado. A melhor forma de um indivíduo se tornar doador após a morte é avisar os familiares, manifestando, em vida, este desejo. Quando isto ocorre, a família sempre concorda com a doação para satisfazer o “último desejo” deste indivíduo. Embora 60% da população concorde com a doação de órgãos, os profissionais de saúde de terapia intensiva e setores de emergência notificam apenas um em cada oito potenciais doadores.

Estima-se que, todos os anos, seja realizada, no Brasil, apenas a metade do número de transplantes de córnea necessários. A situação é mais grave no caso de rim, um terço, e ainda pior para os pacientes de fígado, um quarto. Os transplantes de coração equivalem a menos de 5% do que seria preciso. As filas de espera crescem tanto que, dependendo do órgão, 10%, às vezes até 30%, dos pacientes morrem antes de ir para a sala de cirurgia.

Mesmo com o grande número de vítimas da violência urbana e do trânsito no Brasil, que poderiam ser doadores, o desperdício é enorme, pois o tempo de aproveitamento do órgão após a retirada do doador cadáver depende do órgão, mas em todos os casos é muito curto.

Segundo estudos do Prof. Valter Duro Garcia, coordenador de transplantes da Santa Casa de Porto Alegre, todos os anos o país produz de 11 mil a 18 mil doadores de órgãos em potencial, pacientes com morte encefálica mantidos vivos à custa de aparelhos. Ainda assim, para cada transplante realizado, órgãos de 18 pacientes deixam de ser aproveitados. Desde 2001, o total de brasileiros que aguardam órgãos para transplante passou de 43.500 para mais de 66.000 pessoas.

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Crédito: material de divulgação do site da ADOTE

 

Em entrevista concedida em 2003, o Dr José Osmar Medina Pestana, que é Diretor do Hospital do Rim e Hipertensão e Presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), fala sobre os transplantes no Brasil.

O perfil econômico das pessoas transplantadas é o baixo poder aquisitivo. A faixa etária média é entre 20 e 50 anos. Da mesma forma que com os pacientes de AIDS, o sistema de saúde pública oferece gratuitamente aos transplantados os melhores medicamentos do mundo, durante toda a vida do paciente.

O Dr. José Osmar conta que nos países desenvolvidos existe a tendência de distribuir os órgãos de maneira mais utilitária, por exemplo, evitar transplante em pessoas de mais idade ou dar preferência a pessoas com melhores condições sociais. No Brasil isso não acontece, pois todas as pessoas em condições clínicas são igualmente candidatas ao transplante, e aguardam na lista única.

Como o Brasil é um país muito grande, é difícil fazer uma lista do país inteiro, pois a distribuição dos órgãos depende do tempo de preservação do órgão, que não pode ser ultrapassado. No estado de São Paulo existe uma lista única de alguns órgãos, mas dependendo do local ela tem de ser regional. A distribuição regional tem a vantagem da família que doou ver o benefício. Além disso, com a divulgação na região é criada a cultura do transplante e aumentam as doações.

Ele cita o caso do banco de órgãos de Sorocaba (SP), que criou um sistema de procura de córneas nas duas funerárias da cidade. As famílias de todos os que morriam eram procuradas para doarem as córneas e atualmente, mais de 90% das pessoas que morrem são doadoras de córneas. Hoje não existe fila de espera por córnea naquela cidade.

Outro ponto importante apontado é que o problema não é a autorização da família, pois 70% das famílias concordam com a doação; o problema está na estrutura do sistema de saúde e notificação dos órgãos disponíveis para transplantes. De cada 12 potenciais doadores, ou seja, pessoas com morte encefálica comprovada e que continuam com acompanhamento médico, somente uma é notificada. Deve haver envolvimento dos médicos com o programa de transplante, pois eles precisam notificar que há órgãos disponíveis de um doador em potencial a tempo de retirar os órgãos e realizar o transplante.

Ainda assim, é importante a realização de campanhas informativas com a sociedade, para que as pessoas saibam mais sobre os transplantes e a doação de órgãos. No último mês de abril o Fantástico exibiu uma série de reportagens sobre transplantes, e com isso o número de doações aumentou bastante. Com a divulgação de informações, participação dos médicos e a maior organização do sistema de saúde, quem sabe a fila de espera possa diminuir.

*   *   *

Mais informações:

Leia também:

Parte 1 – Doação e transplantes de órgãos

Parte 2 – A lista de espera e o sistema de classificação

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7 comentários para “O cenário dos transplantes no Brasil (parte 3) – Cristine Martin”

  1. Lu Dias BH disse:

    Cristine

    Esta série de artigos, sobre doação e transplante de órgãos no país, está fantástica.
    Sem dúvida alguma, é uma das melhores que já vi aqui.
    Sem falar que o tema é de extrema importância.

    Os seus textos estão muito bem elaborados, dentro de uma linguagem acessível a qualquer pessoa.

    Como lhe disse anteriormente, o maior problema continua sendo o medo que possíveis doadores tem do sistema.

    Num país com tantos escândalos, partindo do judiciário, legislativo e executivo, órgãos que deveriam ser o exemplo da ética para a nação, esse medo de fazer doação pode ser compreendido.

    Mas, é a partir de textos como os seus, que a sociedade vai ganhando maturidade, para enxergar a grandeza do ato.

    Esse trabalho deveria começar nas escolas, dentro das grades de Ciências, Biologia e Ética.

    Cris

    Parabéns por trazer um assunto de suma relevância, para conhecimento de todos.
    Esta é uma bela forma de ser generosa.

    Sua fã!

    Beijos,

    lu

    Gostaria que você enviasse seus artigos para revistas médicas e semanais, principalmente agora que a figura do jornalista diplomado não é mais empecilho.

    Cristine respondeu:

    @Lu Dias BH, obrigada pelo comentário tão simpático e afetuoso (então, somos fãs uma da outra!)

    O objetivo dos textos é mesmo divulgar informações de uma forma clara, para que as pessoas, sabendo dos fatos, possam tomar sua decisão melhor. Respeito o direito de cada um decidir o que deseja a esse respeito (e sobre outros asuntos, claro!), e espero estar ajudando nessa tomada de decisão.

    Não sei como poderia publicar os textos em outros veículos, mas por favor sintam-se à vontade para divulgá-los, quanto mais informação melhor!

    Novamente obrigada, e um grande abraço da amiga e fã,

    Cris

    Lu Dias BH respondeu:

    @Cristine,

    Cris

    Entre nos sites da Veja, Isto é, Carta Capital, assim como nos sites de medicina e envie.
    Mande também para o Ministério da Saúde, SUS, Secretaria de Saúde dos Estados…

    É assim que faço.

    Obrigada pela permissão do uso.

    Abraços,

    lu

  2. anarquista disse:

    Cristine:

    Peço a gentieza de enviar mais detalhes pra este e-mail:

    marinhodn@uol.com.br.

    Esse assunto me interessa muitíssimo.

    detalhe:

    Sou selvícola. O que significa que provalmente não responderei.Se não se incomodar com isso…

    Cristine respondeu:

    @anarquista, obrigada pela visita e comentário. Posso enviar os outros textos publicados para seu e-mail; também me interesso muito por esse assunto, mas não sou especialista ;-)

    Mas se encontrar mais informações sobre o assunto, enviarei para você.

    Grande abraço!

  3. GUTIERRITOS disse:

    CRISTINE

    É importante ter presente que todos esses textos estão trazendo muita informação e são de grande valia para disseminar cada vez mais a idéia de que o transplante não é mais um tabu, uma coisa quase inacreditável, mas uma realidade maravilhosa.

    Estou gostando muito de suas publicações e vou acompanhá-las até o final.

    Ah, não me esqueci, estou levantando dados cuidadosamente, pois é necessário analisar com bastante calma a questão da fila do transplante, no que diz respeito às decisões no Judiciário.

    Parabéns mais uma vez.

    Cristine respondeu:

    @GUTIERRITOS, obrigada pelo comentário. Fico feliz que esteja gostando dos artigos, e por favor nos conte o resultado de sua pesquisa, quando terminar.

    Grande abraço!

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